Os números que podem salvar vidas...

Os números que podem salvar vidas...

Em parceiria com o INE, o Instituto Nacional de Saúde (INS) já fez, até esta altura, oito inquéritos sero-epidemiológicos, em igual número de cidades, facto que permitiu perceber melhor o comportamento do novo Coronavírus, as faixas etárias mais vulneráveis e os locais com maior incidência da doença. Esses estudos contribuíram ainda para um melhor direccionamento de recursos financeiros e, em alguns casos, na redução de casos positivos da doença.

A descoberta do novo coronavírus (COVID-19), em Dezembro de 2019, gerou preocupação mundial e colocou à prova os sistemas de saúde de todos os países, sem excepção. Em tão pouco tempo, o vírus se espalhou e a OMS elevou o surto da COVID-19 (pois abrangia uma certa região geográfica)  para o estágio de pandemia (porque o vírus espalhou-se por diversas regiões do planeta). Foi a primeira fez, na história da humanidade, que um coronavírus chegou a esse estágio. A situação demandou o redimensionamento de prioridades e de recursos dos Estados e Moçambique, não foi excepção.

O país beneficiou, porém,  da entrada tardia do vírus para “aprender das experiências dos outros países, e apartir disso, antecipar-se a possíveis cenários”, precisou Eduardo Samo Gudo, diretor-geral adjunto do Instituto Nacional de Saúde (INS).

Essas experiências fizeram com que três meses depois do registo do primeiro caso da doença, as autoridades de saúde moçambicanas, decidissem lançar o primeiro inquérito sero-epidemiológico da COVID-19 para a melhor compreender os padrões de transmissão da doença. “Para o efeito, o Instituto Nacional de Estatistica (INE), através dos seus técnicos, ajuda-nos a definir as amostras probabilísticas das cidades inquiridas, até ao nível dos bairros. Isso  foi feito com base na amostra-mãe do Senso de 2017, para que pudéssemos assegurar melhor representatividade e a fiabilidade dos resultados”, apontou Samo Gudo.

UM VÍRUS COMPLEXO, EXIGE ESTUDOS COMPEXOS...

Antes dos inquéritos, as autoridades de saúde pouco sabiam sobre o comportamento da doença e muito menos sobre os locais e grupos profissionais mais expostos à COVID-19. Nampula, a primeira cidade do país a registar transmissão comunitária, foi igualmente a primeira a beneficiar do inquérito sero-epidemiológico.  No total foram inquiridas e testadas 6.272 pessoas, sendo que na comunidade, foi usada uma amostra de 1.728 participantes, o equivalente a 576 agregados familiares distribuídos pelos 13 bairros.

O referido estudo permitiu descobrir que todos os bairros já tinham casos positivos da COVID-19, que a doença afectava todas as faixas etárias sendo os adolescentes, jovens e adultos os mais afectados e que todos os grupos profissionais (Polícia, pessoal da saúde, transportadores públicos e privados, funcionários de estabelecimentos comercias, vendedores dos mercados formais e informais) estavam afectados.

A Cidade de Maputo, que também foi declarada como tendo transmissão comunitária, o inquérito revelou uma realidade contrária em relação as faixas etárias mais afectadas pela COVID-19, se comparada a outras cidades. “Depois da realização do estudo, notámos que os idosos eram o grupo com maior taxa de positividade, isto é, os idosos estavam mais exposto ao vírus. Estamos a falar de um grupo, à priori, vulnerável e que apresenta maior probabilidade para internamento, desenvolvimento de doença grave e óbito. Esta tendência contraria o que registamos noutras cidades”, detalhou.

Os inquéritos trouxeram ainda um conhecimento aprofundado sobre a realidade situacional do comportamento da doença em relação aos seus sintomas nos indivíduos. O facto de maior parte dos casos positivos no mundo, e em especial em África, apresentarem-se com sintomatologia leve ou assintomáticos dificultava a que as autoridades de saúde tivessem a dimensão dos casos no país.

Sem os  inquéritos sero-epidemiológicos, a quantidade de pessoas testadas dependia da cobertura dos serviços de saúde, isto é, os locais com maior taxa de cobertura tendencialmente apresentavam maior número de registo de casos, como referiu Samo Gudo. “Geralmente os indivíduos sem sintomatologia não vão ao hospital e quando têm sintomatologia leve fazem tratamento caseiro ou dirigem-se à uma farmácia. Esses casos difíceis de perceber são facilmente descobertos pelos inquéritos sero-epidemiológico.”  

PESQUISAR, ANALISAR PARA TOMAR MELHORES DECISÕES...

Segundo o Instituto Nacional de Saúde, entidade responsável por executar os inquéritos, o instrumento permitiu ao Governo saber lidar e melhor direccionar recursos e as acções de mitigação dos efeitos da doença.

“As diferenças nos padrões de transmissão constatadas nas cidades estudadas mostram que não podemos, em nenhum momento, usar a mesma abordagem para todos os locais. Para cada local, a resposta deve ser geograficamente desenhada. Nos estudos, notámos que as faixas etárias mais afectadas eram diferentes, não obstante algumas similaridades, os níveis de transmissão pelos grupos profissionais eram diferentes, o padrão de dispersão geográfica do vírus também era diferente. Isso significa que cada local precisa de uma estratégia de resposta particular”, reiterou.

Face ao cenário da cidade de Maputo, por exemplo, as autoridades de saúde dizem estar a dirigir especial atenção à proteção da pessoa idosa para contrariar a tendência e não permitir a saturação e consequente colapso do sistema de saúde.

Entretanto, o mesmo estudo deixou evidente que as altas taxas de positividade entre pessoas idosas não se devem à sua exposição aos locais de maior risco de contaminação como os mercados, por exemplo, “mas à mobilidade de crianças, jovens e adultos. Isso acresce a nossa responsabilidade, porque se quisermos, de facto, proteger os idosos temos que educar as crianças, os jovens e adultos, pois estão sempre. Esses grupos têm que ter consciência que é também sua responsabilidade cuidar dos idosos. No geral, esses estudos nos ajudaram a melhor priorizar as nossas intervenções em termos de locais geográficos, isto é, quais são os bairros, províncias e faixas etárias em que temos que intensificar as nossas acções. Isso ajuda a racionalizar os recursos que são escassos e a garantir um maior impacto nas nossas acções”, destacou.   

INQUÉRITO REDUZIU TAXA DE POSITIVIDADE E CASOS POSITIVOS EM NAMPULA E PEMBA

Depois do estudo pioneiro realizado na cidade de Nampula, houve segundo as autoridades, uma mudança na estratégia de actuação do sector, facto que contribui para a redução da taxa de positividade naquela urbe. “Quando lançamos o inquérito, a taxa de positividade (valor referente a proporção de amostras positivas entre aquelas testadas) semanal era de 15%, e três semanas depois da divulgação dos resultados, assistimos a uma desaceleração dessa taxa tendo se fixado, até esta parte, entre 3 e 4%. Notámos igualmente, a redução dos casos positivos da doença. Isso mostra a importância do inquérito para a gestão da pandemia, pois passamos a ter uma gestão baseada em dados científicos. O mesmo cenário registamos na cidade de Pemba, a segunda inquirida, onde no início tínhamos uma taxa de positividade de 13% e que reduziu igualmente para 3 a 4%”.                                                                                                                                                                                                                                                                                   

EM TEMPOS DE PANDEMIA HÁ QUE SABER COMUNICAR...

Moçambique tem uma taxa de analfabetismo de 39%, segundo o Senso de 2017. Face a esse cenário, as autoridades de saúde garantem que têm estado atentos a esses números, pois são a base para melhor desenhar e adequar a sua estratégica de comunicação face à questão da COVID-19. Segundo Natércia Monjane, directora do Departamento de Promoção para a Saúde no Ministério da Saúde, uma campanha de comunicação que não toma em conta a situação real do público-alvo está condenada ao fracasso.

“É por isso que nas zonas remotas temos apostado nas rádios comunitárias, pois sabemos que a língua Portuguesa ainda constitui uma barreira para o acesso à informação, associado a isso, estão os tabus que têm uma grande influência no comportamento e atitudes das pessoas e para isso trabalhamos com os líderes locais”.

Porque as autoridades de saúde concluíram que, no geral, o grupo social que mais está exposto à doença e que apresenta comportamento irresponsável são os jovens, “estamos a potenciar as plataformas digitais como os sites, o facebook, entre outras plataformas que permitam que possamos atingir esta camada bastante activa na internet”, concluiu.

INTERNET: UMA APOSTA EM TEMPOS DA COVID-19

Com a facilidade de propagação do novo coronavírus, algumas organizações aproveitaram-se do confinamento para fazer estudos via internet sobre a COVID-19. Uma dessas organizações é o Instituto para Democracia Multipartidária (IMD) que durante a vigência do Estado de Emergência fez vários estudos sobre a doença, um dos quais procurava perceber as causas do aumento de casos no país em tempo de Estado de Emergência. Através da plataforma Sala da Paz, uma página que têm mais de 20 mil seguidores “fizemos um estudo sobre várias dimensões ligadas à implementação do Estado de Emergência, na área do comércio, transporte, educação e postura do cidadão. Conseguimos abranger 4 800 pessoas de todo o país, alguns na zona rural e outros em zonas urbanas. Foi através desse trabalho que captarmos relevantes percepções do cidadão em relação à implementação do Estado de Emergência”, descreveu Osman Cossing, Gestor de Projectos da organização para depois avançar algumas conclusões do estudo.

“Mais do que nunca temos noção da importância da estatística nos nossos trabalhos. Primeiro, notámos que as pessoas não ficavam em casa porque estavam à procura de fontes de sustento para garantir a sua sobrevivência; outra constatação foi de que havia influência de factores culturais no comportamento das pessoas, um exemplo claro notámos nos cemitérios, em que nos primeiros momentos, as pessoas teimavam em estar em grande número; os respondentes desse inquérito também mostraram  que existia uma franja significativa de indivíduos que, de forma negligente, não cumpriam as medidas de prevenção, não obstante, conhecerem as normas e restrições, e por fim, o estudo revelou ainda que, a determinado momento, a fiscalização foi reduzida”, detalhou.

Segundo Cossing, através desse estudo, foram desenvolvidos relatórios e recomendações que foram submetidos a órgãos com poder de tomada de decisões como o Ministério da Saúde e a Presidência da República “sentimo-nos prestigiados pois graças a esses estudos fomos citados pelo Presidente da República no informe que enviou à Assembleia da República sobre a implementação do Estado de Emergência”, terminou.

 


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