Os acólitos da estupidez

Não tenho muito para dar aos que comigo caminham. Tenho tido poucos caminhos, muitos passos e destinos incertos. Com os meus companheiros sempre terminamos em pequenas missas nas barracas onde o dízimo da cerveja é barato. A única bênção que nos surge e alegra-nos é acordar e o bolso denunciar uma moeda que se escondeu nas contas não pagas. Podíamos falar muito com os meus companheiros, mas nossas bocas tem mais facilidade para rasgar sorrisos e entornar gargalhadas que ateiam lágrimas nos olhos. De barraca em barraca reinventamos a nossa amizade.

Tenho muitos amigos. Tantos amigos que por vezes perco-me neles e não me encontro com facilidade. O exercício de procurar-me em meus companheiros é normal e habitual. Procuro-me em todos amigos, quando me sinto longe de mim. Faço isso como uma mãe que procura o filho ao fim da tarde em ruas onde miúdos jogam futebol. Bato na porta de todos e pergunto: “que tal! O Sérgio está contigo?”. E às vezes escondem-me neles próprios. Dizem que não me viram e não sabem de mim.

Cai a noite e cada um deles é uma casa sempre aberta para me acolher. Há um algo tão íntimo que nos une para além da amizade. O que nos une é algo tão valioso que desafia todas formas de união. Aliás, nós nunca nos unimos; dissolvemo-nos em um apenas. Transformamo-nos em uma língua que fala as mesmas palavras, em uma boca que fermenta a mesma saliva, em mesmas mãos que se abraçam e fecham o zipper depois de regar, com urina, a árvore da esquina.

É incrível como me encontro em cada atitude dos meus companheiros; dos meus irmãos que neste carnaval chamado vida fantasiam-se de amigos. Pequenos detalhes seus fazem-me reconhecer que uma parte de mim faz a eles e assim somos um apenas. O corte bem acertado que um faz sinto-o na minha cabeça, a alegria que um agita dentro de si transborda para o meu sangue, o beijo que um dá fica-me a marca nos lábios e a oração que um faz sinto o milagre em mim. Meus amigos são tão pequenos que ninguém lhes dá interesse. São essas criaturas tão pequenas que vivem na piedade de Deus que me tornam grande. Vês o “estilar” de Pelaginho que carrega um metro e pouco, a perna de Matchine que não está muito longe do ombro: é quase tudo igual. Mas, são meus porque a humildade talvez seja coisa que só cabe em pessoas baixas. São meus companheiros porque sabem a medida da amizade sincera: imensurável.

Não tenho muito para dar aos que comigo caminham. Vou sempre repetir isto porque há amigos que caminham comigo e querem o muito de mim. Eu não tenho muito para dar porque os meus companheiros sabem que nós não nos damos nada; porque tudo pertence-nos. Somos um apenas. Tomamos o mesmo vinho porque é nosso e não porque alguém de nós comprou. Escrevo isto num momento em que o meu contador de CREDELEC avisa-me que está sem energia suficiente. Vou continuar a escrever no escuro, mas isso pouco importa porque não é sobre a luz eléctrica que quero escrever; é sobre os meus companheiros verdadeiros que quero iluminar esta crónica.

Escrevo esta noite porque ontem não tive tempo de escrever este texto. Ontem vivi este texto e hoje o escrevo. Um bar de Magoanine, uma sentada na sombra de Nkobe, um blues no bar de Matchine, uma cerveja bem gelada com Mestre Tchaka e um soro poético servido em copo com Bonde é matéria suficiente para uma espécie de reinvenção existencial em mim, em nós e em nós-um. Se “Guatarri” decide fazer um assalto não anunciado, em minha casa, em forma de visita e “Zicks” faz-me esperar a sua visita que nunca mais acontece é isso que me importa. Importa-me porque sei que tenho amigos que vigiam a minha presença. Ainda vem Zaidely molhado de humildade que só as artes marciais ensinam; vem Mbeve preencher o banco reservado aos acólitos da estupidez. Não tenho muito para dar aos que comigo caminham. Tenho tido poucos caminhos, muitos passos e destinos incertos. Eu tenho apenas batinas para acólitos da estupidez como eu.


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