Os funerais de Mubengane de Aldino Muianga: a subversão do olhar*

A leitura dos textos de Aldino Muianga, e desta obra também, provoca sempre um turbilhão de ideias, perguntas, desperta inquietações adormecidas, perplexidades antes desconhecidas e permite-nos formular ou reformular questões que nem sempre ousamos dizer em voz alta. Vou tentar fazê-lo, através de 6 (seis) tópicos:

  1. O acto de bem contar boas histórias
  2. A iconoclastia como estratégia
  3. A profusão de temas
  4. A subversão da hierarquia do cosmos: uma perspectiva em diagonal
  5. Outras linhas de leitura
  6. Nota inconclusiva
  1. O acto de bem contar boas histórias

Nem todos sabemos contar histórias. Escolher a palavra certa para começar, a expressão mais adequada para prolongar o efeito de sedução e a forma de a terminar, criando a sensação de perda, não estão ao alcance de qualquer um. Sabemos que uma boa história não é um amontoado de acções, nem um congresso de personagens. Lemos ou ouvimos com interesse, prazer e paixão as narrativas, sobretudo pela forma como elas se constroem, pelas estratégias usadas para nos darem a conhecer os eventos, as situações e as ideias. Dito de outro modo: o prazer da leitura e da escuta depende grandemente do investimento que é feito na composição, na palavra. Albino Magaia disse-o no “Prefácio” de A Noiva de Kebera, em 1992:

“Este Senhor introduziu nas nossas letras uma metodologia de bisturi. Cirurgião que é, anda a operar as palavras para lhes aperfeiçoar o contorno” (p.7)

A escrita de Aldino Muianga intensifica, de forma particular, a produtiva relação entre literatura e realidade moçambicana. Desde Xitala Mati que reconhecemos marcas de um estilo próprio de contar histórias. A recriação de ambientes e situações que ocorrem, sobretudo, no subúrbio e no espaço rural, a criativa recuperação da memória de um tempo também nosso, o tempo colonial, a ficcionalização das linhas com que remendamos o pós-independência, o lugar da noite e a função do  sonho são alguns traços dessa estratégia. Devíamos juntar a tudo isto um ecléctico sentido de humor. Um humor ora enxuto, ora irradiante que emite feixes sobre o lado sério e dramático das situações ou dos eventos. O humor é aqui catárctico: surpreende o leitor, fá-lo sair desprevenido da sua zona de conforto e ameniza a atmosfera trágica a que nos referimos.

Aldino Muianga recria situações de tal modo plausíveis e verosímeis que o leitor não avisado quase se esquece que está diante de textos literários e da “ilusão referencial”. É uma linguagem que permite visualizar claramente as personagens, as acções e os espaços representados ou construídos, como se estivéssemos em presença de filmes ou da própria realidade. Interrogo-me, por vezes, se a realidade se transformou em ficção ou se, pelo contrário, foi a ficção que se tornou realidade. É nesta produtiva hesitação que situo este texto de apresentação de Os funerais de Mubengane.

O salutar hábito de bem contar boas histórias parece estar em extinção. Todos os dias cada um de nós produz narrativas curtas e representa papéis. Isso não anula a sensação de que há uma periclitante erosão dos laços que a partilha de uma boa história constrói. Em vez desse prazer de ouvir e contar histórias, a nossa rotina diária está dominada pela coisificação, pela urgência do resultado. Alguns de nós transformaram-se mesmo em escravos do produto, da coisa.

Tenho para mim que os escritores moçambicanos – quase todos – sabem que o título de uma obra é um lugar importante na relação com o leitor. É ali onde se conquista ou se perde o leitor. Mesmo que essa conquista ou essa perda seja temporária, é o primeiro momento dessa relação.

      2. A iconoclastia como estratégia

De facto, “Os funerais de Mubengane” (o conto), coloca no horizonte de expectativas um dos rituais mais complexos, simbólicos e tristemente significativos da nossa existência. Não é exactamente a morte, mas a teatralização do que acontece depois ou por causa da morte. A lógica racionalista e o senso comum são simpáticos à ideia de que o normal é haver uma morte e um funeral. O plural aqui – Os funerais – aponta para mais do que um funeral para um só ser humano: Mubengane.  O problema, no conto com o mesmo título, resume-se ao seguinte: como deve ser o ritual e em que posição devem estar o caixão e o corpo do falecido? Haverá, em última análise, uma posição em que o morto afinal não descansa? Mubengane foi enterrado duas vezes porque o primeiro enterro foi atribulado e porque era necessário corrigir a posição pouco cómoda em que os coveiros o haviam colocado da primeira vez. Teve direito a novo velório e outra morada. Como se tivesse tido duas mortes, à imagem de Quincas Berro d’água, de Jorge Amado.

       3. A profusão de temas

A obra é composta por 8 (oito) contos. Em cada conto, podemos descortinar pelo menos um tema, um problema e um motivo de reflexão.

No conto “A frigideira” somos confrontados com as lógicas por detrás dos nossos arreigados hábitos alimentares. A desavença entre as avós Djimana e Maguidana tem como pano de fundo esse território. Poucas vezes reflectimos sobre os ingredientes que formatam as nossas convicções quando decidimos o que comer ou as proibições que determinam o que não comer. Esquecemo-nos que os hábitos alimentares são também construtos, muitas vezes resultantes de repetições em muito similares às outras formas de educação e de arquitectura da nossa personalidade individual ou colectiva. Somos educados a comer ou a rejeitar alimentos, do mesmo modo que somos treinados a apreciar como positivos determinados padrões de comportamento ou modelos de beleza.

Os dramas de quem cria uma cobra (Leta) dentro de casa aparecem-nos em “Os sobressaltos do Madala Mphongolo”. O protagonista adoptou uma cobrinha, sacrificou-se para a manter viva, alimentou-a, fê-la crescer e passou a temer pela sua própria vida. Se a ingratidão da cobra parece representar a ingratidão humana, é a ironia cáustica e subversiva que surpreende: a ingenuidade e a insensatez são de um velho e os velhos costumam ser o modelo do saber feito de experiência. Ou seja, se acontece a um velho, pode acontecer com qualquer um.

A denúncia daqueles que dizem uma coisa e fazem o oposto surge em “Um bilhetinho”. Infelizmente, a realidade parece fértil em comportamentos desta natureza. Aqui e pelo mundo fora. Desde o princípio dos tempos. Mutatis mutandis, isto é, mudando o que deve ser mudado, é o primado da mentira, o culto do fingimento perverso e o reino da traição. O pastor Eugénio Tivane de “Um bilhetinho” pregou com veemência contra o adultério na aldeia de Dingane, no regulado de Muzamane, em Manjacaze:

“No calor da pregação, ora levanta uma perna, ora outra, e desfere pontapé aos imaginários traseiros imundos e fedorentos daqueles pecadores, para os arrojar nas labaredas do fogo eterno” (p.47).

O risível da história está na mensagem do bilhetinho que uma mulher de meia idade enviou ao pastor.

Há quatro contos que nos desafiam a reflectir sobre a forma como costuramos a nossa relação com a nossa religiosidade, a convivência com os nossos espíritos ou, ainda, a maneira como gerimos saberes que ainda não adquiriram cidadania.

A necessidade da reconversão do nosso olhar para a nossa condição cultural, para o reportório das nossas crenças, os mistérios em torno dos que sobrevivem às picadas de cobras venenosas sem a intervenção da medicina convencional ou o esquecimento a que são votados os falecidos nas campas abandonadas nos cemitérios desfilam como parte de um Manifesto temático e ideológico. Refiro-me aos contos “Uma visita nocturna”, “Quem matou a cobra que mordeu Mandhevu?”, “O boi Nkhosi” e “O homem do lago Xindjire”.

Este último, em particular, recupera a possibilidade de os mortos dialogarem com os vivos, influenciando o curso dos acontecimentos dos que se encontram do lado de cá do mundo. A sugestão parece óbvia: precisamos de “reafricanizar” os espíritos e de moçambicanizar o nosso olhar sobre as diferentes formas com que se costura a nossa relação com aquilo a que se convencionou chamar “sobrenatural”. A designação “sobrenatural” estabelece uma hierarquia que separa e sobrepõe. Em alguma da nossa mundividência, os espíritos dos mortos e os vivos convivem no mesmo universo. São co-naturais. A fronteira não existe, é convencional, imaginária e não impede a intersecção. Talvez já seja tempo de olharmos para as nossas coisas também sem os óculos emprestados pelos outros. Em paralelo, no confronto de lógicas ou na diferença. Concebendo categorias que acomodem os fenómenos que escapam à racionalidade cartesiana e destilando a forma intuitiva com que captamos o mundo em que vivemos. Precisamos de nos interrogar sobre o que é “sobrenatural”, “estranho” ou “fantástico” nas nossas condições:

“[…] aquela imagem era a de um mensageiro dos defuntos que ia recordando aos vivos sobre as futilidades da vida mundana, sobre os malefícios da mentira, da vaidade, da insaciada sede pela fortuna e pela grandeza, que eram práticas comuns entre os caudilhos daquela Congregação dos Doze Apóstolos de Mbevane” (p.71).

