Os “ventos do Apocalipse” podem manter a arte em tempo de “emergência sanitária”*

                                      À tia Paulina Chiziane e ao kota José Craveirinha

Quando se vive um “estado de emergência sanitária”, parece tudo estar perdido, a sensação é de ter sido activado um “estado de pavor” generalizado. Entretanto, José Craveirinha num poema sem título, escrito em 1968, (durante o período de 1965 a 1969, em que se encontrava preso pela PIDE / DGS) e inserido no livro Poemas da Prisão, sugere-nos que o pavor tem como ser transformado em momento de esperança. Dizia o poeta saudoso poeta na referida obra, num texto inscrito na capa:

“Todo o poeta preso é um refugiado livre no universo de cada coração na rua.

O chefe da polícia de defesa de segurança do estado sabe como se prende um suspeito, mas quanto ao resto não sabe nada. E nem desconfia.”

Quer isto sugerir-nos que a consciência nunca pode ficar refém de seja o que for. Há que reagir em nome próprio e dos que não podem ou não têm como.

Faço este introito, para estabelecer um paralelo entre a prisão sofrida pelo poeta, naquela altura, e o momento actual que o mundo e Moçambique, em particular, atravessam, o da pandemia provocada pelo novo coronavírus. Muitos sectores ficaram afectados e a arte não é excepção. Ao falar nesse fenómeno, em Moçambique, é preciso ter em conta categorias como: acção para o momento actual versus criação da memória ou efeito a posteriori, com vista a criar memória. Deve ainda ter-se em conta o binómio campo/cidade; sendo de considerar também as classes sociais das pessoas, entre outras coisas.

Têm-se dito que a pandemia coloca as pessoas no mesmo patamar, mas isso é um dado ilusório, se considerarmos que: nas cidades, algumas pessoas têm como comprar máscaras cirúrgicas (com menor impacto na respiração das pessoas do que outras de outros tipos de tecidos); pessoas que têm acesso à compra do álcool etílico 70% ou ao álcool-gel e ainda ao facto de que, só “fica em casa”, quem verdadeiramente tem uma casa. Muitos só têm um cercado, para delimitar o seu “suposto ”quintal ou espaço. No campo não há à venda esses produtos. Além disso, quer no campo, quer nas cidades, há famílias numerosas, que vivem em espaços pequenos com gente entrando e saindo, porque é preciso ir arranjar o que comer. Há que Desenrascar a vida, como nos disse o poeta Nelson Saúte. Em qualquer desses lugares, se houver um acampamento, seja de refugiados, seja de pessoas que se juntem para trabalhar solidariamente, há, também, os seus riscos. Portanto, se pensarmos nesses e em outros factores não mencionados, essa pandemia não coloca as pessoas no mesmo nível, em termos de prevenção.

No que concerne ao funcionamento da arte, gostava de lembrar que qualquer estratégia de resposta à questão colocada, deve segmentar os géneros e objectos de arte. Existem diferentes tipos: dança, música, teatro, literatura, arte plástica (pintura e escultura), arte visual (design de interiores, moda, arquitectura, grafite, desenho, fotografia), arte multimédia (cinema, televisão) e até, como tem acrescentado o escritor Nataniel Ngomane, a arte de nos desembaraçarmos na vida.

Em cada um destes tipos de arte há um acção que se pode desenvolver de modo transversal - a performance, uma actuação que pode ser realizada a partir de diferentes linguagens: música/dança, teatro, artes visuais, declamação/leitura, moda, por exemplo. Em tempos de pandemias como a covid-19, a performance é que pode vigorar, dada a possibilidade de ser realizada de modo individual ou envolvendo poucas pessoas. Sabemos todos que as actividades colectivas, as que envolvem o toque e a proximidade, não são aconselhadas. Estão fora de questão.

Então, a performance através da música e/ou da dança, nas cidades, para quem tem internet em casa, pode ser realizada a partir de casa, tal como temos vindo a ver, com músicos que tocando e cantando dão espectáculos. A rádio já tinha essa vocação de passar música e de nos dar a sensação de estarmos num espetáculo. A TV também já o fazia, quando passasse espectáculos ou músicos em determinados programas. Alenta-se, nestes casos, a quem tenha um receptor, rádio, televisão ou internet.

