Os Deuses de Mongue

O Cabo de Mongue contracosta com Linga Linga. Estes nomes dizem relativamente pouco, ou, rigorosamente, nada. Uma península e uma ilha, no Índico, na terra da boa gente, que assistiram a dezenas de naufrágios no pré-colonial e, muito para lá, do período da acumulação primitiva do capital.

Mongue fica, em direcção à eternidade  horizonte, pouco mais de meia centena de metros da imaginária linha do nível de tantas águas.  Um precipício que segue e determina, de forma abrupta, o ponto final da viagem para qualquer alma mais curiosa e que sofra de alucinações. Aqui, bem no topo da colina, como lá nas profundezas, final da falésia, só reinam os Deuses das lacunas e a fé dos crentes.

Mongue foi o local escolhido pelos  Franciscanos, em 1893, que, acto contínuo, construíram  uma igreja, bem no cume da montanha. Construir em locais altos, em busca de segurança e calmaria, sempre foi apanágio do colonizador e, indiscutivelmente, dos que navegaram com um crucifixo numa mão e, uma bíblia na outra. Simbologia da força, poder e salvamento das almas perdidas. Mas, construir no topo da colina, infelizmente, também, tinha  incontroláveis contornos e inconvenientes. As poeiras, os frios de fora de época e, os malignos ventos do sul. Para as igrejas, ainda pior, impedia que os fisicamente menos dotados, se fizessem ao culto, com a regularidade desejável.

Um pouco mais que igrejas e missões, Mongue tem algo milagroso. Os caranguejos com brincos de ouro. Difíceis de serem encontrados, segundo o mito que virou verdade, os caranguejos de brinco de ouro, não são, facilmente vistos por qualquer visitante. Existe um conjunto de pescadores que os conhecem e veneram. Uma geração que se recusa a desvendar os segredos, mas que fala sobre os caranguejos com convicção. Estes caranguejos de brincos de ouro, igualmente,  não podem ser pescados e nem consumidos por quem quer que seja. Vivem como senhores da tranquilidade.

Não se conhece bem a sua origem, porém, os locais, muito poucos, por sinal, conhecem bem o mangal e seus habitats. Seria uma espécie de Deuses de Mongue. O mundo tem uma variedade extensa de caranguejos. Uns maiores e outros menores. Os povos adoptaram nomes diferentes para cada espécie. Fazem parte da cadeia alimentar de um vasto conjunto de peixes e aves. Estes, porém, por serem de ouro, devem nascer, viver, procriar e desaparecer, sem obedecer às fatalidades dos predadores. 

Inhambane nos presenteia, de tempos em tempos, com estas raridades que teimam em não ser mitologia. Sempre que se contesta, então, com vivacidade, os locais argumentam, alto e em bom som, sobre a saga da Laurentina. Esta menina que, em 1989, fez parte dos náufragos na baía, quando o barco ancorava no primitivo porto da cidade. Laurentina ficou nas profundezas e as famílias de Homoíne, sua terra de origem, acreditaram sempre que ela regressava à superfície, uma vez por ano, para anunciar a sua eternidade. 

Uma vez por ano, rufavam-se os tambores para que ela levitasse, das profundezas, e confortasse os errantes humanos que eternizam seus dons e poderes. Escutando as descrições e os contornos, somos, todos, intimados a acreditar que a mitologia não faz denominador e nem fracciona as realidades deste povo e terra.

Comecei o novo ano vasculhando estas inconfidências. Quis, com olhos católicos e espírito pagão, entender porque os caranguejos de brincos de ouro irradiam tanto temor, mesmo sendo parecidos às mais belas mulheres da península. Queria descobrir de quantos quilateis são feitos os brincos e, se alguma vez eles se descolam do corpo. Até gostaria de saber onde os caranguejos os escondem quando não estão em uso.

Milhares de perguntas e só uma dezena de respostas. Um país inteiro que quer conhecer os Deuses das lacunas de Inhambane, a terra que mais gente rica e propriedade privada criou ao longo dos tempos. Esta terra de fartos coqueiros que se furtam às pragas e ao amarelecimento letal. Mas apenas consegui regressar como cheguei. Visitas e prolongadas, conversas com mais misticismo e pouca explicação.  

Apesar do desencanto, a  fé, um dia, me ajudará a encurtar as distâncias dos entendimentos dos raros fenómenos da natureza. Enquanto isso não acontece, fica a ressonância das vozes que defendem todas as verdades e nenhuma filosofia. Os caranguejos de brincos de ouro e a Laurentina para quem os tambores deixaram de ecoar. Um cheiro apetecível e deslumbrante de uma terra com todos os tons e sabores.


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