O poder da escrita em Cri Essencia

Conquistas, derrotas e lutas. Esta é a trindade que define o carácter de Paula Chonguene, protagonista do primeiro livro de Cri Essencia. Na história que faz Em busca do mar certo, a autora moçambicana residente em Londres, capital inglesa, desenterra do seu âmago interior lições de vida, daquelas que se geram em pessoas destemidas, casmurras e determinadas.

É um livro de vivências intensas este que Essencia, e não Essência, publica como que para desabafar, purificar-se e, quiçá, o mais importante, motivar quem se encontra entre o desespero e a revolta, o ódio e o inconformismo. Estes aspectos todos, acumulados numa única personagem, oriunda de um país humilde a tentar ser gente na Europa, fazem de Paula um sujeito além do comum, dona das suas próprias metas quase intransponíveis. Esta condição confere à narrativa muitos sonhos ousados acompanhados de desfechos imprevisíveis, e, à medida que os eventos são revelados por uma narradora autodiegética, por integrar na história que narra como personagem principal, daí contar as peripécias na primeira pessoa do singular, há uma espécie de amargura a transcender o texto, podendo, por essa razão, ferir as sensibilidades do leitor. 

Em busca do mar certo é uma história que mistura muitas realidades: tradição, feitiços, subalternização da mulher, machismo, racismo, prepotência e choques culturais, mas sem virar as costas à amizade, ao amor, mas sem aquelas tonalidades cor-de-rosa. Todo este cenário e as suas variáveis vêm acompanhados de muita predisposição, sem lamúrias, sem fugas, afinal, como nos diz uma entidade do romance Terra conquistada – primeiro prémio de concurso de literatura colonial (1945), da autoria de Ed. Correia de Matos, oportunamente falaremos mais deste autor que o leitor moçambicano não deve esquecer – , um coração que foge não é um coração que triunfa. E triunfar é tudo o que Paula Chonguene almeja, desde que sai de Moçambique para viver em Portugal e, depois, na Holanda, fazendo desta história universal, por explorar espaços, circunstâncias e feitios atinentes a diversas nacionalidades.

Neste contexto, com efeito, o poder da escrita de Cri Essencia encontra-se no facto de a história de Paula afirmar-se como um exemplo de luta, de como os boicotes devem apenas existir para impulsionar o sucesso de quem não se conforma com o mundo que tem nos seus pés.

Sem ser uma história provida de uma escrita tecnicamente bem elaborada, Em busca do mar certo vale por ser uma narrativa altruísta, por questionar tudo o que consome a alma humana. É uma história que envolve o leitor, inserindo-lhe na intimidade da protagonista e revelando-lhe o quanto custa ser ave neste mundo apegado às fronteiras em detrimento do que a humanidade tem de comum. É um brado africano, repúdio, retrato da pequenez de alguns homens, uma ode a tanta mulher deserdada por um irmão nojento, absolutamente desprezível, do património deixado por uma mãe. É nisso que se encontra o poder da escrita de Cri Essencia, na destreza de nos emancipar durante o processo de leitura, purificando-nos interiormente e, simultaneamente, fazendo de nós pessoas mais solidárias.  

Título: Em busca do mar certo

Autor: Cri Essencia

Editora: Alcance Editores

Classificação: 13

 


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