No campo, nestes dias que correm, em Zavala, por exemplo, já não se pode ir assistir ao Msaho. Em Nampula, a uma actuação de tufo ou de zore, em Inhambane, ou ainda de mapiku, em Cabo Delgado. Mas em qualquer um destes lugares, e outros, que estejam em segurança social, sem ameaças de desestabilização por atacantes armados; se as autoridades distritais se pré dispuserem, poderão organizar actividades individuais como a “arte, a partir de casa”. Um músico, pode fazer ecoar o som do seu instrumento, para acalentar as pessoas que vivam na sua circunvizinhança. Havendo vários músicos, cada um poderia fazer isso na sua região. Até mesmo os aprendizes, podem fazer a sua iniciação à música e tocar. Este seria, também, um bom momento para se fazer a iniciação “à caça” ou observação de talentos. Quem não se alegraria ao ouvir o som de chocalhos? Ao som de uma guitarra, de lata, que fosse? O rufar de tambores? A quem não alentaria a ressonância de um chitende? Há músicas e instrumentos musicais que podem ser manuseados apenas por um instrumentista ou dançarino. Faz tempo que não ouvimos o som de uma flauta, de uma chigovia, de uma pala-pala? Onde andam estes instrumentos? O que é feito deles?

Em performances de teatro, já houve, no nosso país, performances individuais, que podem ser vistas e ouvidas à distância. Tanto nas cidades, quanto no campo. Recordo-me agora da peça teatral “Monólogos da vagina”, escrita pela americana Eve Ensler e que foi adaptada e divulgada em vários países. No nosso, pela atriz moçambicana Graça Silva, há anos e, actualmente, por Angelina Chavango. Essa divulgação e interpretação iriam ajudar a entreter, mas também a trabalhar a mente do patriarcado, uma vez que essa peça aborda a questão femininos e feministas relativos ao corpo. Outras peças, outros títulos ou temas, podem ser criadas para se fazer monólogos. De que esperamos, para ter o stand up comedy” feito por um único indivíduo, na rua?, para outros se rirem no resguardo das suas casas? Claro que a interação fica bloqueada, mas para que serve a arte, se não for para entreter, despertar emoções, educar e até mesmo gerar renda?

No início da pandemia causada pelo coronavírus, vimos a Google a disponibilizar o seu ciber-espaço, para a performance em artes visuais, através da abertura de museus virtuais. Porque razão é que não podemos ver uma exposição do trabalho dos nossos saudosos Alberto Chissano, do nosso Malangatana ou mesmo assistir a uma oficina artística do nosso querido Gonçalo Mabunda que, para além de poder mostrar a poucos privilegiados como tem realizado o seu trabalho, poderia ensinar a quem o vê, para depois ensinar a quem o não vê, a arte de transformar “lixo metal” em objectos de fruição? Quem tem a possibilidade de aceder ao Facebook, pode apreciar a página de Sónia Sultuane, escritora, poetisa e artista plástica e ver como é que ela se tem reinventado nestes tempos. Por estes dias vi na sua página uma exposição fotográfica denominada Touch me, ou toca-me, pensada e realizada em 2009 mas que só veio a ser exposta este ano, mesmo a calhar com algo que mexe com as nossas lembranças de um passado recente, no qual ainda podíamos tocar-nos. Mas fica disso a memória e o prazer do toque. Além disso, ficou-nos o ensinamento de que os cegos e os mudos veem e falam através das mãos, segundo Jorge Dias, num texto que comenta essa exposição.

E por falar em mãos, das mãos da nossa Reinata Sadimba, mulher que nos ensinou a transformar a dor da violência doméstica na representação da mulher, pela mulher na arte, quantos milhões de renda já foram gerados nas suas exposições dos seus objectos em barro pelo mundo? A quantas almas já emocionou esta ceramista, através do seu trabalho, com as suas “narrativas” dos contos e lendas das nossas tradições representados em seus objectos artísticos? Estes dias, ela não pode coordenar a realização de ritos de iniciação na sua sociedade, mas tendo inspirado muitas gerações, fica o exemplo de como realizar uma actividade artística que não seja de grupo e em tempos de pandemia.

Faz parte da performance, a arte de declamar e de bem ler. São actividades que carecem de muito exercício individual, que pode ser coordenado e melhorado no colectivo, através de métodos que não coloquem em risco a sanidade de ninguém. Em Moçambique, tal como todos sabemos, as nossas crianças e muitos adultos padecem do mal da má leitura. Lemos mal e consequentemente, escrevemos mal. Penso que, com os devidos ajustes, os dias que correm seriam bons para treinarmos técnicas de leitura, de declamação, de referência às palavras que conhecemos serem de difícil pronúncia ou de erros já fossilizados. Um concurso de leitura e de declamação a ser realizado a partir de casa e coordenado, tanto por uma rádio comunitária ou outra, ou mesmo pela televisão, poderia, a par de oficinas de leitura, alavancar a deficit de que padecemos.

