O canto erudito na fase actual da literatura moçambicana

Quem me dera poder ter o pendor empreendedor ou, ao menos, inventivo, para, de forma consistente, divulgar uma plêiade de nomes, ao largo dos quais muitas vezes passamos sem lhes darmos a merecida atenção! Divulgar, isto é, publicar seus feitos literários, pela força emotiva que têm, pela carga de sapiência que transportam, pela erudição que impregna os seus conteúdos, ainda, na plenitude da sua juventude!

São jovens que brotam do nosso chão, não, porém, como cogumelos que espontaneamente nascem aqui, ali e acolá, como erroneamente se pode pensar, mas como jovens que, de tanto ignorados, se levantam, a pouco-e-pouco, com esperança é certeza, do chão, por sua conta e risco, e erguem suas vozes, cujo eco retine nos ouvidos daqueles que,  indiferentemente as ouvem e as subestimam ou, daqueles que, verdadeiramente, se prestam a ouvi-las, mas pouco ou nada podem, por elas, fazer, porque excluídos dos pódios decisórios.

São "Lume Florindo na Forja", como outrora outras vozes assim surgiram, nos primórdios da poesia moçambicana e ao longo do seu percurso temporal, como o autor destas linhas, nas mais profundas dobras da extensão deste país, então de poetas, e fizeram o brilho das suas épocas e hoje, alguns, com firmeza, continuam a lapidar, plenos de conhecimento e experiência, o verbo-sangue da sua alma, nas artérias do seu povo, uns, fazendo jus à continuidade do não vão epíteto: País de Poetas! Outros, sem, porém, espírito minimalista em relação aos confidentes das musa, calcorreiam os passos iniciáticos de  Luis Bernardo Honwana, e tentam, de forma, um tanto descontinuada, entremear a tradição poética, fazendo, assim, amalgamar a poesia e a prosa, num como que cocktail das letras. Quer queiramos, quer não, são todos poetas com diferenças de prurido. Nos tempos modernos, que são estes que correm, os nossos, a poesia diversificou-se ou tornou-se resiliente quanto à sua sua forma clássica. Hoje, ela continua com as suas estrofes, mas já não policiadas pelos gendarmes da classificação estrófica, da rima, da medida do verso, da métrica, enfim, de todos os ingredientes canónicos que sempre a caracterizaram! Ela foi entrado para o domínio comandado pelo texto corrido, pela prosa, adoptando o nome colateral, mas nem por isso, menos vibrante, de prosa-poética; ela foi entrando no romance, no conto, na crônica, na novela, no teatro, na história, enfim, hoje, ela é tudo isso ou, tudo isso veste o manto da poesia! Não há nada melhor que o nome genérico de Literatura, para significar essa fabulosa amálgama de gêneros, pois, qualquer um deles, enverga a roupagem da poesia ou seja, afinal, o nosso país continua a ser um país de poetas distribuídos pelos diferentes ramos ou modalidades da literatura!

Menciono alguns vates novos, selecionados aleatoriamente, de um  vasto leque de confidentes das musas, e prosadores que, para além do já dado a estampa, ainda terão as suas criações largamente divulgadas, não, apenas pela abundância, mas por inequívoca qualidade, fruto de muito talento, do conhecimento, resultante de estudos aturados desta área em que quem fala é a alma, o espírito dos autores literários, esta área, essencialmente, epistemológica.

Nesta menção, não se enverede, pois, nem há lugar para isso, ao julgamento desta iniciativa, pela gratuita via de equidade do gênero, sem a compenetração necessária da realidade literária moçambicana, pois, como anteriormente se frisou, trata-se de um exercício aleatório de trazer à tona escritores e poetas que raramente são mencionados na nossa arena literária, independentemente do que a rifa genética tenha atribuído ao seu estado biológico. Os acontecimentos podem ser únicos, mas sempre se repetem, montados no cavalo do tempo, revestindo, certamente outras roupagens, condicentes, naturalmente, com a sua época, mas surtindo os mesmos efeitos, o apuramento da veia criadora, baseada no que vai na alma dos criadores literários/poéticos.

