O preço das viaturas

Com os jornais à tiracolo, Nhinguito, o ardina, caminhava de tronco vergado ao peso. Eram as últimas notícias que os tornava tão pesados, até lhe esmagavam o ombro. Deslocou, sem pressa, o palito, de um canto da boca para outro. Pousou o xidjumba de jornais e dispôs no chão, em montículos, ao jeito das vendedeiras, de modo que ficassem com as apetitosas manchetes expostas. Em parangonas, lia-se: O PREÇO DAS VIATURAS.

O sol era quente. Parecia ter saído das tórridas reuniões do recente congresso. Ergueu-se, imponente, reforçando a impressão de que com o calor intenso à que já nos habituou, os dias, depois da agitação do congresso, voltariam à normalidade.

Nhinguito sentou-se sobre uma caixa de engraxar. Enquanto vendia jornais poderia ir dando lustro ao mundo, pelos sapatos. O sol não dava tréguas. Fez o gesto instintivo de desabotoar a camisa, percebeu que estava já aberta e sentiu-se impotente por nada poder fazer para se refrescar.

Os curiosos que acercavam os jornais e interpretavam ávidos as manchetes quentes, entupiam a circulação do ar e chamavam o ardina ao debate, como se, por ele transportar jornais, fosse responsável pelo conteúdo. Nhinguito irritou-se. Moveu o palito, devolve-o para outro canto da boca e ficou a olhar para o pousa pés da caixa de engraxar, enquanto o pensamento olhava para sabe-se lá onde.

– Nhingutô! Estes preços, estas viaturas... É verdade isto?

Apesar de irritado, com o calor, com as perguntas, com os preços ou sabe-se lá o quê mais, o ardina alimentava, com inocente arrogância, a ideia de que ele era conhecedor da verdade por detrás daquelas notícias, por ser muito próximo dos jornais:

– Ohôooo! Brincas? Há mola neste país.

Falou sem olhar, enquanto tentava distrair a irritação na transparência que o sol causava na capulana da vendedeira de amendoins torrados que circulava sem pressa por ali.

Uma sirene estridente cortou a manhã. Era um batedor de trânsito a abrir alas. Os pescoços rodaram instintivamente para ver, sem entusiamo, a caravana passar. O ardina moveu apenas o olhar para aquela direção, lentamente, enquanto mandava o palito, de um para outro canto da boca.

O batedor acelerou na contramão para ultrapassar a fila de veículos que se entupia no semáforo. Mandou tudo afastar, tudo parar. O chapa, em manobras que se sabe, teve de travar bruscamente, percebendo-se, por leitura labial, o peso bélico das palavras que o motorista contrariado proferiu. A moto descreveu em grande ginga um, dois, três círculos no cruzamento das avenidas, desautorizando o semáforo, irritando o mundo.

– Em vez de comprarem machimbombos. Ntlha!                     

Um buraco na estrada contrariou a gincana. A moto caiu. O agente gordinho esparramou-se no chão. Ouviu- se “ooohhh!”, com os olhos arregalados e mão sobre a boca. Depois silêncio.

Do fundo do silêncio, do nervosismo dos automobilistas, da irritação dos passageiros do chapa, do desespero da gente aglomerada na paragem, da indiferença da vendedeira, dos leitores das manchetes do ardina, do rosto amuado do Nhinguito, de todo o lado despontou uma gargalhada sem maldade, enquanto o batedor se recompunha no uniforme, na moto, na vergonha...

Nhinguito apanhou do chão o palito caído com o descuido da risada e devolveu-o à boca.


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