“Os escritores jovens de hoje serão velhotes amanhã”, Pedro Pereira Lopes

“Os escritores jovens de hoje serão velhotes amanhã”, Pedro Pereira Lopes

Decidimos abrir o ano conversando com um escritor, jovem, de grande expressão a nível das letras nacionais: Pedro Pereira Lopes; nasceu na Zambézia em 1987. Contador de histórias e poeta, é fundador da web-revista de literatura “Lidilisha” e do “Projecto Ler para Ser”. Mestre em políticas públicas pela Escola de Governação da Universidade de Pequim, é docente e pesquisador no Instituto Superior de Relações Internacionais, em Maputo.

Ouvir o mundo e escrevê-lo valeu-lhe diversos prémios: Prémio Lusofonia, Município de Trofa, 2010; Menção honrosa, Prêmio Literário 10 de Novembro. Maputo, 2015; Menção honrosa, Prêmio Literário Eduardo Costley-White. Lisboa, 2016; Prémio Maria Odete de Jesus, Universidade Politécnica. Maputo, 2016.

O homem dos 7 cabelos. Maputo: Alcance Editores, 2012; Kanova e o segredo da caveira. Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique, Barcelona: Fundació Contes pel Món, 2013; Viagem pelo mundo num grão de pólen e outros poemas. Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique, 2014; A história do João Gala-Gala. Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique, 2017 e O mundo que iremos gaguejar de cor. Maputo: Cavalo do Mar, 2017, são algumas das suas obras.

Simples no falar e conciso em cada palavra. Nega ser chamado de mestre, todavia, a entrevista revelou-nos que se trata, no fundo, de um mestre que se cobre pelo pano humilde da sua mestria.

É um escritor que se dedica à escrita em vários estilos. Em qual estilo sente-se mais à vontade?
Iniciei-me na poesia, exerci-a, durante anos, com uma confiança e ingenuidade abismal. Aos 18 anos tinha um livro de poesia de 4 cadernos, de cerca de 130 páginas. O poeta e editor Fernando Couto predispôs-se a editá-lo, fui teimoso, o livro não foi publicado, ainda bem. Hoje vejo a poesia com outros olhos, não me falta amor, tornei-me mais consciente. Gosto de crer que, quando se assume a profissão de escritor, os estilos tendem a se diluírem. Penso a poesia ou a prosa com a mesma gravidade. Sinto a fatalidade em tudo. Com o mesmo grau de exigência. Já não me sinto confortável em qualquer “terreno”, é como se eu tivesse perdido a minha zona de conforto, incluindo a escrita infanto-juvenil.

Como se divide entre a docência e a arte de esculpir a palavra?
O binómio docente-escritor é clássico, é como se uma ocupação tivesse sido feita para a outra, almas gémeas. Escolhi ser docente porque queria escrever. No fundo, o objecto de trabalho de ambos é o mesmo, livros (incluindo a leitura, a pesquisa, a informação, a reflexão e a escrita). Anverso e reverso da mesma moeda. Há uma liberdade na profissão de docente que me permite “esculpir a palavra” com um pouco mais de tranquilidade, sem as amarras do poder estrutural das organizações ou do comando hierárquico. Claro, isso se se está satisfeito com a remuneração garantida ao docente e um número mínimo de aulas. Dou aulas dois dias por semana, sobra-me tempo para ler, pesquisar e escrever.

O que lhe faz escrever?
Paz! Liberdade! Vida! É como se o exercício da escrita fosse a chave para escapar da caverna, um mecanismo para levantar o espesso véu da ilusão. Digo, num poema, que “sou livre/ quando incontido/ o verso nasce.” Escrevo, logo, por necessidade, como um denso desejo carnal, fisiológico, que me carcome por dentro.
 
E escreve bem, mas em minúsculas…? Porquê?
Não fui o primeiro e não serei o último a escrever um livro em minúsculas. Muitos fizeram-no. Por exemplo, Rui Nogar, em “Silêncio Escancarado”, não usa maiúsculas, não vírgula e não usa pontos. O que te posso dizer? É arte, é liberdade, não me queres censurar, não é? Apresentei ao público dois livros de prosa em minúsculas, um volume de 12 contos e um romance: ninguém, até ao momento, lamentou o facto ou se queixou do desregramento. Estou certo, também, que a ausência de letras capitais não atrapalha a leitura. A professora Maria do Rosário Amaral diz que essas transgressões às regras de pontuação, a lembrar José Saramago, traduzem o “estilo do autor”. É apenas um estilo, uma marca.  