Pois, esta verve confunde-se com a dos jovens de ontem! Ela é como que uma ressonância do grito antigo, sobre uma escala cromática polida, renovada, sobre o solfejo da mesma pauta, impressa e expressa, para que todos a leiam e interpretem da forma que a evolução das coisas, no espaço e no tempo, exige.

Estas vozes cantam e encantam! 

Não exaustivamente, lança-se, aqui, um feixe deles, apenas para servirem de mostruário que se deseja seja uma carta guia do mundo actual da literatura moçambicana:

Leco Nkhululeko, Marcos Matosse, Ernesto Moamba, Anísio da Conceição, Anísio Buena....., Emmy Xyx, Isa Manjate/Manhique, Predestinada/Amélia Matavele, Japone Arijuane, Heliodoro Baptista Jr., Isa Manhique, Rudencio Morais/ Falso Poeta, Nelson Lineu, Pedro Pereira Lopes, Mbate Pedro, Sangari Okapi, Rinkel, Mauro Brito, Amosse Mucavele, Aurelio Furdela, Sangari Okapi, Chakil Aboobacar, Dionísio Bahule, Dany Wambire, Alex Dau, Mukuda Pinho, Arnaldo Bata, Ivone Soares... (aos mais novos da nossa literatura não mencionados aqui, devem-se sentir, implicitamente citados, pois, este espaço que aqui abri é de todos eles. 

Entenda-se, pois, esta mal traçada prosa, como o motivo que me impele a apelar a quem, por definição oficial ou, ao menos, oficiosa, tutela, promove ou deve promover as letras nacionais, a apurar os seus instrumentos de acompanhamento do nosso desenvolvimento literário, os seus radares devem agir, no sentido de detectar e valorizar, não só as antigas glórias desta área, mas também e sobretudo, as novas vozes que despontam no universo literário moçambicano, pois, estas asseguram não só o presente, a continuidade, como, também, a certeza do futuro das nossas letras. O mesmo apelo vai para os mecenas, para os patrocinadores, para todas as pessoas individuais ou coletivas, de boa vontade.

A erudição no título desta reflexão, é-o na verdadeira acepção do termo, a avaliar, em primeiro lugar, pelos títulos que estes autores atribuem às suas obras e, de seguida o discorrer do verbo que com ele condiz, ao longo dos textos. Sente-se, por vezes, que, todavia, a inexperiência, em alguns, se manifesta, algum lapso de firmeza, próprio dos passos iniciáticos da juventude, sem que isso, contudo, vença ou faça sucumbir o seu estro. Julgo, de toda a maneira que essa trepidação, em alguns, repito, é superável com a perseverança. Literatura é cultura, é, também, voz! É o canto histórico e estóico do povo moçambicano. E, as vozes aqui referidas, são o canto desse povo, são as vozes dos sem voz.

 

Uma breve recomendação

Não esperemos que apenas seja o exterior a reconhecer o nosso talento e trabalho, que aliás, a ventura externa mal nenhum faz, mas, acaba viciando os nossos autores, fazendo com que se sintam "cereja no topo do bolo", em relação aos que ficam por terra, no sentido de que fá-los, primeiro, olharem para fora antes de olharem para si próprios e para as suas origens. A atitude da externalizacao, às vezes, acaba acirrando algumas, se bem que injustificadas, animosidades, incompreensões, ódios, invejas e quejandos, dificultando o regresso à casa, muitas vezes, por má vontade dos que se mantiveram nas raízes e tem algumas influências na área! Falo do que sei! 

Aconselho luta interna, persistência, paciência! A perseverança é a chave-mestra para se angariar reconhecimento pelo meio em que se vive, em que se está inserido, e, assim, com alguma segurança, fazer-se à aventura externa! 

Lá fora, informam-se, primeiro, do desempenho interno dos autores, através das agremiações do tipo, que não são poucas no nosso país, e, depois é que se interessam, de acordo com o impacto da obra de determinado autor! Corta-matos, pelas razões anteriormente referidas, são prejudiciais, muitas vezes, ao autor e à sua obra, no sentido de que a apreciação pode ser falsa em relação à história original que o autor procura expor, pois, os analistas externos, muitas vezes, pouco ou nada sabem da realidade moçambicana! Os leitores externos do original, não tem as lentes da origem da obra! Temos de amadurar o nosso empenho cá dentro e, depois, exportarmo-lo. E não o inverso ou seja: primeiro exportar o não amadurado, não provado e, não aprovado pela escansão da terra!

