"Presença nos Jogos Olímpicos passa pelo compromisso de todos"

Chegou, viu, tremeu contra a Nigéria e venceu ao Senegal. Colocou o pavilhão do Maxaquene em ebulição, ao arrancar em meio a dificuldades uma qualificação inédita para a fase mundial- a última- de acesso aos Jogos Olímpicos de Verão 2020.

Não foi nadinha fácil, porquanto o improviso ao nível interno continua a render o profissionalismo. Nada, nada mesmo, que as atletas e equipa técnica não estejam acostumados. Foi assim, em meio a este mar de dificuldades, que se conquistou África nossa ao nível de selecções e de clubes.

Agora, numa fase a doer, seguem-se adversários de peso que podem sair de um lote de nações extremamente fortes: EUA, Austrália, Bélgica, Brasil,Canadá, China, China, França, Reino Unido, Nigéria Porto Rico, Sérvia, Coreia do Sul, Espanha e Suécia.

Realista mas nem por isso fatalista, Leonel Manhique, seleccionador nacional, diz que somente com melhores condições é que se pode sonhar com a presença nos Jogos Olímpicos.

Assumiu a selecção nacional de basquetebol num cenário em que esta havia ocupado o segundo lugar no Afrobasket 2019, em Dakar, Senegal. Mais: três semanas nos separavam do torneio pré-olímpico, portanto, praticamente sem muito tempo de preparação. Como foi possível montar uma estrutura em "cima do joelho" para fazer face a uma competição que contava com as melhores selecções de África?

Primeiro, dizer que após o convite formulado pela Federação Moçambicana de Basquetebol para assumir este cargo tivemos que montar uma equipa com capacidades para tal. Estávamos cientes, acima de tudo, daquilo que seriam as dificuldades que iriamos encontrar. Tivemos que ir buscar a treinadora-adjunta que esteve com a selecção nacional no Senegal, a Deolinda Ngulela. É uma pessoa com enorme experiência que, nos últimos quatro/cinco anos, tem sido a segunda melhor classificada ao nível nacional com a equipa sénior feminina do Costa do Sol. Depois, fomos buscar um “staff” em termos de equipa médica, fisioterapia, seccionista e a coordenadora Marta Monjane. Montamos uma equipa de trabalho e vimos o tempo que nos restava para traçarmos a nossa estratégia. Tínhamos apenas três semanas para colocar a equipa num nível desejável para podermos atingir os nossos objectivos. Dentro daquilo que foi o processo de preparação, logo no início, nós como equipa técnica e as próprias atletas que foram convocadas sabiam quais seriam as dificuldades que íamos encontrar e quais as condições que a federação ia oferecer. E, dentro destas condições que a federação ofereceu e dificuldades que nos esperavam, tínhamos que dar o nosso máximo para podermos atingir os nossos objectivos.

A desistência, à última hora, da Republica Democrática do Congo retirou a possibilidade de fazer um jogo no qual teria a oportunidade de rodar as jogadoras internas que não competem desde o Agosto,  assim como ensaiar algumas situações para jogos mais complicados com a Nigéria, campeã africana…