As maiúsculas, para onde vão?
As maiúsculas continuarão a existir onde sempre existiram, nas gramáticas convencionais, nos acordos ortográficos, nos outros livros, nos outdoors e nas embalagens de produtos. Claro, nos meus outros livros também.

É um “mestre dos novos escritores”. E sendo participante da literatura jovem nacional, que impressão tem dela?
Vou dizer o que me disse o Luís Carlos Patraquim, uma vez, “Mestre é o Caralho!” Não sou mestre de ninguém! Aliás, sou Mestre em Políticas Públicas, já agora. Essa coisa de títulos, parafraseando a Paulina Chiziane, são como jaulas, temos depois de ser politicamente correctos, como que a fazer justiça aos rótulos. Não gosto também dessas categorias que se criam, “literatura jovem”, existe uma literatura adulta, idosa, de terceira idade? Literatura é literatura e ponto final. Os escritores jovens de hoje serão velhotes amanhã. Há trinta anos, o Marcelo Panguana tinha a minha idade (risos). No que concerne à nova vaga de publicações, há alguma coisa boa, livros estupidamente bons, com voz autêntica e forte como os dos poetas M. P. Bonde e Álvaro Fausto Taruma, mas também bastantes textos insossos, com alguma literariedade, mas de baixa qualidade literária, de quinta. Há, nalguns, falta de preparo; noutros, algum suor e ausência de criatividade. É preciso frisar, entretanto, que creio que estamos num “bom momento literário”, e a continuar assim, estaremos a falar, dentro de um par de anos, de um “boom de escritores moçambicanos”.

E os seus livros (ninhos de letras minúsculas) que pretendem dizer ao mundo?
Numa cena do filme “Il Postino”, o poeta Pablo Neruda, interpretado por Philippe Noiret, recusa-se explicar um poema seu, alegando tirar-lhe a encanto. Vou socorrer-me deste “princípio constitucional” e reclamar para mim o direito de ficar calado. Para ser sincero, nunca sei como é os leitores interpretarão o que vão ler, e estas leituras, fruto da subjectividade, fazem parte do jogo. Por exemplo, “mundo grave” é narrado tendo em conta duas linhas de crenças, a científica e a tradicional, a moderna e a espiritual ou mágica. Cabe ao leitor escolher a verdade em que pretende acreditar.

Quer dizer algo sobre o rótulo que se cola a novos escritores: “eles não lêem”?
O que te posso dizer? Conheço muitos, convivo com poucos. Alguns publicaram bons livros e outros não. Todos eles podem ter lido ou estarem a ler muito. Não vejo uma relação forte e positiva entre muita ou pouca leitura e a pressa em publicar/ qualidade. Conheço um escritor cuja referência declarada é o Mia Couto. O Mia tem cerca de 30 livros, este escritor leu pouco? (risos). A escrita é um processo individual e egoístico, e já não me inquieto muito com os outros escritores, por causa das tareias que já levei. Cada escritor tem o seu “projecto de escritor”, as leituras e a faina, assim, serão ditadas por tal “projecto”.

E em 2019! Que espera da sua produção? E dos jovens autores?
Dos “jovens”, realmente gostaria de ler coisas novas dos poetas Nelson Lineu, Japone Arijuane, Hirondina Joshua e do Jaime Munguambe. Gostaria, também, de ler o romance do Agnaldo Bata, que teve menção honrosa no Prémio Eugénio Lisboa/INCM, edição de 2018. Mas, como disse antes, cabe a cada escritor aquilo que vai e quando publicar. Quanto a mim, tenho dois livros infanto-juvenis em fase de ilustração e um de poesia que sairão em 2019. Um destes infantis é um livro de poemas, que está a ser ilustrado pelo artista plástico Walter Zand; o outro é um picture-book, uma co-autoria com a escritora Angelina Neves. Espero, também, participar em mais eventos literários.

Escritores nacionais e internacionais que vale a pena ler…
O Marcelo Panguana lançou dois livros distintos em 2018, um de entrevistas e o outro de ensaios e crítica de livros. São dois livros muito importantes para quem quer ser ou é escritor, e óbvio, para os que querem conhecer, a fundo, o universo da produção literária. O Álvaro Fausto Taruma presenteou-nos com o “Matéria para um grito”, um livro para sorver nas calmas. O Carlos dos Santos é um escritor com uma vasta produção, mas creio que é pouco conhecido. Em 2018, lançou o infanto-juvenil “Na esteira das estrelas”. Gostaria de lê-lo mais em 2019. No plano internacional, tenho vários autores por (re) ler, entre eles, Valter Hugo Mãe, Ricardo Aleixo, David Williams, Mario Vargas Llosa e Philip K. Dick.
 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique