O guardião

Godine nasceu já órfão de pai. A chamada doença do século – que já nem se sabe a que século se refere – é a culpada de todos os males. Primeiro esquartejou a autoestima do cota: ele deixou de ir às festas da comunidade; deixou de beber com os amigos; deixou de ir à machamba; deixou de pôr os pés fora de casa; deixou de querer ser visto. Enclausurou-se. Depois do espírito, dilacerou-lhe a carne: doenças oportunistas transformaram-no num campo de diversões; o corpo minguou; a pele abraçou-se ao esqueleto; as articulações fraquejaram; os membros viraram inúteis e resguardou-se numa esteira no canto da sua palhota. Morreu uma semana antes do nascimento de Godine.

 O parto não foi fácil. Ora o menino não queria sair. Ora tinha que se aguardar por uma ambulância para levar a parturiente para a cesariana na cidade grande. Ora o menino já de novo queria sair. Ora a mãe estava a perder muito sangue. Ora o sistema imunológico dela tinha sido dizimado pelo vírus. Muita complicação. Até que Godine se anunciou para a vida. A mãe até ouviu o primeiro choro. Nada mais. Seguiu-se o vazio da escuridão. Ela também seguiu o destino dos anjos. 

A árvore genológica de Godine ficou amputada de uma geração. Foram os avós maternos que assumiram os cordelinhos da vida do recém-nascido. A avó Zwayitika deu um passo atrás no tempo e rebuscou os seus dotes de mãe. Trocou-lhe as fraldas, percorreu quilómetros e quilómetros para a quinta do branco Zé de Madeira que, de favor, dava-lhe diariamente dois litros de leite quente de vaca com que alimentava a criança. Foi ela quem voltou às panelinhas de papa, ensinou o netinho a gatinhar, a se aguentar de pé e depois a dar os primeiros passos na vida. Mesmo sem saber ler e escrever, foi a velha quem levou o rapaz à escola da aldeia e que lhe vigiava, ainda que não o pudesse ajudar, na hora de fazer os deveres de casa.

Já o avô Gumisanyi era um homem de caça. Não facilitou com o neto. Levou-o às entranhas da mata. Ensinou-lhe a escutar o silêncio ruminante das árvores e a voz das estrelas da madrugada. Deu-lhe as dicas de como se leem as sombras do vento, e como se distingue, à distância, o cheiro de uma boa caçada do cintilar das pupilas de um felino. Hoje o rapaz conhece bem os caminhos da vida e os atalhos que levam à morte. Sabe que um verdadeiro macho enfrenta a vida com coragem e de peito aberto.

O arco do tempo ditou que Godine se tornasse num adolescente cada vez mais forte e os avós cada vez mais frágeis. Inverteram-se os papéis. Passou a ser ele a percorrer quilómetros e quilómetros em busca de leite quente para alimentar os avós; a preparar papas de farinha para um par de bocas já desdentadas; e, acima de tudo, a atear fogo na lenha para aquecer-lhes os sonhos, já por si, diminutos. As doenças da idade atiraram os dois velhotes para o leito da esteira.

Cuidar dos avôs passou a ser a razão da vida de Godine. Desde que o sol nasce até que se ponha. Não quer que lhes falte pão e água. Sente-se no dever não de lhes retribuir pelo que fizeram por si, mas sim de, como rapaz digno, cumprir com os desígnios que Deus lhe colocou pela frente. Não é apenas uma questão de honra. Há uma força interior que lhe insufla energias que alimentam esse infinito dever de estar ao lado dos dois velhos. Sempre na mesma palhota. Os cuidados que eles precisam já não lhes permitem dormir em espaço próprio.

A água do Idai chega de madrugada. Invade a tal palhota por tudo quanto é canto. O vento forte faz o resto: levanta a cobertura e põe toda a palha a voar pelos ares. Os velhos abraçam-se. Não se podem levantar e tentar fugir. As pernas já não o permitem. Pedem socorro. Godine é o único socorro possível.

A trovoada e o uivar dos ventos digladiam-se pelo domínio dos sons dos ares. Os relâmpagos insistentes riscam os céus e cortam o escuro da madrugada. A chuva cai a cântaros. Os dois velhos não gritam. Gemem. A água galga-lhes os corpos flácidos que não se libertam da esteira. Se aqui continuarem por mais algum tempo, morrem afogados.

