O preço da desobediência

Moçambique voltou a falhar, pela quarta vez consecutiva, na observância rigorosa das medidas restritivas para cortar as cadeias de transmissão de Coronavírus. Ao fim de 120 dias do Estado de Emergência, os resultados, em termos de prevenção, continuam pouco animadores. Há um relaxamento perigoso por parte das pessoas no cumprimento das medidas.

Como prova disso, os casos de infecções estão a multiplicar-se. Aliás o país faz parte do grupo de 50 nações onde o coronavírus está a conhecer uma evolução rápida porque no lugar de corrigirmos os erros cometidos anteriormente, estes pura e simplesmente transitaram de um mês para o outro e hoje quase tudo continua na mesma.

A questão de fundo, a mesma de sempre, é a desobediência. Numa altura destas ainda há pessoas que se desdobram em justificações para passarem por cima das regras estabelecidas pelo Governo, através do Ministério da Saúde, para evitar a propagação do vírus e retardar cada vez mais o pico para permitir que a cura ou a vacina nos encontre pelo caminho.

É impressionante que apesar de todo um conjunto de informação veiculada diariamente através de vários canais de comunicação, incluindo as redes sociais, jornais, estações de televisão e de rádio, haja quem não acredite ainda na existência da doença. Esses indivíduos, com atitudes irresponsáveis, pouco ou nada fazem para a sua prevenção. Colocam em risco a sua vida e a da sua família.   

Com este tipo de pessoas. Com esta forma de pensar e de fazer as coisas, não podemos esperar por milagres. Para alguns deles (e não são poucas pessoas), o uso da máscara continua um problema por resolver. O distanciamento social, também. Há o desrespeito nas paragens, terminais de autocarros, nas filas dos bancos, padarias e nos mercados.

O que é que nós queremos se não conseguimos cumprir sequer com as medidas mais elementares de prevenção da doença? Onde é queremos chegar com a tamanha irresponsabilidade?

De 7 a 15 de Julho foram infectadas mais de 300 pessoas. Em três dias ou seja de 13 a 15, o país registou 173 casos de coronavírus. Nem números como estes, assustadores que são, ajudam aos que não acreditam na existência doença a mudarem de atitude perante a pandemia.

Estamos assim porque alguns de nós não sabemos o que é obedecer ou seguir as orientações dadas pelo Ministério da Saúde para evitar a propagação de infecções com o coronavírus no país.

Os números estão a crescer a olhos vistos porque há quem está a fazer pouco para se prevenir a si próprio. Para proteger a sua família e amigos.

Teremos de continuar com os locais de culto e escolas encerrados. Casamentos com uma limitação de convidados (apenas 20). Funerais com um número limite de 10 a 20 participantes. Sem podermos festejar na medida desejada os nossos aniversários porque alguns de nós não estamos a fazer o suficiente para estancarmos a onda de contaminações.

Tudo que alguns concidadãos fazem é ignorar o que as autoridades dizem, que é para o nosso próprio bem e do país. Não usam a máscara e escondem-se atrás de justificações, desde a de que é sufocante ao argumento de que se esqueceram dela.

Algumas dessas pessoas têm as máscaras no bolso, na carteira ou na bolsa. Outros leva-as nas mãos. Quando a polícia ou uma equipa de televisão se aproxima delas, usam para evitarem problemas e depois voltam a tirar.

Infelizmente é isso que acontece no quotidiano do país.
Nos bancos, há lugares marcados para cada um dos utentes posicionar-se e respeitar-se o distanciamento social, mas poucos cumprem com isso. Na entrada dos estabelecimentos comerciais, há baldes com água e sabão para a higienização das mãos, mas há os que não querem saber nada daquilo. Recusam-se pura e simplesmente de lavar as mãos.

Espantamo-nos e ficamos com o medo quando as estatísticas dos infectados  com o coronavirus sobem estrondosamente, esquecendo-nos de que a responsabilidade por essa situação distribui-se por todos nós, com a fatia maior para os prevaricadores.

Ficamos em pânico quando é detectado um caso na nossa comunidade, localidade, posto administrativo, distrito ou província quando os principais responsáveis são os que pensam que o coronavirus é com os outros. Que não vai chegar à sua vila, cidade ou aldeia.

O coronavirus não voa e nem anda. Nestas condições, não chegaria a lado nenhum se nós não o transportasssemos para as nossas casas, famílias, comunidades ou bairros porque não fomos cuidadosos. Não nos protegemos. Ficamos demasiadamente expostos e acabamos por contrair o virus.

Ficamos a lamentar porque, mais uma vez, não vamos poder reabrir a nossa barraca. O nosso bar. A nossa discoteca. Aquele nosso negócio familiar que nos dava dinheiro e nos permitia ter poder de compra devido à nossa teimosia. O nosso comportamento. A nossa irresponsabilidade. A nossa atitude perante a doença que retardaram, uma vez mais, a retoma.

Clamamos pelo relaxamento das medidas por parte do Presidente da República para o relançamento da nossa economia na sua plenitude. Dos nossos negócios. Da nossa vida como operadores dos sectores formal e informal, mas pouco investimos na nossa forma de ser e estar perante a doença para permitirmos que isso aconteça e com segurança.

Olhando para os números. Para a evolução do virus no país. Da doença. Dos internamentos e das mortes, o Presidente da República, na terceira e última vez de prorrogação do Estado de Emergência, podia ter optado por medidas mais duras do que as actuais, mas preferiu não fazer isso.

Podia ter decidido pelo bloqueio total das províncias ou cidades que já entraram no foco de contaminações comunitárias, casos de Nampula e Pemba, e agravar medidas na cidade e província de Maputo que, nas contas do Ministério da Saúde, estão a um passo dessa fase.

O PR passou ao lado do nível 4 não porque tenha avaliado mal a gravidade do assunto no terreno, mas porque uma decisão dessas seria penoso para o cidadão, para as empresas que passam por dificuldades extremas para o seu funcionamento originadas pelo covid-19, e para a economia em geral.

Bloqueio total exige uma logística. Significa que o governo teria de disponibilizar alimentos a favor das populações consideradas vulneráveis e distribuidos de casa em casa para evitar a mobilidade das pessoas. Essa capacidade não existe.

É que numa situação de bloqueio pára quase tudo. Aquela mamana que vende tomate e cebola em frente da sua casa, seria proibida de o fazer. Aquele que vende fruta, alface, mandioca, repolho e outros produtos agrícolas e não só, não teria como continuar a praticar o seu negócio. A ordem seria todo o mundo ficar em casa obrigatoriamente. O mesmo em relação aos vendedores de crédito, pão, carvão, etc.

Estas e outras pessoas deixariam de contar com as suas fontes de sobrevivência e teriam que depender do apoio do governo. Casos de pedreiros, carpinteiros, pintores, electricistas, marceneiros e outros que ganham o seu pão de cada dia a trabalhar no sector informal.

Qualquer decisão relativa ao relaxamento das medidas para o regresso às aulas, reabertura dos locais de culto, bares e outros sectores depende de nós. Do nosso comportamento. Se cumprimos ou não com as medidas de prevenção. Enquanto continuarmos a comportarmo-nos mal, dificilmente haverá retoma.


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