O sórdido jogo da invisibilidade

A meio do pequeno périplo pelo Brasil, entre alegrias e tristezas que o mundo nos ensina, dou-me conta de uma realidade até então suspeita, mas nunca constatável: o jogo da invisibilidade. Este jogo, mais do que o racismo, fenómeno abominável e implícito na teoria da invisibilidade, deixou-me atordoado. A palavra é, até, redutora à mistura sentimentos que se me abateram no momento, pois vaguei, por instantes, no mundo da incredulidade – esse espaço de entrelaçamento entre a dúvida e a repugnância; entre o asco e a inumanidade.

Estava eu num debate, com direito a gravação e posterior divulgação nas redes sociais, em plena cidade de São Paulo, quando a minha confrade, uma conceituada escritora brasileira, à mesa de um simpósio sobre a língua portuguesa,  questionou-me, dizendo, num tom algo perturbado:

´Perguntei, há anos, a  um(s) escritor(es) moçambicano(s) branco(s) o porquê da não publicação e/ou divulgação, no Brasil, de escritores pretos? A resposta, do(s) dito(s) escritor(es) foi de que os pretos ainda raciocinam em línguas bantu. Eles não têm o domínio da língua portuguesa! Precisam de anos e anos de aprendizagem da  língua de Camões. Confirmas essa asserção

 No momento em que ela reproduziu tal torpe afirmação do(s) confrade(s), fiquei momentaneamente tonto. Nunca imaginei que abominável conceito pudesse vir de um(s)  moçambicano(s),  um(s) compatriota(s) meu(s), um(s) cidadão(s) que está(ão) sob a mesma bandeira e a constituição que nos assegura os mesmos direitos,  independentemente da cor da pele.

Antes de responder, veio-me, nesses intermináveis segundos de silêncio, à mente o nome do nosso Luís Bernardo Honwana, o insigne escritor moçambicano, pai da nossa modernidade, que em 1964, época em que esse(s) escritor(es) ainda  aprendia(m) o abecedário da língua portuguesa, publicava o ”Nós Matámos o Cão Tinhoso”, obra de referência na literatura moçambicana e universal. É um escritor preto. Antes ainda, e na linha do Brado Africano, jornal que sucedeu ao Africano, fundado pelos irmãos Albazines, e de edição bilingue – Português e Ronga-, estavam o Estácio Dias, pai do precocemente falecido escritor João Dias, o Aníbal Aleluia, e outros que dominando o português e uma das línguas bantu, escreviam e arengavam abundantemente na língua portuguesa pelos espaços que iam alargando no reduzido perímetro de intervenção que o colonialismo lhes permitia. Eram pretos e tinham, em definitivo, no quadro da lei da assimilação aos valores lusitanos, a língua portuguesa como instrumento de trabalho. A acrescer à lista, vieram-me à mente nomes dos jornalistas Albino Magaia, também escritor, Benjamim Faduco, Abel Faife, Arlindo Lopes, Elias Cossa, Bernardo Mavanga, e outros que  labutaram na imprensa antes e depois da independência, alguns deles contemporâneos desse(s) malfadado(s) escritor(es) branco(s). E todos pretos.

 Mais velhos que esse(s) distraído(s) ou estulto(s) escritor(es), emergem nomes de intelectuais como o pastor Penicela, o Mário Machungo, o Eneas  Comiche, o  Teodato Hunguana, o Mateus Khatupa, o Bento Sitói, para citar alguns pretos que tiveram um papel directo e indirecto na reivindicação dos valores da liberdade e independência. E tudo em português! E o que dizer dos nossos filósofos Brazão Mazula, Severino Nguenha,  José Castiano, para citar alguns, que têm a língua portuguesa como sua língua materna e outras línguas, como o alemão, francês, inglês, italiano, nyanja, Changana, ronga e sena, como línguas de trabalho? Todos esses ainda se situam  no paradigma do ``Bon Sauvage’’ da linha  do Rousseau?

A resposta foi óbvia e bem militante, pois partiu de Eduardo Mondlane e Uria Simango, proeminentes individualidades da gesta nacionalista,  sem esquecer o protonacionalista Kamba Simango. Disse à minha confrade brasileira, e à selecta assembleia brasileira (maioritariamente branca), que o(s) meu(s) confrade(s) estava(m) equivocado(s) e sofria(m) do síndrome do racismo, próprio de um colonialismo que se quis assumir benfeitor dos pretos. E esse racismo leva, quando extremado, ao jogo da invisibilidade. Quer-se a todo custo negar a existência do outro, o preto. E, de certo modo, essa tese ganhou certo protagonismo na época samoriana (não vem ao caso analisar essa conturbada época da nossa História), quando, por decreto se tentou apagar tudo o que nos diferencia: a cor, a etnia, os valores diferenciados da nossa cultura. Não debatemos as nossas diferenças. Ocultámo-las. E o resultado, caro leitor, são afirmações desta natureza em latitudes que o(s) nosso(s) compatriota(s) branco(s) imagina(m) inacessíveis ao preto compatriota.  

Quando me perguntaram sobre escritores pretos que, em minha opinião,  estão ao nível dos badalados escritores de África anglo-saxónica e francófona, citei os meus contemporâneos Aldino Muianga, Juvenal Bucuane, Marcelo Panguana, Armando Artur, Filimone Meigos, Hélder Muteia, Suleimane Cassamo, Paulina Chiziane, Tomás Viera Mário, Carlos Paradona, Nelson Saúte, Bassany Adamogy, e outros. E não deixei de lado as gerações procedentes que se afirmam pelo seu talento, pese o jogo da invisibilidade que a todos nos toca: Daniel da Costa, Adelino Timóteo, Tokwene, Sangari Okapi, Álvaro Taruma, Hélder Faife, Isabel Ferrão, Mbate Pedro, Andes Chivangue, Lucílio Manjate, Rogério Manjate, Clemente Bata, Jorge Oliveira, Aurélio Furdela, Pereira Lopes, Alex Dau, Léo Cote, Chagas Levene, Amosse Mucavele,  Lica Sebastião, Rinkel, Emmy X, etecetera.

Como remeter ao limbo estes escritores? É possível  fazer passar, pelo exterior hegemónico, um país com cores e sabores diferenciados, como um território sem a luminosidade do arco-íris? Só indivíduos com transtorno dissociativo de identidade é que podem construir esses cenários. E caso não sofra(m) dessa patologia, só me leva a crer que para muitos (minoria, é claro) dos meus concidadãos, este país é só fonte (intelectual) de matéria prima para exposição universal.

Com repulsa!

 

Dezembro de 2018

 

P.S.: Omiti o(s) nome(s)

 

 

 

 


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