Os crimes montanhosos – o efeito “narrativo” em António Cabrita (1)

Uns vencem pelos seus crimes, outros fracassam pelas suas virtudes

William Shakespeare

 

Os crimes montanhosos é o título mais recente da editora Cavalo do Mar. Esta colecção de poemas é dividida em duas situações, designadamente: “o branco colarinho dos corvos”, escrita por António Cabrita, e “a gravata preta do corvo albino”, com autoria de Mbate Pedro. Porque cada uma destas partes é uma obra em si, dentro de um livro, hoje resolvemos dar atenção aos versos do poeta português, que os do moçambicano merecerão a nossa reflexão em uma semana.  

“o branco colarinho dos corvos” é uma proposta poética bem notável, na qual predomina textos abundantes, com a susceptibilidade de colorirem a imaginação do leitor. Em geral, a escrita de António Cabrita, neste Os crimes montanhosos, é preenchida por uma impressão narrativa, no entanto, sem ser o que a prosa poética nos habituou em termos de mancha gráfica ou do ritmo de enunciação. Aqui, o verso, predominantemente curto, desliza por quatro, seis, oito estrofes, e revela a percepção de que o poeta, de facto, tem muito por exprimir, mesmo sem um egocentrismo exacerbado a acabar-se no eu poético. A partir da impressão narrativa, Cabrita sabe dar-nos a dimensão do “ele”, vertendo a preferência de os seus sujeitos de enunciação falarem de si também por via de outras entidades aludidas nos textos (uma dessas entidades é Deus, que O encontramos no poema inaugural, “Incipit”, e em tantos outros como “Recordação de uma miúda da Mafalala nunca mais entrevista”, “Bazar dos ofícios”, “A via herética” e “As más companhias”). Por exemplo, no texto “Os poemas do meu pai”, há uma passagem que, se calhar, justifica essa tendência do “eu e ele” coabitarem pacificamente: “A minha veia é da dele/ simétrica mas pelo positivo” (p. 33). Duas páginas depois, há um trecho ainda melhor: “Gosto é de espreitar à socapa no espelho/ a ver se alguém que não eu, em gestos/ e expressões que me não pertencem, me perscruta” (p. 35).

Quer numa quer noutra passagem acima, prevalece essa decisão, digamos, de realçar que a existência do sujeito é garantida pela de mais alguém, que pode ser um pai, Pessoa, Krishna, Fellini ou uma jovem bailarina.

À parte esse traço contínuo, em “o branco colarinho dos corvos” os versos parecem traduzir o produto da constatação do poeta, misturado com as suas convicções e não o que necessariamente sente, embora o sentimento não esteja desvinculado disso. Tal evento coloca-nos num contacto com o poeta por via do que a poesia sugere, ou seja, ao contrário do que acontece com muita poesia lírica, em Cabrita não vamos buscar directamente do sujeito de enunciação o que nos mantem cativo no texto, mas nessa alusão falsamente desligada de quem a exprime. O poeta não se importa em anular o protagonismo do sujeito de enunciação, pois interessa-lhe mais tornar a subtileza da subjectividade algo verosímil, muito perto de nós. “o branco colarinho dos corvos” é também uma forte aposta em projecções quase tangíveis, como estas: “Um cão à volta da cauda. Outro. /Um terceiro à volta da cauda do primeiro” (p. 19).

É possível ver esses cães, reconhecê-los até, na mesma proporção que nos reencontramos com uma cidade, lembrada com um desabafo: “é isto, até me dá vontade de urinar. /É uma coisa de miúdo./ Mas em Maputo farta o cheiro a urina” (p. 36).

Exprimidos os versos nesse estilo aparentemente narrativo (como calha bem na poesia de José Craveirinha, de Rui Knopfli e Luís Carlos Patraquim), com nomes de seres animados, acções e lugares, a cumprirem uma função simbólica e não aquela da narração, que garante a narratividade propriamente dita, como efeito, o centro do universo deixa de ser os sujeitos de enunciação, evitando-se que a poesia aqui seja pensada a partir de quem a revela, mas pela referencialidade dessa expressão. Muitas vezes, Cabrita anula os holofotes ao eu poético para, em troca, oferecer-nos uma atmosfera que nos merece.

 


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