Os recriadores da tradição III – uma escuta aos grandes

É quando um homem enfraquece que se percebe a força de uma mulher

Hélder Faife

Na verdade, hoje, são as recriadoras da tradição que trouxemos, portanto, uma escuta às grandes. Nesta onda, escolhemos duas moçambicanas, que, além de formosas e simpáticas, são deveras talentosas. Referimo-nos a Isabell Novella e Selma Uamusse, cantoras de alma vasta, coerentes nos seus labores artísticos.

Quer Novella quer Uamusse – mesmo a condizer com o que Otis e Jimmy Dludlu fazem há anos, por exemplo –, ao exprimirem os vários egos que têm num lugar encantado dentro de si, reservam atenção a um repertório musical moçambicano além do tempo. Por uma questão identitária ou de ordem emocional, ambas reclamam o passado que as pertence, buscando, no caso, sons que, de algum modo, as fizeram ser o que são: mulheres de vanguarda, elas também, a oscilarem entre o universal e a tradição, o princípio de uma trajectória reinventada por via das duas vozes.

É comum as novas gerações não saberem muito sobre o que de melhor se fez no país, ao nível artístico, desportivo, político e etc.. É mais comum ainda os conservadores de uma época olvidarem o compromisso de, num contexto em que a música caminha com pernas para o ar, fazerem chegar ao presente o que deve continuar no futuro. Querendo ou não, ao tocarem “Xonquile” (Original de José Barata), no caso de Isabel Novella, e “Baila Maria” (de Chico António e Mingas), no caso de Selma Uamusse, ambas as cantoras fazem da música um veículo de viagem por um Moçambique diferente deste e, ao mesmo tempo, expressam quem elas são interiormente. Cantar Barata ou Chico António é mais do que recriar a matriz de um sucesso inquestionável. Cantá-los também é distingui-los num universo de bons músicos, como Jaco Maria, na África do Sul, ou Tony Django, prematuramente perdido. Simultaneamente, essa apropriação criativa de “Xonquile” e “Baila Maria” revela que hoje, em geral, precisamos ainda mais das experiências do passado, do que foi bem feito, de modo que o precipício seja uma palavra cativa nos dicionários.

Ao cantar o seu “Xonquile”, Isabel Novella introduz na música aspectos mais alegre, dançante e técnico, claro, de modo que o tema preserve a sua identidade, mas sem fazer esquecer José Barata. Há sempre uma relação entre as duas versões – nada de problemático –, como também diferenças vocais que valorizam outras formas de cantar a mesma composição. Sem superar a versão de José Barata, a de Isabel Novella sai do texto e esbanja-se, em alguns momentos, na possibilidade de se deixar levar por outros factores que a música permite, sem dizer nada, mas preenchendo os espaços vazios e o silêncio.

Ao contrário de Isabell Novella, que canta nos padrões do original de Barata, Selma Uamusse extravasa a “Baila Maria” que conhecemos, de tal maneira que, os mais distraídos, até podem não se dar conta da recriação, e ouvirem a música como se fosse nova. O instrumental também é muito dançante, agitado e festivo. A timbila de Cheny Wa Gune ajuda, completamente, a manter esse carácter vibrante, arrepiante até. Assim, a música acaba sendo nova, sem deixar de ser velha.

Portanto, temos nestas recriadoras da tradição a renovação de obras importantes para o repertório artístico moçambicano. Ouvir “Xonquile”, de Isabel Novella, e “Baila Maria”, de Selma Uamusse, permite-nos revisitar os “esquecidos” que não devemos esquecer. E esta é uma forma bem conseguida de reproduzir a qualidade e manter-nos perto do nosso passado. Desta maneira, afastamo-nos do efémero e das banalidades sonoras que tanto ensurdecem os nossos ouvidos.


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