Os Galtons: mestres do instante ininterrupto

Pela Antena da Rádio Moçambique [RM] sempre ouvi os Galtons. A voz adestrada de Abílio Mandlaze [vocalista falecido] servia-me de ponte para atravessar as ondas radiofónicas, do rádio, e chegar à música. A marrabenta dos Galtons sempre me encantou pela forma que é reinventada e tocada com brio. “Khoma la”, “Ulava ni tisunga”, “Juro sinceramente” e “Papaiane” eram execuções que faziam de mim hóspede deste grupo. Foi sempre uma marrabenta madura, talvez porque carrega(va) em suas letras e notas a soma do fardo das idades dos seus executantes. Diz-se que o seu nome foi inspirado na marca de uma guitarra; se assim for não há dúvidas para dizer que esse grupo é uma guitarra que se toca, a si mesma. Uma guitarra feita por cordas humanas de carnes.

Os Galtons são uma invenção de António Marcos em 1963. Ele inventou o grupo e o grupo inventou a sua marrabenta. Ximanganine é o velho que põe dentes de nostalgia, em cada música, com o seu bandolim; aquele bandolim não toca, raspa sentimentos para podermos tomá-los em forma de pó em cada música. A marrabenta com esse grupo vira uma verdadeira bola de futebol: é cabeaçada pelos dedos, rematada pela voz bem afiada, passa através de um drible único pelos ouvidos abertos e é pedalada, como uma bicicleta, para entrar esteticamente na baliza da perfeição e beleza. 

A simplicidade na forma, a mestria na execução, a harmonia no encadeamento das vozes e a retaliação do social e a sua construção no conteúdo são algumas marcas vivas desse grupo. A reinvenção e a execução própria da marrabenta por esse grupo deixa transparecer, no fundo, uma lição: o conhecimento profundo possibilita a reinvenção e a renovação e tentar reinventar sem conhecer as origens leva a desvios e deformações.

“Khoma la” [segure aqui] e ao fazê-lo compreenderá que os Galtons, quando localizados no tempo, são duma marrabenta formalmente “castiça”. A sua originalidade no estilo é um caminho para chegar à êxtase extensa e confundível com um orgasmo interior. Os Galtons são epígonos dum estilo que só eles possuem.

A fluidez técnica dos instrumentos é um outro detalhe que nos permite transpor as fronteiras da marrabenta habitual. A sua maneira, os Galtons, fazem-se poetas.

“A kufa yiku durumira” [Morrer é dormir] Descobriram cedo e por isso proporcionaram-nos e ainda proporcionar-nos um ritmo que resistente à morte. A marrabenta dos Galtons tem vigas firmes de experiência, pilares que seguram o velho com a força do novo. Os que vivem do presente rotulam esses mestres de relíquias da Velha Guarda; eu que sobrevivo reinventando o passado chamo-os mestres do instante ininterrupto.


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