O meu velho amigo Carlos Drummond de Andrade

O meu velho amigo Carlos Drummond de Andrade

O episódio ocorreu no início do mês de Agosto do longínquo ano de 1987. Eu estava na esquina entre as avenidas Amílcar Cabral e Eduardo Mondlane, a engraxar, distraidamente, os meus sapatos, quando, oriundo do nada, o meu bom amigo Manuel Maurício, lançando a sua mão esquerda sobre o meu ombro, proferiu de chofre:

- Morreu a filha do teu amigo!

Aquilo foi um golpe. Filha do meu amigo? Fiquei sobressaltado, aturdido. Estávamos todos na casa dos vinte anos – o Manuel é de Janeiro, eu sou de Fevereiro e o Luís Loforte fizera anos em Junho. Todos somos de 1967. Creio que o Abdul Ussene era mais velho. Foi o primeiro a emigrar para o Paraíso. O Ismael Gulli certamente o mais novo. A que amigo se referia o Manuel? Eu já tinha o pé fora do alcance do engraxador, que me olhava estupefacto. Então, o meu velho companheiro resolveu ser mais claro:

- A filha do Carlos Drummond de Andrade!

E eu exclamei:

- A Maria Julieta!

Eu acompanhara a doença da filha e o sofrimento do poeta. O próprio Drummond já não estava bem de saúde, tinha o coração frágil. Ligava-lhe à vida aquele amor soberano por Maria Julieta. Era filha única. Ela vivera uns anos na Argentina e recordava-me de que isso estivera na origem da viagem que o poeta fizera ao estrangeiro, das pouquíssimas viagens que acedera fazer, pois ele abominava andar de avião. Nem à Bahia fora – havia aquele aforismo famoso: “É preciso escrever um poema sobre a Bahia.../ Mas eu nunca fui lá.” Lembram-se?

Sabia, por conseguinte, que o poeta não resistiria àquela morte. Ao sobressalto da notícia, que era de algum modo esperada, imaginei que o meu amigo não suportaria a insuportável inversão da ordem natural das coisas: sepultar a filha, a sua única filha. É preciso dizer que, à época, não avultavam estes avatares tecnológicos que nos permitem hoje a instantaneidade das notícias. Mas, mesmo assim, eu acompanhava suficientemente aquele drama, à distância, de dias ou mesmo semanas, a despeito não soubera, até àquele choque anunciado pelo Manuel Maurício, do infortúnio de Drummond.

Maria Julieta morreu a 5 de Agosto; o pai, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, não resistiria para além de 12 dias. A 17 de Agosto (passaram 31 anos este mês), o seu coração deixava de bater e com ele o sentimento do mundo: mundo, mundo, vasto mundo.

Nunca me esqueci deste episódio. O Manuel a consolar-me como se tivesse morrido alguém da minha família: na verdade, aquele poeta era uma espécie de um parente muito próximo. Não me recordo de mais nada desse episódio. Leio esta noite o texto precário que redigi, na época, para a “Gazeta” da revista Tempo e fico estarrecido. Para além da prosa juvenil, que é desculpável, ali estava, de forme impressiva, uma paixão incomensurável pelo poeta: eu sabia quase tudo sobre ele. Ganhara, até, alcunha dos amigos: “Drummond”. O epíteto era honroso.

Nascido em Itabira do Mato Dentro a 31 de Outubro de 1902, seria em Minas onde o poeta passaria o importante tempo da infância. Aliás, a casa da infância, o ambiente à volta, não só constituem importantes lembranças, como estão na origem dos poemas que compõem os primeiros livros. O livro de estreia, Alguma Poesia, de 1930, é disso apanágio. Não só com o poema inaugural – “Poema das Sete Faces” – como também com o seguinte: “Infância”.

Carlos Drummond de Andrade: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. // As casas espiam os homens/ que correm atrás de mulheres. / A tarde talvez fosse azul, / não houvesse tantos desejos. // O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos/ não perguntam nada. // O homem atrás do bigode/ é sério, simples e forte. / Quase não conversa. / Tem poucos, raros amigos/ o homem atrás dos óculos e do bigode. // Meu Deus, por que me abandonaste/ se sabias que eu não era Deus/ se sabias que eu era fraco. // Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração. // Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido com o diabo.”

Citei na íntegra o “Poema das Sete Faces” que tem justamente sete estrofes, um número cabalístico, a forma pela qual inicia a vasta, vastíssima, multifacetada e riquíssima obra de Carlos Drummond de Andrade. Este livro inicial “traduz”, no dizer do poeta, “uma grande inexperiência do sofrimento e da deleitação ingénua com o próprio indivíduo”. No entanto, no seguinte, Brejo das Almas, editado quatro anos depois, então “alguma coisa se compôs, se organizou”, segundo Drummond. Aqui o poeta é tímido, ainda. Inteligente, sem dúvida, extremamente sensível. A tomada de consciência política virá com o livro de 1940, Sentimento do Mundo.

Carlos Drummond de Andrade: “Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo, / mas estou cheio de escravos, / minhas lembranças escorrem/ e o corpo transige/ na confluência do amor.”

Pertence a Sentimento do Mundo o belíssimo e citadíssimo poema “Mãos dadas.” Apetecia-me citar o poema todo. Mas cito a segunda e última estrofes: “Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, / não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, / não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, / não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. / O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente.”

O livro seguinte, José, de 1942, traz aquele famosíssimo poema: “E agora José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora, José?”. Li, li, li este poema. Citei-o. Declamei-o. “E agora, José?”

Outro livro empolgado, talvez o mais empolgante de todos nesta fase, sairia em 1945: A Rosa do Povo. O poeta está perto das pessoas, a linguagem é mais objectiva. Drummond interessa-se não só pela política ou pelas questões sociais. Aqui está um poeta que fala de acontecimentos corriqueiros, coisas banais, ele pratica neste livro, com essas pequenas coisas, a transfiguração poética do quotidiano. Pertence a este livro o poema “Procura da Poesia” que todo o candidato a poeta devia ler. Há neste poema versos luminosos, lapidares: “Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos.” Isto é absolutamente extraordinário. Mas vale a pena citar os versos iniciais do poema. Este poema deve ser lido e estudado. Este e muitos outros. Do mesmo livro, estes versos lapidares do poema “O medo”: “Somos apenas uns homens/ e a natureza traiu-nos.” Retorno, no entanto, a “Procura da poesia”:

Carlos Drummond de Andrade: “Não faças versos sobre acontecimentos. / Não há criação nem morte perante a poesia. / Diante dela, a vida é um sol estático, / não aquece nem ilumina. / As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. / Não faças poesia com o corpo, / esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. (...) Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / Trouxeste a chave?”

Era isto que eu lia, ainda adolescente, exultava ao ler esta poesia e este poeta, de que fazia tanto alarde, junto dos meus amigos. São muitos os poemas que eu conhecia, versos que citava de cor, sabia os dados da sua biografia, a sua vida em Itabira, o colégio Arnaldo, o incidente no Colégio Anchieta de Friburgo que o levou à expulsão, as amizades do colégio Arnaldo com Gustavo Capanema e Afonso Arinos – importantes mais tarde -, o curso de farmácia que nunca exerceria, a vida de professor de português, o cronista Diário de Minas, o casamento com a D. Dolores, o nascimento de Maria Julieta em 1928, o Rio de Janeiro, a chefia do gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, ou a ida para a Directoria do Património Histórico e Artístico Nacional, onde ficará até 1962, quando se aposenta.

Sabia da história daquele poema publicado na “Revista de Antropofagia”, em 1928: “No meio do caminho”. Em “Autobiografia”, no seu livro Confissão de Minas, Drummond deixou dito: “Sou autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928, vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais.” O poema está no livro Alguma Poesia, de 1930.

Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meu do caminho tinha uma pedra. // Nunca me esquecerei desse acontecimento/ na vida de minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do caminho/ tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ no meio do caminho tinha uma pedra.

A lista dos livros de poesia é extensíssima e não caberia aqui onde quero ainda referir-me ao prosador. Tinha lido e amava o cronista e o contista. Começara com Fala, Amendoeira, que reunia crónicas que publicava no Diário de Minas na coluna “Imagens”, que durou 15 anos. O livro saiu em 1957. O poeta tem outros títulos que reúnem crónicas, ensaios, artigos. Anotei então em 1987: “Carlos Drummond de Andrade desenvolveu também a actividade de ensaísta, desdobramento do poeta como acontece nos seus poemas metalinguísticos. Os seus ensaios foram publicados em conjunto com as crónicas em vários livros da sua vasta bibliografia. A crítica considerava-o já nessa altura como sendo um dos poetas mais importantes do Modernismo ao lado de Manuel Bandeira e Mário de Andrade”.

Na Escola de Jornalismo, cruzei-me com um professor brasileiro, que, ao descobrir a minha paixão impenitente pelo poeta itabirano, me deu a conhecer os livros mais recentes, que na altura eu desconhecia de todo: Corpo, de 1984; Amar se Aprende Amando, de 1985. Era um “novo” Drummond para mim. O corpo, o amor corporal, o impudor do corpo, a revelação do corpo. Redijo então na minha prosa juvenil:

“O amor é tema sempre presente nos seus livros. Porquê? Drummond justifica numa entrevista ao jornal brasileiro Leia: “Antes eu tinha uma espécie de medo, era encabulado, provinciano, coisa de pessoa muito tímida, muito secreta. Hoje, ao contrário, a salvação da vida é o amor. Se a gente não levar uma mensagem de amor, alertando para a necessidade de as pessoas cultivarem o sentimento amoroso, não só na escala individual, mas para a humanidade, eu acho realmente que o mundo vai piorar muito, vai acabar se destruindo.”

A “Gazeta”, no seu número 170 da edição de 6 de Setembro de 1987, abria, na sua página de rosto, com um desenho de Sérgio Tique, que representava o poeta. O editor, Gilberto Matusse, acolhera para título uma citação drummondiana: “A salvação da vida é o amor.” Esta noite, ao reler aquele antiquíssimo artigo, com o júbilo de quem não se envergonha nada dos seus vibrantes e ingénuos 20 anos, a esta distância, 30 anos depois, teria, seguramente, dado outro título, igualmente drummondiano: “A salvação do mundo é o amor.”

Quando em Junho de 1988 fui almoçar, pela primeira vez, com a Noémia de Sousa, ganhei de presente 60 Anos de Poesia, antologia organizada por Arnaldo Saraiva, que nos falara do poeta num convívio na AEMO, dois anos antes. Guardo, ciosamente, esse exemplar: “Ao Nelson Saúte. Recordação de uma feijoada de amigos jovens e “mais velhos” em Algés. Da tia Noémia de Sousa. 26/6/88.” Em Setembro de 1996, Conceição Osório, que fora minha professora na UEM, na minha rápida passagem pelo curso de História, nos anos 80, trouxe-me, anos depois, de uma viagem do Brasil, Farewell, do Drummond: “Para o Nelson poeta, a inspiração de Carlos Drummond de Andrade.” Isto é de uma grande generosidade. Comovo-me com a generosidade dos amigos. No caso, neste caso, das minhas amigas. Mais recentemente, ganhei, de Rita Chaves, a edição crítica Poesia 1930-62, com mais de 1000 páginas, e Os 25 Poemas da Triste Alegria, duas belíssimas edições da Cosacnaify, editora que, entretanto desapareceu. Para além disso, tenho em minhas estantes antologias e títulos repetidos. Provavelmente, é o poeta que mais bibliografia detenho.

Para além do longo artigo da Tempo, fui convidado, pela vetusta TVE (predecessora da TVM), a dissertar, naquela circunstância, sobre o poeta que desaparecia. Onde eu arranjava semelhante desenvoltura, aos 20 anos, para tal empreitada? Não sei. A esta distância, estou inclinado a pensar que os meus amigos deviam achar-me um chato com as minhas obsessões literárias, entre as quais figurava o nome ínclito de Carlos Drummond de Andrade.

Com os anos ou deixámo-nos de nos ver com frequência ou eu tornei menos explícita a minha impunida paixão pelo poeta brasileiro. Redijo hoje este texto de evocação – ao poeta itabirano, mas sobretudo à nossa juventude presidida pelo inarredável amor aos livros -  para dizer ao Manuel Maurício e a todos os meus companheiros de sempre, que continuo a ler, com espanto e júbilo, o meu velho, indefectível e dilecto amigo Carlos Drummond de Andrade. 


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