Godine vira-se para a mesa de quatro cadeiras que, indiferente, recebe o banho de chuva no centro do que sobra da palhota. É pequena, mas é nela que descobre a solução. Pega na avó Zwayitika, num misto de delicadeza e apreensão, e coloca-a por cima do pequeno móvel. Deitada. Encosta-a à borda. Tem que sobrar espaço para o avô Gumisanyi, a quem o carrega de seguida e o coloca ao lado da esposa.

Alívio momentâneo. Observa em redor e apenas vê o escuro. Sente que a água já o atinge a cintura. Gera-se uma nova frustração. A este ritmo a água voltará a alcançar os velhos. Toma uma decisão de coragem. É o único caminho que lhe sobra. Contem a respiração, agacha-se, penetra por baixo da mesa e levanta-se com o tampo na cabeça. Tem os dois velhos, mais uma vez, a salvo.

Abandona a palhota. Com a mesa feita num capuz por cima da sua cabeça, enfrenta a madrugada, o vento, a chuva, o frio e a trovoada. Luta por se aguentar em equilíbrio desafiando a força da corrente que rapidamente lhe atinge o peito. No topo, os velhos agarram-se à mesa com as poucas forças que lhes sobram. Sabem que o mínimo descuido pode significar o fim das suas vidas.

Godine caminha. Lentamente. Busca por um ponto seguro. No sentido contrário ao do rio, a natureza bafejou a aldeia com uma pequena colina. É um ponto em que a extensa planície espreguiça-se e o relevo dobra-se numa pequena elevação a partir do qual, em dias de sol, as crianças dançam o sorriso dos corvos de gola branca. Será que consegue chegar lá? Ele próprio duvida. Os seus olhos não mais cintilam. O escuro penetra-lhe a alma. As articulações dos joelhos fraquejam. A incerteza domina os seus passos e o espelho do seu amanhã deixa de reflectir. É o som desesperado dos gemidos dos velhotes que, perdido no eco da tempestade, lhe massageia insistentemente os tímpanos e lhe convoca para a busca de novas alternativas.

O cimo de uma árvore é o caminho que resta. A colina está distante. Godine aproxima-se da primeira que lhe parece suficientemente robusta. Tem ramos baixos. Ramos fortes. Aproxima-se o mais que pode. A lutar contra a corrente da água, pousa a mesa no chão, e esta assenta com alguma firmeza devido ao peso dos velhos. Coloca-os sentados. É a única forma de manter as suas cabeças fora da água.

Pega primeiro na avó Zwayitika. Ela agarra-se a ele com todas as energias. Eleva-a para o primeiro ramo num exercício de equilíbrio enorme em que uma escorregadela pode ser fatal. Sobem mais dois ramos e atingem uma altura relativamente segura. Godine tira a camisa que traja colada ao corpo. Com os dentes, rasga-a ao meio e a metade em mais quatro partes. Amarra a velhota contra a árvore pelos pulsos e pelos pés. Assim dá-lhe maior sensação de segurança.

Uma vaga, vinda sabe-se lá de onde, abana por completo a pequena mesa. O velho Gumisanyi, sozinho, tenta equilibrar-se, mas é um destroço qualquer que, arrastado pela forte corrente, derruba o pequeno móvel e deita o velhote a pique. Ele tenta gesticular. Abre a boca para reclamar socorro. A força da água imobiliza-lhe os gestos, já por si frágeis, penetra-lhe boca adentro transformando o grito num esgar de pânico. Entra em reboliço. 

Num voo pela vida, Godine salta da árvore directamente para o epicentro do alvoroço. Embrulha-se com o velhote. Luta contra o seu peso e contra a fúria das águas. Logra levantar-se com ele nos braços. Não precisa escutar a sua respiração ou as palpitações do coração para saber que ainda está vivo. A ligação sanguínea é a mensageira do destino. Volta ao céu da árvore. Repete o mesmo ritual que fez com a velhota. Com o que sobra da camisa rasgada, amara-lhe a um ramo tanto pelos pulsos como pelos pés.

Godine respira fundo. Passa, em simultâneo, de alto abaixo, as palmas das mãos pela sua própria cara como que enxugando retalhos de uma vida. Ao som do vento e da chuva, observa aquelas duas almas. Resta-lhes apenas esperar. Esperar que os astros se realinhem e que o sol volte a iluminar o futuro. Esperar que, um dia, a vida retorne à terra firme.

 


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