Junto a este tipo de actividades os concursos literários que não têm razão de deixar de existir, se pensarmos que os trabalhos a serem submetidos a concurso podem ser feitos e enviados digitalmente, a uma entidade séria que depois os possa encaminhar, de modo anónimo, para um júri que os possa avaliar. A Literatura sairá a ganhar e os escritores estimulados.

Certamente que não será possível, em tempos como os que correm, termos um desfile de moda. Mas quero lembrar que a arte pode ser desenvolvida para suprir necessidades, tanto do presente, quanto do futuro. Há que semear esperança. Há dias vi, na página de Facebook de Matilde Muocha, moçambicana que trabalha na área de empreendimentos criativos, uma informação sobre o trabalho de Anifa Mvuemba, designer congolesa de moda, que desenhou roupa para uma colecção e fez um desfile digital em 3D. Havia, nesse evento, manequins invisíveis a fazerem a passagens dos modelos dispostos. Esse trabalho, conforme refere uma nota ligada ao evento, foi realizado antes desta pandemia, mas pelo que nos pode constar, trabalhos similares podem ser realizados, tanto como marca do presente, quanto como marca para o futuro.

Gostava de acrescentar à ideia de arte desta empreendedora, o trabalho que os nossos estilistas moçambicanos têm feito, no que concerne às máscaras de protecção anti-propagação do coronavírus. Há bons trabalhos, outros nem por isso. O que me parece é que há necessidade de os que sabem, ensinarem aos que não estão disso cientes, uma vez que, as tintas e tipos de tecidos utilizados nas máscaras, nem sempre são os ideais. Isso para não falar nos elásticos das máscaras, que dever ter medidas e tamanhos bem estipulados, para que deixemos de ver pessoas a passarem a mão na máscara a cada minuto que passa.

No tocante ao desenho, ao grafite ou a trabalho em murais. Se olharmos para as obras do artista plástico Naguib, os murais na vila de Songo, em Tete ou o “Samora Machel, “na marginal em Maputo, que continuação daquele trabalho não embelezaria as nossas cidades? Recordo-me que no início da Av. Joaquim Chissano, em Maputo, na Praça da OMM, em tempos, havia uma obra a ruir que foi recentemente substituída por uma outra desse artista. Quantas obras se encontram em degradação, no nosso país? Pela mão de Naguib ou de outros artistas, não haverá um trabalho a ser feito? Se dermos uma vista de olhos ao museu virtual da lusofonia, encontramos lá a obra deste artista. Não nos faltam paredes ou muros, para decorar e dar alegria à nossa terra. E essas actividades não carecem de envolvimento em grupo.

Todas essas actividades mencionadas, certamente precisariam de investimento mas, mais do que isso, é preciso que se partilhem ideias e caminhos sobre como levar a arte ao público em tempos de “emergência sanitária”. Já actividades colectivas como o cinema; o teatro; festivais de seja do que for, terão que ficar para quando for possível, mas nada impede que sejam pensadas hoje, para serem realizadas amanhã. Os filmes “Contágio”, realizado por Steven Soderbergh” (2011) e “Pandemic”, escrito por Dustin Benson e realizado pelo americano John Suits (2016), ambos exploram a temática do novo coronavírus, foram realizados antes deste acontecer. Foram premonitórios.

A premonição, bem como a reinvenção das nossas vidas, no âmbito do que pode ser guardado para a memória, não seriam um exclusivo destes tempos. “Cá na nossa casa”, em 1993, Paulina Chiziane sonhou as cheias do ano 2000, antes de elas se realizarem, e colocou-nos ao dispor das representações desse fenómeno através da sua obra Ventos do Apocalipse. Há muito o que já se pode começar a fazer para cuidar do nosso futuro. A arte não tem como morrer, até porque ela é que salvará a humanidade. É só lembrarmo-nos do nosso “vaticinador de vaticínios infalíveis”, o kota Craveirinha, em grande parte da sua obra.

 

*Sara Jona Laisse, docente de Cultura Moçambicana, na Universidade Politécnica, em Maputo.

 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique