O universo da escrita de Júlio Carrilho

Chorarei quanto for preciso,/ para fazer com que o mar cresça

Cecília Meireles

 

Júlio Carrilho é um dos vários poetas moçambicanos que se ergue com o Índico. Ter nascido em Pemba e o afecto daí consequente, provavelmente, contribuem para a sua poesia realçar o mar enquanto espaço-líquido construtor de memórias. À semelhança de Nónumar (2001), por exemplo, o seu livro mais recente, De noite o mar (2019), apresenta o mar como uma área onde tudo brota. O mar em Carrilho é a essência da poesia, daí ser uma base notável na reconfiguração da relação existente entre o ser e o lugar.

Logo no texto inaugural, “Servir as ondas”, está salientada a perspectiva de que nesta escrita o sujeito é consequência do lugar de partida e, só depois, de onde se encontra: “Esta coisa de se ser ilhéu/ é ser-se líquido/ crispar-se com o vento/ amolecer com a lua” (p. 11).

Ora, no 11º texto do livro, “Suspeito desejo”, o mar também é um lugar de purificação, para o qual o sujeito retorna virtualmente à procura de renovação: “Queria tanto/ deitar no mar as mágoas/ dores minhas e de todos nós/ lavá-las com as espumas das marés/ para cá e para lá/ até ficarem exactamente eu/ exactamente nós, limpos de medo” (p. 24).

Há neste exercício sobre a linguagem um mecanismo de revisitação de lugares e das dimensões que os mesmos propõem. Este movimento implica a efectivação de viagens que ressalvam a permanente insatisfação do sujeito de enunciação: “Chego ao porto/ para que viajei/ abriu-se o tempo/ de olhar para o infinito” (p. 16).

Na verdade, a partida e o regresso dos sujeitos poéticos em De noite o mar parecem um argumento de Júlio Carrilho para repensar o Homem, na qualidade de ser instável à imagem do meio circundante: sempre em rotação cíclica. Esta situação é acompanhada por um exercício sobre a consciência, do qual se reflecte uma espécie de repensar o país e o mundo. No primeiro caso, escrito eventualmente a partir de um fragmento do passado, o poema “Alívio mineiro” revela-se actual ao que se passa, curiosamente, na província onde Júlio Carrilho nasceu. Naturalmente, o poema transporta o leitor a Cabo Delgado: “Há um temor de andar na própria terra/ transformada na montra que uma guerra/ expõe os seus produtos mutilantes” (p. 22).

“Alívio mineiro” é um poema incisivo. Forte e esclarecedor na identificação do problema. Pode-se dizer o mesmo do poema “Ébola ou paisagem contemporânea”. Neste, embora ébola seja a grande alusão, facilmente o poema salta para este contexto em que o mundo é abalado pela COVID-19: “É só um vírus ávido de gente?/ Ou apenas um corpo inerte/ sem nome/ na marquesa?/ Uma colecção de perdas/ a prolongar-se para dentro/ das empresas?” (p. 48). E na estrofe seguinte o “questionário” continua: “É a avidez e a fome/ a cobrir-nos de máscaras/ que só o medo sabe confirmar”.

De noite o mar coloca o sujeito poético como que a repensar sobre algumas situações contemporâneas, ora acenando para o que vai mal, ora para o que nunca deveria existir. Por exemplo, a ganância e o hedonismo extremo.   

Em termos de enunciação, com efeito, há essa variação entre uma escrita singularizada e pluralizada, com uma evidente preocupação de os sujeitos exprimirem suas emoções na condição de entidades pertencentes ao colectivo. Logo se vê, o “nós” não só é recorrente como tem razão de ser. “Somos hoje donos de nós próprios?” (p. 16). A pergunta é pertinente, e, seguramente, merece resposta de quem lê.

Finalizando, De noite o mar é um livro com uns interessantes jogos alegóricos, delicado, que não se prende à forma. Há no livro alguns sonetos com rimas alternadas, mas é no verso livre, sobretudo quando o poema é extenso, que se observa a qualidade poética de Júlio Carrilho.  

 

Título: De noite o mar

Autor: Júlio Carrilho

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 14


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