O Óscar dos Kidas

Os últimos anos, amiúde, são tipificados por emboscadas literárias dos combatentes da Luta de Libertação Nacional. Uma espécie de epopeia narrativa e descritiva de uma guerra que foi feita por cidadãos anónimos, com histórias de glória, com memórias e com ensinamentos para os combatentes pela liberdade e justiça, nas mais variadas gerações e transversalidade cultural de todos os continentes. Obras que exorcizam fantasmas que flanquearam as suas vidas no passado, alvejaram as mentes, nem por isso tão jovens, do azul (vermelho) da revolução e empurram matérias inexplicáveis e indecifráveis para este presente que será sempre futuro.

Depois da poesia de combate e de libertação, com textos que ainda ecoam como trovões de morteiro em determinados ouvidos, se abre, de porta em porta, um espaço privilegiado para novas e mais cicatrizadas terapias colectivas, armadas de obuses de outra índole. Ainda sou do tempo onde se encavilhavam estrofes que se envernizaram mentes juvenis ávidas de entendimentos sobre heroísmos exacerbados. Pelos corredores das escolas declamávamos de cor e em voz alta ... não basta que seja pura e justa a nossa causa/ é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós.... como se, esse sentido, fosse nosso e estivéssemos, todos possuídos pela nobreza desse alinhamento libertário.

Com intervalos de tiro ou de rajadas solitários, ou ainda, de lança granadas, a resistência dessas memórias e o sentido histórico das kalachi Nikov vão sendo reveladas. Vivências que se acantonaram, algures, galgam os muros da disciplina e dos silêncios militares. Uma espécie de refrão de coral obrigatório.

Verdade que o rigor cartesiano da história nem sempre pode ser exigido a todos estes escritos. Memórias dormentes e cansadas, desavindas, são susceptíveis de amnésias em surdina. Rebuscar os fundos da memória tem um preço. Caro, pesado e de consequências imprevisíveis. O fundamental, louvado por todos, seria deixar os registos e os episódios. Historiadores se encarregam e encarregarão do resto. Ideal será que a energia continue pululando em cada mente libertadora, para que o Cartesianismo impere. Eu existo, logo, escrevo.

Na tentativa de historiar a história desta libertação, feita a ferro e fogo, já se destrataram datas, nomes, locais, rios, montes e comandos. Mas, ainda assim, fica para o presente um discurso que se institucionaliza, formal e até ortodoxo. Aquele encadeamento de factos que transcende a ciência e ganha contornos de religião, senso comum e filosofia, tudo junto, como se acasalam as restantes formas de saber.

Estes novos modelos literários, me perdoem os escritores, os críticos literários e potenciais candidatos, parecem reconfigurar uma nova forma de estar e ser desta literatura que, nos últimos tempos, não tem mãos a medir. Nunca se escreveu tanto, neste país, mesmo que queiramos ignorar e menos valorizar esta realidade. Escrevemos como nós próprios somos. Um linguajar híbrido e distanciado das morfologias e sintaxes, das regras vernaculares. Se escreve da direita para a esquerda e vice-versa. Importante será marchar, marchar e marchar e escrever, escrever e escrever.

Tenho em mãos e olhos uma destas obras. A biografia do Coronel Mateus Óscar Kida. Quis o destino que o seu nome fosse Óscar, pois, ele próprio se confunde com um Óscar desta terra, de simplicidade, humildade e de bom humor. Um Óscar do distinto grupo de combatentes. Mateus Kida não procura glórias, apenas quer recordar uma vida de várias vivências e que fizeram da sua contribuição um exemplo de bravura e dedicação ao seu povo.

Pela sua obra, com inúmeras referências às lideranças político-militares, Óscar Kida cadencia marcha narrativa que desvenda o passado de uma história que, quase se confunde com a história deste país, e bem, na sua contemporaneidade. Confissões e fotografias desgastadas pelo tempo. Uma espécie de autobiografia dessa luta pela libertação da terra e dos homens contra um inimigo colonial e visceral.

Todavia, não são as revelações que mais cativam, assustam ou pretendem metralhar os leitores. São, certamente, as vontades de satisfazer um ego. Promessas e juras de lealdade para com a liberdade. Óscar parece ter lido o poema, por onde passa o exército de libertação/ fica um rasto verde e chuvoso e o caminho para passar a liberdade e o futuro.

Assim, nas centenas de páginas do coronel, diga-se, pessoa humilde e afável, respeitador e inibido, o nosso biografado traduz, de forma simples, os episódios musculados e militarizados que testemunhou. Aliás, muitas facetas ainda são sua marca. Dança como ninguém. Exímio passista e leitor assíduo de todos os jornais que esta praça pode oferecer. As qualidades de dançarino são testemunhadas na voz do Engenheiro Miguel Massingue seu ex-colega nas TDM:

“ … nesse instante o Coronel disse vou à pista dançar, fiquei surpreendido. Como ele quer se expor assim? Dançou e eu ao lado dele a dançar depois notei que a discoteca toda parou e estava a bater palmas… percebi que as plamas eram para ele e não para mim … bati palmas como qualquer um… (p. 332).

Outra das qualidades do Coronel Mateus Óscar kida que salta à vista relaciona-se com a área da segurança de altos responsáveis, iniciada já no II Congresso da FRELIMO e continuado na protecção do Presidente Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique Independente.

… recordo-me por exemplo, daqueles formidáveis mergulhos [em Cuba], acompanhando o Presidente Samora Machel e Fidel Castro, durante os quais este último gostava de caçar lagosta. Foi numa dessas ilhas que tomei pela primeira vez sopa de tartaruga.”(p.212).

 A partir deste livro pode-se compreender que o Coronel Mateus Kida é um Óscar da História recente de Moçambique. O seu contributo para a edificação de um estado soberano e democrático é incomensurável nas várias páginas a si dedicadas, poucas, se comparadas à grandeza da pessoa. Na verdade, as quase quatro centenas de páginas descrevem o suor e segredos mantidos ao longo dos anos, de um homem com características peculiares dada a sua simplicidade e humildade.

 Estes anos não foram suficientes para se entenderem, ou já nem faz parte dos interesses juvenis, compreender como se criaram e se avançava para as bases militares, as cores das trincheiras, os sabores de napalm.

Contudo, neste resgatar, mais ou menos iconográfico, da historiografia militarizada da libertação nacional, presumo que a história desta jovem nação exigirá mais profundidade. A cientificidade dos factos e a validação das fontes. A oralidade suportada pelas evidências, devidamente restauradas, e que confrontem com os estereótipos de um passado, nem por isso muito distante. Existe uma responsabilidade dos narradores que vai muito para além da descrição de um combate, uma vitória ou uma derrota.

A publicação deste livro coincide com um momento histórico crucial na história desta nação arquitetada por Eduardo Chivambo Mondlane, pai da Unidade Nacional. Neste ano de 2018 celebram-se as bodas de Ouro do II Congresso da Frente de Libertação Nacional evento realizado no solo pátrio na mítica e histórica aldeia de Matchedje onde o Coronel Mateus Óscar Kida se fez presente. Cito algumas passagens:

Eu participei no processo, e, nas vésperas da realização do Congresso, participei na preparação do relatório da Província, que devia ser apresentado. Recebi algumas delegações, mas depois, tive que passar para a segurança do próprio Congresso…”(p.105).

Coronel Kida dedicou a sua vida inteira ao combate. Ele não se transformou em combatente, mas numa lenda do próprio combate. Em poucos minutos de conversa deu para entender como se desinteressou por patentes militares mais altas, e compreender a sua postura de guerrilheiro sem exageros. Fala de um combate com perdas e ganhos de ambos os lados. Irmãos que se digladiaram. Relendo sua biografia navegamos ou sobrevoamos os férteis campos das estratégias e tácticas, a bravura e tenacidade dos envolvidos.

Uma espécie de ser de ficção, mas feito de corpo e alma, de sonhos, de desejos e vontades, de amizades e amores. Também ele foi um combatente com medos, receios e hesitações. Coragem e persistência comungadas com temores e incertezas. Afinal, os guerrilheiros são tão seres humanos como todos nós e viveram na pele as emoções que passam pelos jovens e adultos que apenas ouviram falar dessa luta. Este livro, ainda que escrito por outrem, um amigo confidente, surge como uma caixa de surpresas, porém de fortes convicções.

A génese deste empreendimento remonta à amizade entre o autor e o biografado, iniciada no complexo gimnodesportivo do Ferroviário de Nampula em 2004 e percorre momentos e espaços da vida deste actor e contribuinte da História de Moçambique.

Agora, que sua obra chega aos nossos olhos, para os devidos julgamentos, seria importante que o apetite dos jovens para a leitura fosse despertado. Entendo que nada será forçado, nem que esta biografia será introduzida nas escolas, ou onde quer que seja. Se exige sim, que se criem as condições e a responsabilidade de levar esta e outras obras bibliográficas para quem necessita.

Entendo, também, que Óscar Kida continuará ajudando na segunda libertação do seu e nosso Niassa, agora por via da palavra. Depois das bandeiras, seguem-se outras libertações, sobretudo, a económica. Niassa precisa de todos os investimentos, como nós precisamos de oxigénio para respirar.

O Coronel Kida fez a sua parte e o país e Niassa agradecem. Perfeccionista, o coronel passará os seus próximos dias relendo sua própria biografia, na tentativa de ainda incorporar novas memórias. Mas, isso, terá de ser para o próximo livro. 


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