Nós colocámos na convocatória as 15 jogadoras que vinham do Senegal. Colamos em prática a preparação ao longo das três semanas que tínhamos. Já sabíamos que estávamos inseridos no mesmo grupo que a Nigéria, campeã africana, e o Senegal, vice-campeão, e a República Democrática do Congo. Logo à prior, traçámos o cenário no qual iriamos começar com a República Democrática do Congo para dar rodagem a equipa, até porque tínhamos em mente que este adversário seria teoricamente o mais fácil para depois entrarmos para o jogo com a Nigéria com tudo ou nada para ver se passávamos para a segunda fase numa boa posição para, no cruzamento das meias-finais, jogarmos com o segundo classificado da outra série. Mas depois da desistência da República Democrática do Congo, tivemos que traçar outra estratégia no sentido de que podíamos jogar frente à Nigéria e darmos o nosso máximo. Na verdade, ganhar ou perder o jogo da Nigéria não mudava muito porque, dia seguinte, tínhamos jogo com o Senegal. Arranjamos um outra estratégia que era dar mais minutos de jogos as atletas mais preciosas que contabilizariam mais tempo no dia seguinte contra o Senegal. Foi o que se viu: entramos mal no jogo contra a Nigéria. Ficamos dois a três dias sem jogar enquanto os outros competiam, uma situação diferente da Nigéria que é actual campeã africana com todas as jogadoras profissionais que vinham rodadas dos seus clubes. Nós estávamos cá sem jogos nas pernas. Entramos ansiosos e viu-se uma diferença de quase 20 pontos na primeira parte. No intervalo, fomos refrescar as jogadoras e demos um puxão de orelhas naquilo que seriam os pontos focais para tentarmos atingir estes objectivos ao fim dos 40 minutos. As jogadoras acataram e, no final do terceiro quarto, fomos buscar este resultado quase até os 10 pontos. Fomos gerindo a equipa no sentido de, ao decorrer do jogo, seja quais fossem os erros que elas estavam a cometer, nós tínhamos incutido como treinadores que o principal objectivo passava por nós atingirmos a melhor forma física e desportiva em termos de jogo, algo que não tivemos. Fizemos 38/39 minutos em que conseguimos reduzir a diferença para sete pontos. E nesta vantagem de sete pontos da Nigéria, tivemos acredito que tivemos possibilidade de reduzir para quatro ou três pontos, mas não concretizamos os ataques. Isso foi reflexo da nossa capacidade em termos de jogos de controlo que os outros tiveram. E estamos a falar da Nigéria com um plantel formado todo ele por jogadoras profissionais com mais rodagem. (…).

No jogo contra a Nigéria, a 16 de Novembro, a selecção nacional de basquetebol sénior feminino concretizou apenas 1 em 11 lançamentos exteriores tentados, uma média fraca de 9.1%...

Claramente. Nós estamos a falar de um cenário em que constituímos uma selecção em que, dez das 12 jogadoras, não são profissionais. Dez das doze jogadoras não estão a competir. Fica mais do que claro que e já há muito que é sabido que para competições a este nível as nossas jogadoras têm que ser preparadas com dois ou se calhar mais  meses para poderem atingir um bom nível quando chegarem as provas. Ficou claro que, nas três semanas que nós tivemos de preparação, não podíamos atingir bons níveis. É por aí que nós traçámos a estratégia dar mais tempo de jogo as jogadoras que nós achamos mais importantes para atacar o jogo contra o Senegal. Não porque as outras não sejam. (…). Estávamos, acima de tudo, a dar minutos as atletas porque não tivemos jogos antes. Se for a notar, nós perdemos com o primeiro jogo contra a Nigéria mas esta selecção não fez 100 pontos. Fez uma margem de 50 pontos dentro dos 40 minutos. Isto significa que nós não estivemos mal defensivamente mas sim ofensivamente. E, se calhar, podemos dizer que naquele dia deu a graça dos 26 pontos de Leia Dongue. Mas, ao olharmos para as estatísticas, fomos ao encontro da nossa produção ofensiva.

O jogo contra o Senegal foi o de tudo ou nada. Moçambique era obrigado a vencer para terminar em segundo lugar e qualificar-se para às meias-finais. Neste jogo, no qual Moçambique venceu por 59-46, optou por Elisabeth Perreira em detrimento de Anabela Cossa no cinco inicial. O que pretendia ganhar com a aposta na extremo do Costa do Sol?

