Os olhos na escrita de Mutimucuio

A beleza do homem não está na cara, está é no carácter, na sua posição social, em suas posses: onde já se viu homem rico ser feio?

Jorge Amado

A escrita de Manuel Mutimucuio começa a ganhar registos muito apreciáveis no actual contexto da produção literária no país. Neste movimento presente – futuro, com alguns vaticínios à mistura, o escritor está a conseguir levar à literatura um debate de ideias e de valores pertinentes, questionando o status quo das coisas – e de que maneira. Garante-lhe êxito, nesse exercício, o facto do escritor ser um bom observador da nossa realidade e de, no acto da escrita, conseguir transcender para uma dimensão ulterior, feita de utopias, perguntas, dúvidas e (in)certezas. Só com essa abstração resultante de uma profunda leitura do espaço real nacional podem-se criar livros como Visão, com histórias nossas, dos nossos comportamentos e desvios; só desse modo torna-se possível captar tendências e fazer disso algo além de uma percepção.

Assim, começa a não ser surpresa o efeito literário de boa qualidade causado pela criatividade de Manuel Mutimucuio, pois, ao ler-se o último título do autor, Moçambique com z de zarolho, percebe-se a sua orientação, voltada para o poder da escrita enquanto um escape de retorno à realidade com outras perspectivas.

Moçambique com z de zarolho é uma história sobre como, em determinadas ocasiões, a cultura é algo fundamentalmente político, daí o futuro das personagens ser calculado a partir da língua – na qualidade de instrumento que garante apreensão, transformação e transmissão da própria cultura –, por deputados. Nesta ficção, temos duas entidades importantes no desenlace da história: Djassi, um deputado da Assembleia da República a representar homens bonitos, esses que têm poder e são, de vez em quando, vítima do mesmo, e Hohlo, um empregado doméstico a representar a classe dos desfavorecidos, sobretudo dos que buscam uma oportunidade de ascensão social na capital do país. Através destas duas figuras, ambas humildes na sua condição, Mutimucuio constrói e reconstrói um Moçambique possível, fora de um comodismo assente na herança colonial.

 Na verdade, o autor, com um olhar e atrevimento sociológico muito ousado, coloca as suas personagens a discutir a necessidade de o país ou substituir a língua oficial ou adoptar uma outra, a inglesa, quer porque a portuguesa está decadente quer porque os próprios moçambicanos, na história – e na realidade também –, são absorvidos pelo maior património cultural da Inglaterra. Deste modo, Manuel Mutimucuio sintetiza o que vai no (sub)consciente dos moçambicanos, não importa se insipiente, brinca com isso e projecta uma direcção, cuja finalidade, de longe, continuará a prejudicar a maioria, os miseráveis ou, se quisermos, as massas. Este é um livro que, ao questionar o status quo, com efeito, mostra-nos que há circunstâncias inalteráveis: a condição dos humilhados. Nisso, o escritor aposta numa crueldade suficiente para tornar Hohlo aquilo que, se calhar, o leitor não deseja, mesmo sendo relevante para os desequilíbrios emocionais gerados pelo enredo.

Moçambique com z de zarolho ajuda-nos a identificar as transformações de ordem social no nosso plano existencial. Paralelamente a isso, dá-nos o rumo para o qual o país caminha e a que ritmo.

Título: Moçambique com z de zarolho

Autor: Manuel Mutimucuio

Editora: Fundza

Classificação: 16


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