      4. A subversão da hierarquia do cosmos: uma perspectiva em diagonal

 Finalmente, e já sugerimos antes, Aldino Muianga capta o imaginário e escalpeliza as lógicas com que se tricotam as vivências em dois espaços colocados à margem da vida: o mundo rural e o subúrbio. Ao desvelar a margem, subverte a hierarquia do cosmos. A margem passa a ser o centro do universo. Por essa via, o mundo rural e o subúrbio adquirem outras dimensões. O escritor convoca a nossa racionalidade, a nossa interpretação e parece propor, na subversão a que referimos, a incorporação desses espaços marginais no cosmopolitismo adiado da nossa modernidade. Na realidade extra-textual, o cenário é dramático: ao invés de nos tornarmos citadinos, modernos, inventando uma urbanidade inclusiva, toda a sociedade parece estar a tornar-se suburbana e rural, no sentido mais negativo e degradante do termo. Vivemos numa themba gigante. Já não se sabe com nitidez onde termina a cidade – significando forma de estar ordeira, honesta, saudável – e começa a insalubridade, o caos, a panfagia. Há uma obsessiva e sistemática tendência de “molwenização” da urbe, que expulsa a moral e o pudor das relações entre os cidadãos e entre membros da mesma família. No livro, os filhos de Tata Muloto (vide “O boi Nkhosi”) “protagonizavam querelas, cenas de abusos verbais e violentos pugilatos. […] Cada qual exigia o seu quinhão do espólio da herança paterna (p. 64)”

        5. Outras linhas de leitura

Há três linhas de leitura, que não pretendo explorar agora, mas que me parecem férteis: 1. “A sintaxe do sonho e o lugar da noite na ficção narrativa de Aldino Muianga”. Seria interessante analisar os acontecimentos que ocorrem a coberto da noite, reflectir sobre os ingredientes dos sonhos das personagens e a sua importância para a economia da narrativa.

À priori, o sonho das personagens influencia, acelera, adensa, precipita a dinâmica da narrativa ou acentua a dimensão trágica do destino das personagens. É espaço de profecias, da interpretação da vida. O pesadelo da vovó Sibhonguile foi decisivo para a exumação do corpo de Mubengane. Na noite do funeral de Djonasse (vide “Uma visita nocturna”), “a avó Ismelina teve assombrosos pesadelos” em que sonha com o esposo, falecido vinte anos antes e que lhe transmite uma mensagem. Os sonhos “fantásticos” de Ma-Miriam em A Noiva de Kebera facilitaram a transgressão e contribuíram para a descoberta das artimanhas de Sanga-Kebera. Os sonhos grotescos de Faztudo, empregado doméstico, que se envolve em “festivais de amor” com a patroa, dona Miquelina Santos, em A Rosa Xintimana são metáforas do medo que antecipam o seu auto-despedimento da casa do Sr Zé dos Santos. A avó Djimana (“O Tótem” in O Domador de Burros e Outros Contos) sonha “com um destacamento de ratos descomunais, de um pêlo negro, eriçado, a passearem-se debaixo das suas roupas, a arrancarem-lhe o cabelo com fortes dentadas […]” (p.37). Este sonho, por exemplo, é um prenúncio que foi interpretado por um sagaz adivinho, por um mago.

A segunda linha seria “A dimensão telúrica nas narrativas de Aldino Muianga” Esta hipótese ocupar-se-ia da sistematização e hermenêutica dos signos e das estratégias discursivas através das quais Aldino Muianga convence o leitor de que é Moçambique que está nas histórias que conta.

A terceira dedicar-se-ia a compulsar e interpretar os animais de que se socorre o escritor para arquitectar sentidos. No imaginário moçambicano, há animais que são significantes e, por conseguinte, portadores de sentido. A sua incursão nas histórias tem causas, implicações e consequências. Seria interessante analisar que animais são escolhidos, que significados aportam, em que circunstâncias agem e que efeitos provocam no desenrolar das acções. Os exemplos são muitos: as cobras, os ratos, os mochos, as corujas, as hienas, os chacais, etc. Chamaria a esta linha, “A fauna de Aldino Muianga e a construção de sentidos”.

       6. Nota inconclusiva

Algumas histórias inventadas por Aldino Muianga alertam para a desagregação da sociedade e contribuem para a construção onírica de uma alternativa de vida. E é por isso também que leio com prazer renovado Aldino Muianga. Porque me devolve, por instantes, a confortante sensação de que, através da literatura e com a literatura, posso usufruir dos prazeres restantes da vida e retornar à condição de cidadão com esperança na restauração dos valores positivos com que se sustenta uma sociedade. Mas a literatura, como se sabe, não muda o mundo. A literatura muda os homens e só os homens é que mudam ou não o mundo em que vivem.

Alguém afirmou [Dilson De Oliveira Nunes?] haver duas maneiras de abrir a cabeça de uma pessoa: ler um bom livro ou usar um machado, e propõe Machado de Assis. Eu recomendaria Aldino Muianga!

 

*Texto de apresentação do livro Os funerais de Mubengane, de Aldino Muianga.

 

 


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