Nós estamos a falar de entrar para um jogo do tudo ou nada. A primeira estratégia que traçámos, como equipa técnica, foi travar o caudal ofensivo do Senegal. E, o caudal ofensivo do Senegal, passava pela base. Era a jogadora que mais produzia. E, em segundo plano, parar a Mame-Marie Sy Diop que faiza 3/4. A missão para defender a base foi entregue à Elisabeth Pereira e, para travar a extremo, apostámos em  Ingvild Mucauro. Quando nós conseguimos traçar essa estratégia, passámos para o plano seguinte que seria o nosso caudal ofensivo que foi um dos calcanhares de Aquiles no jogo contra a Nigéria. Feito isso, conseguimos montar o nosso plano. Demos mais um “puxão de orelhas” a chamar atenção às atletas que logo após a Leia “Tanucha” Dongue fazer 26 pontos contra a Nigéria, as atenções estariam voltadas para ela.   Neste sentido, a produção devia ser colectiva e, acima de tudo, cá fora. Se nos recordarmos, logo no início do jogo a Ingvild Mucauro tem situações de três para zero que não consegue marcar mas conseguiu na quarta. Fomos gerindo o jogo. A Leia Dongue não apareceu durante 20/25 minutos, mas tivemos a Tamara Seda. A Odélia Mafanela apareceu muito bem do banco a responder. Tivemos a Delma Zita a controlar o jogo durante os 40 minutos sem perder nenhuma bola como aconteceu no jogo contra a Nigéria. Passamos a ter essa produção colectiva. E, no final, coube apenas a nós gerir aquilo que aconteceu durante 20/30 minutos. Notámos, acima de tudo, que neste período ou momento elas já estavam preocupadas com a Leia Dongue mas nós exploráramos as posições exteriores. Felizmente, a Elisabeth Perreira esteve lá com dois triplos cruciais.

Clitan tem potencial, precisa enquadrar-se no grupo

Cltitan de Sousa, jogadora que evolui no Oklahoama State University da “division one” da NCAA, contabilizou apenas 07:11 minutos no jogo contra a Nigéria, não tendo sido utilizada frente ao Senegal. Alguma razão específica? Faz sentido chamar uma atleta joga nos EUA para contabilizar pouco tempo de jogo?

Nós estamos a falar de Clitan de Sousa que evoluiu nos escalões de formação. É uma jogadora que trabalhou comigo nos escalões de formação e acredito que tem muito potencial e pode dar muito a selecção. Se calhar uma das diferenças que existe é o pouco contacto que ela tem com a selecção para poder ambientar-se um pouco e enquadrar-se no estilo de jogo. Estamos a falar de uma Clitan de Sousa que, se não me falha a memória, tem por aí quatro ou cinco anos sem estar em contacto com as jogadoras moçambicanas tanto em termos de campeonato interno quanto ao nível de selecções. Mas acredito que, quanto mais tiver contacto com a selecção e com as jogadoras que lá estão, a Clitan vai-se enquadrar e teremos a possibilidade de explorar paulatinamente o seu potencial. Ela melhorou muito e nós temos que aproveitar muito disso. Temos que saber explorar a altura que ela coloca nas posições 2/3 e, acima de tudo, as capacidades que ela desenvolveu fora do país.

 

A Delma Zita, principal opção na posição um, foi a jogadora mais utilizada da selecção nacional de basquetebol no pré-olímpico com 77 minutos nos dois jogos, tendo sido ainda totalista no embate com o Senegal. Porque a segunda base, Denise Ernesto, fez apenas 01:04 minuto contra o Senegal. Falta de qualidade?

No início desta convocatória, a equipa técnica teve a ousadia de deixar fora a Amélia Macamo por causa da idade e, acima de tudo, há questões que tivemos que conversar com ela. Digamos que é um processo de renovação. Creio que, acima de tudo, ela percebe. Mas está mais do que claro que, se essa renovação não acontecer, teremos que chama-la novamente. Tivemos que meter a Delma Zita e, a seguir, a Denise Ernesto e contávamos ainda com a presença de Neide Ocuane. Devo dizer também que tínhamos como opção a Sílvia Veloso na posição 1. Fizemos a convocatória com quatro bases e, na verdade, conscientes de que duas ou três podiam ser escolhidas para esta missão. Mas, por causa de questões académicas, não pudemos contar com Neide Ocuane e Sílvia Veloso. Tentamos trabalhar com as opções que nos sobraram, neste caso a Delma Zita e Denise Ernesto. 

