“O culpado” somos todos

Se alguém trai você uma vez, a culpa é dele.

Se trai duas vezes, a culpa é sua.

Eleanor Roosevelt

 

Sim! A culpa é de todos nós! Todos que aceitamos, sem questionar, os namorados que nos prometeram o futuro melhor e, como se não bastasse, deixaram-nos viver mal como se ninguém cuidasse de nós.

Sim! Todos nós que aceitamos sob olhar impávido a musicaria da dita nova geração, cuja génese remonta dos tempos do Mc Roger, e deste seguiram-se outros e mais outros, sempre confundido o talento com a indumentária, os arranjos musicais com efeitos, videoclipes para lá da realidade, onde a mulher é banalizada e a aparência ganha um destaque importantíssimo, onde a poesia é escamoteada e a melodia gripada, enquanto isso os verdadeiros músicos são resumidas ao vazio, sucumbido dentro de um silêncio assustador.

Onde o poder económico e as influências de certos não-artistas são, quase em todas as vezes, o suplementar dos talentosos artistas. Obrigando-nos a ouvir cantantes que, em vez de cantar “miam”, que em vez de exibir os seus timbres vocais exibem os já gastos traseiros, como se para se tornar artistas isso fosse critério imprescindível, como fazem essas bailarinas que se tornaram cantantes, desde as lizas e Lilocas, o cúmulo da nossa ridícula musicalidade, o que me coloca a questionar com qual das bocas encantam.   

Sim! Todos nós, que não dizemos basta, quando uma tal desavergonhada Melancia de Moz começou a “excrementar”, até chegar aos “trapistas” mudos que dizem cantar, passado por todos outros tão ridículos que aceitamos como músicos moçambicanos, e sob esse rótulo deixamos que nos representassem além-fronteiras. Não há dúvidas que é sóbrio o cenário da música jovem em Moçambique, independentemente do estilo, não se encontra aqui qualquer estilo, além deste ruído produzido em garagens.

Sim! Todos nós que não exigimos uma educação artística de facto nas nossas escolas primárias e nem nas universidades, onde saem jovem artisticamente deformados, sem qualquer sensibilidade com a arte, seja ela música, literatura, pintura e todas outras manifestações artísticas. O que leva a que, hoje em dia, o belo se transforme a tudo isso que fingimos não existir, permitindo, pela indiferença de todos, a proliferação de palhaços que se assumem de músicos. Cujas músicas só agradam pessoas quando ébrias. Não é por acaso que anda tão embriagada a nossa juventude.

É nesse contexto onde o ridículo ganha espaço e destaque, onde assistimos uma coerente ausência do belo, em que aparece o “culpado” de Lugela como um produto altamente artísticos, e de noite para o dia o idolatramos. Não quero com isso dizer que a música do jovem zambeziano não seja boa ou que não mereça o que tanto se diz, mas a verdade é que esta música, para mim, vem mostrar o quão vago está a caixa onde guardamos a nossa sensibilidade artística, mostra o quão vazio vivemos. Esta música mostra que estávamos ávidos de qualquer coisa que nos acalentasse a alma, nesse país de eternas guerras.

Talvez sejam as guerras a razão para tanta euforia, uma vez que esta música consegue ser o espelho fiel daquilo que somos enquanto moçambicanos, sem maquiagens e arranjos. Todos nós que temos a paz amarrada com borracha e sofremos como se ninguém cuidasse de nós. Talvez sejam as guerras o motivo para tanta exaltação uma vez que a música transmite a pobreza, a ganância, a avareza, a prepotência dos homens e, como é óbvio, a dependência da maioria da população (as mulheres) a estes mesmos homens, que uma boa parte deles está sucumbindo em Cabo Delgado.

Talvez seja essa música a metáfora das nossas vidas por isso tem o sucesso que tem, mas para mim o culpado de tudo isso, não é o namorado, o Governo, mas a namorada, nós que aceitamos todas as promessas sem duvidar e nem questionar? Por isso não nos resta mais nada que dançar as “batucadas” do Irmão Mbalua, vivendo mal e sem cuidados de quem nos prometeu que o faria. Mais não disse.

 

 

 


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