Não se está, aqui, a negar a universalidade das obras literárias, está-se, apenas, a aconselhar cautelas! O cavaleiro, antes de empreender a sua viagem, aparelha a montada, com o devido requinte, depois é que se faz a pradaria!

Outra contrariedade. porém, é que se encanta leitores de outras paragens que não conhecem a nossa realidade objetiva e, contentamo-nos com o simples impressionar os nossos companheiros do dia-a-dia, com o risco de acarretarmos o que atrás já se disse!

Antes de sairmos de casa revíramo-nos diante do espelho, para apurar a nossa aparência, aquela que queremos seja apreciada lá fora, porque nossa real imagem! 

Alguns autores são, sim, com mérito, reconhecidos fora do país, arrecadam prêmios e comentários de grande valia, que lhes unta o espírito criador. De entre eles, de alguns nunca se ouviu falar, em nosso solo pátrio! Isto quer dizer que "anda marrosca" neste assunto! Ou como diziam os brasileiros do tempo do esclavagismo: "Tem caroço debaixo desse angu!". Há um ditado popular que diz: "Antes de conhecer os outros, conhece-te a ti mesmo!" Ou, simplesmente, antes de te fazeres conhecer fora, faz-te conhecer dentro do teu país, pois, só assim, lá fora poderás contar, convincentemente, aos outros, a história das tuas origens, orgulhares-te de onde és oriundo! Mau grado que a inércia das nossas instituições internas, de tutela, estejam, lamentavelmente, em terrível estado de letargia!

 

Post script:

Um exemplo: 

Apesar de já ser casca velha na literatura moçambicana, em 2017, enviei, instigado, por um amigo, um original meu, a um editor brasileiro que foi, depois, editado, em Janeiro de 2018. Acredite-se, até ao final do ano da edição, o livro não era conhecido em Moçambique, senão, por retalhos informativos encomendados, por mim, a alguns jornais, sem sequer, a referência da própria capa do livro, apesar de o editor o ter colocado, comercialmente, na plataforma Amazôn! Até que decidi reedita-lo em Moçambique, em Abril de 2019 e, apesar de ter sido uma reduzida tiragem, deu no que deu: Um sucesso! A primeira edição, a brasileira, jamais foi conhecida em Moçambique! Dai? Os interesses do meu editor externo eram outros! Ele passou por cima dos meus sentimentos, pois eu dedico a obra a minha mulher e o meu interesse era lançá-la no dia do seu aniversário natalício, em Abril de 2018. A ele não interessavam as minhas emoções, ante o momento eleito para o acto, diante do meu público! 

Nota do editor/Prefácio, pomposo, com níveis comparativos extraordinário: invocou um grande nome lá das terras de Vera Cruz, Vinicius de Moraes, e outro lá das carpas chilenas, Pablo Neruda, colocando-me no meio, como o fiel da balança, igual ao coelho que, nas margens da vereda, pôs dois mastodontes a puxarem a corda sem se verem, ambos a pensarem que estavam a competir com o lapirino e ele a rir-se a bom rir, do resultado da sua engenhosidade. Ainda bem que nem Vinicius nem Neruda estão entre nós, para me pedirem contas! E duvido que todos os escritores e leitores moçambicanos saibam quem, de facto, são, as figuras quase lendárias de que estou a falar!

Nenhum escritor moçambicano, daqueles que realmente sempre me inspiraram, foi invocado?! Que ganho tive nisso, senão a desilusão?!

Estou a falar da obra MEU MAR.

O amigo que me instigou, nada ou quase nada dele se diz aqui no país, apesar de já ter duas obras editadas no Brasil! Por que será?

O exterior pode dar algum brilho às nossas intenções mas, definitivamente, não é a solução das nossas inquietações.

 

 

   

 

 


 

 


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