Procuramos potenciar as suas qualidades dentro daquilo que iríamos encontrar. Estamos a falar de uma equipa técnica que é constituída por uma treinadora que foi uma das melhores bases que já tivemos no país, a Deolinda Ngulela, que foi trabalhando com elas e limando algumas arrestas. Sentimos, ao longo da preparação, quais eram os saldos positivos e negativos, ou seja, que transmitiam confiança no jogo. Depois, ao longo da competição, tivemos um calcanhar de Aquiles que foi a desistência da RD Congo. Este seria um jogo para rodar à equipa e corrigir os processos. Tivemos que ensaiar vários aspectos frente à Nigéria. Na verdade, foi bom porque fizemos o teste diante de um adversário grande. Passamos para um teste grande e não o médio. E este teste só podia nos transmitir o dia seguinte que era contra o Senegal. E, com o processo de preparação com as duas bases que tínhamos, a Delma Zita é que nos transmitiu maior segurança e qualidade. Experimentámos a Denise Ernesto no jogo contra a Nigéria. Tentamos colocar ainda a Anabela Cossa que também não nos transmitiu confiança. Percebemos que dia seguinte precisaríamos de alguém. E essa pessoa só podia ser a Delma Zita. Continuamos a insistimos nela frente ao Senegal e, se formos a ver, foi ela que cometeu mais erros contra a Nigéria mas no dia seguinte atingimos os objectivos que pretendíamos. A Delma Zita fez os 40 minutos sem perder nenhuma bola, foi capaz de ser líder perante as jogadoras mais velhas. Estamos a falar de uma jogadora que ainda vem que ainda tem muito que aprender. Claramente que houve momentos em que ela se perdeu. Há momentos e que devia acelerar e não acelerou.

 

Nos jogos contra o Senegal e Nigéria, a equipa teve em algum momento dificuldades para fazer as saídas sobre pressão…

Nenhuma equipa moçambicana está em condições de se preparar em três semanas. Dificuldades a este nível, para equipas moçambicanas, sempre teremos. Ao saber sair sob pressão, não saber sair em transição porque o processo de preparação foi tão improvisado e nós precisávamos atingir um objectivo o mais rápido possível. Nós tivemos essas dificuldades e, naquele curto espaço de tempo, nós tínhamos que arranjar alternativas. Fomos arranjado alternativas e, várias vezes, conseguimos sair de pressões e outras não. E eu digo que é de louvar, estas jogadoras terem conseguido em tão pouco tempo encaixar os processos.

 

Segue-se a fase mundial, em Fevereiro de 2020, na qual teremos adversários de peso que podem sair de equipas como EUA, Espanha, Brasil, China, Japão, Nigéria, Sérvia, entre outras. Como é que devemos abordar esta fase se, efectivamente, pretendemos colocar pela primeira vez uma equipa de basquetebol nos Jogos Olímpicos?

Para nós sonharmos em atingir este objectivo, temos que perceber que tal passa pelo compromisso de todos desde a Federação Moçambicana de Futebol, atletas, treinadores, e, acima de tudo, tem que se criar todas as condições possíveis para esta equipa ter uma preparação condigna. Depois, vamos ao encontro destas questões técnicas e tácticas. Temos que pensar, depois, como é que podemos travar os nossos adversários. Isso parte, também, do departamento técnico que teremos como apoio por parte da FMB. Facilmente, quando tivermos um processo de preparação bem programado e com as melhores condições, a equipa técnica terá foco. Ou seja, começar a pensar em como travar os adversários.


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