O pescador

Nenhum inferno é maior que o da voz traída

e nenhum bem vale o da sua integridade.

Rui Knopfli – in CALIBAN 3/4

 

Ao FMT:

  Ferdinando Manuel Torres!

A poeira evoluía como tufão sobre o chão da avenida. Uma cortina de areia vibrava no ar cortejada por papéis, fiapos de plásticos num movimento descontrolado. O passeio montava a sua própria feira, um castelo oferecido por aquela brisa matinal de Agosto. O Sol andava envergonhado lá nas Alturas. 

Um rapaz de mochila às costas, as calças de ganga enormes flutuando entre as pernas, ao sabor da dança ou hesitação intermitentes? Ele movia-se, ora para frente, em gestos desconexos, os braços vagueando no ar com os dedos a apontarem para um lugar qualquer. Noutras vezes para trás e para cima e para as laterais. Será isto rap?

No passeio havia uma fila de senhoras sentadas junto de caixotes exibindo fruta de época, bolachas, doces, pastilhas, peneiras de amendoim torrado, pão e tigelas contendo badjias, ovos fritos e cozidos, palones, etc. Havia moços vendendo jornais, outros expondo um montão de sapatos, outros ainda em correria desenfreada ao mínimo assobio de quem precisasse de uma recarga para o telemóvel. Um senhor estava sentado num banco de madeira, costurando sapatos, sempre à espreita de um sinal para engraxar ou atender a um outro caso urgente relacionado com o calçado.

Vim a saber que o moço de calças de ganga chamava-se Mapulango quando duas raparigas saudaram-no. De seguida meteram-se num «chapa cem», com lugar reservado no assento da frente. Ele continuou ali a olhar para o boneco. Resolveu subtrair das suas economias uma nota para comprar uma recarga. Talvez assim encontrasse amparo no telemóvel.

O vento serenou. Dos semi-colectivos desciam dezenas e dezenas de passageiros. Alguns moviam-se logo pelo passeio, a pé em direcção aos locais de trabalho. Mapulango que também usava um gorro preto à cabeça, uma t-shirt vermelha de mangas compridas, permanecia no passeio da avenida 24 de Julho. Pelos vistos estava à espera de outro chapa para os lados do Museu da História Natural, no bairro da Polana.

Muitos chapas que fazem a trajectória até ao Museu andavam apinhados de passageiros, nem sequer paravam para carregar quem quer que fosse. «Sorte tiveram as minhas colegas» - Pensou Mapulango.

Do local onde ele estava voltou a ensaiar timidamente uma abordagem aos cobradores. Qualquer coisa fazia o moço hesitar. Ele gesticulava exibindo cinco dedos aos cobradores. Muitos ignoravam o gesto ou talvez desconhecessem a mensagem por detrás daquele código?

Mapulango voltou a remexer as suas calças em busca de uma solução para o chapa. O Sol já ia alto. Duas senhoras penduravam roupas no estendal da varanda prédio, alheias à preocupação do rapaz. Dali a pouco os colegas que já se encontravam nos bancos da escola haveriam de entrar para o segundo tempo da aula de Teoria de Comunicação. As moedas recolhidas nos bolsos das jeans azuis já coçadas pelos anos de uso suspeitavam seriamente das contas feitas mentalmente por Mapulango. As moedas não chegavam para pagar o transporte. E nestes momentos de aflição amigos para dar uma tchova, como se diz por aqui, escasseiam como a chuva em Mabote ou em Xicomo.

E vezes sem conta os cobradores que por ali passavam gritavam à porta dos seus mini-bus, animando o que sobrava daquela manhã de quarta-feira:

-        Bááixaa, báixou, bááixahhh, bááixa.

Como não era aquela a música que Mapulango queria ouvir mudou de canal e virou-se para o outro lado do passeio onde outros cobradores gritavam:

-       Liberdade, liberdadêê. Cine 700, Cine 700. Cidade da Matola: Casa Branca-João Mateus – Cidade da Matola. Matola halenoôô.

Mapulango estava já à beira de um ataque de nervos. O moço ergueu os dedos no ar, com insistência para três chapas do Museu que se aproximavam do passeio. Havia sinais claros de que alguns passageiros pretendiam descer. Ele foi acenando, com os cinco dedos alertando aos cobradores do valor que ele tinha para pagar. Houve um golpe de misericórdia e um cobrador aceitou, abanando a cabeça num sinal claríssimo «azgo!».

Depois de tantas negações Mapulango estava ainda incrédulo. Certificou-se com um olhar insistente sobre a aprovação do cobrador. Dirigiu-se ao chapa num passo, imitando a solenidade monárquica de um desses príncipes rumo ao trono. E passados dois minutos encontrava-se à porta do chapa com a inscrição lateral Fomento-Museu. O moço tirou o auricular da orelha esquerda e fez um aceno a quem passava doutro lado da rua. Retirou o outro auricular da orelha em falta e de olhos fixos no cobrador perguntou:

-       Tem música?

 


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