Os sermões de Roberto Chitsondzo

Os sermões de Roberto Chitsondzo

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado//
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,//
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram

Mário Quintana

 

Não chamamos sermão às ladainhas dadas habitualmente pelos padres nas missas. Embora sem excluir a relevância daquele palavreado, sobretudo para os mais devotos, aqui, ampliamos o conceito para toda uma tentativa de se fazer da palavra cantada um bálsamo, que alivia e cede a receita capaz de prevenir a dor, no caso, sensação que inicia de um ser e, quando se perde o controlo, esbanja-se na colectividade. Esse bálsamo suave, misturado com sermões didáticos/ pedagógicos, tem um substantivo próprio: Kwiri, título do álbum de estreia de Roberto Chitsondzo, lançado com um livro à laia de uma biografia e outras coisas.

Em Kwiri, disco constituído por 14 músicas, umas muito conhecidas, outras nem por isso, ao estilo “bom rapaz”, Chitsondzo brinca de ser um modelo de vida, ora dando lições ora investindo em sermões, sem falar em Deus e nem no Pecado, mas citando poetas no sentido mais vasto desse significado. Assim, temos um músico a dar voz à escrita, imortalizando autores como Leite de Vasconcelos e Ungulani Ba Ka Khosa, ao apropriar-se de textos como “Custa dizer amor” e “A solidão do senhor Matias”. No primeiro caso, mantendo o título original do poema, canta versos como quem reza, criticando o facto de a doença do ódio existir tão vigorosamente. É uma música que nos conduz, igualmente, ao “Progresso”, de Rui Knopfli, na mesma proporção que nos desperta para repensarmos a forma como lidamos com o amor (no segundo caso, “Waxukuvala”, até é interessante discutir os sentidos de apropriação cultural do europeu em relação às tradições bantu, bem retratados em Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa).

Bem visto, o amor é um tema recorrente neste CD. Veja-se, por exemplo, o caso de “Kwiri”, música que cede o título à obra, na qual temos, com recurso constante às transferências de significado que geram metáfora, um carinho de filho para mãe. A este nível, mais uma vez de forma delicada, o músico faz do sermão uma arma ao serviço social. Afinal, num contexto em que a mulher continua a ser violentada a nível doméstico, cultural e social, em vários cantos do mundo, uma ode é sempre pouca. O amor é umbrella do segundo tema do CD, “Lirandzo”, e ainda o encontramos em “Timpondho”, com azedume, porque, de vez em quando, é necessário ser-se carrancudo, maltratar o cenho e dar um Stop nas acções. Quem disse que o dinheiro pode comprar uma mulher? Até pode pagar a fruta na Araújo, Bagamoyo para os mais novos, mas não compra uma mulher. A quinta música de Kwiri explora este campo, lembrando-nos que a mulher compra-se, como quem diz, com amor.

Na verdade, como se espera dos sermões, nesta atmosfera não religiosa¸ os de Roberto Chitsondzo, neste CD, longe de serem longos, repetitivos ou exaustivos, são, à medida certa, moralizantes; despertam consciências e orientam um percurso, no qual as pessoas podem caminhar de mãos dadas, com a convicção de que o amor, a paz e a liberdade são a tríade indispensável para o bem-estar, o que se constrói com uma memória comum. Deve ser por isso que o músico inclui “Freedom” e “Samora” nesta aparição, enaltecendo heróis e seus martírios, mostrando-se anti-violência, seja de que ordem for: assaltos, assassínios (“Hafa”) ou guerras (“Golfo”).

Com efeito, Kwiri é um álbum diversificado em termos de conteúdo. Se, por um lado, temos sermões que nos motivam a dar um beijo na velha cujo maior feitiço foi o de nos ter gerado e criado, enaltecendo o amor, desvalorizando o materialismo, virando as costas à violência, por outro, Roberto Maximiano Chitsondzo aconselha-nos a fazermos da escola um jardim e de cada criança uma flor. Na verdade, o artista está a dizer-nos para não crescermos, porque, sendo imberbes, estaremos sempre dispostos a aprender e a fazer do mundo um lugar hospitaleiro. Este é o teor de “Dondza”, de uma alma que se esgota a exprimir o melhor de um coração feito de sonhos e esperanças.

 

Título: Kwiri

Autor: Roberto Chitsondzo

Editora: Khuzula

Classificação: 16


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