“Quando escrevemos olhamos para o que é comum entre os seres humanos”

“Quando escrevemos olhamos para o que é comum entre os seres humanos”

O escritor português, João Tordo, esteve a participar na Feira do Livro de Maputo, este mês. Nesta primeira visita, o autor deixou ficar o que mais lhe moveu nesta viagem, referindo-se à maneira como pensa literatura. Tordo explicou ainda que a escrita literária aproxima a humanidade, sem deixar de mencionar as dificuldades que se impõem a um escritor de língua portuguesa, num contexto universal.  

A literatura trouxe-lhe a Moçambique. O que mais lhe moveu nesta viagem?
Para já, foi a possibilidade de conhecer o país. Vir a Moçambique não é uma oportunidade que toda a gente tem. Segundo, é com muito interesse que quero saber o que esta nova geração de autores moçambicanos tem feito. Refiro-me a um Lucílio Manjate ou Mbate Pedro. E isso é para mim mais interessante porque, nesse aspecto, o que mais levo deste tipo de viagens são as estórias.

Mas passa por si perseguir novos leitores?
Claro. Gostava que os meus livros fossem mais conhecidos em Moçambique. Mas isso é uma consequência natural que já não depende de mim.

Gosta muito da sua solidão, quando está a criar. O que mais contribui para a preferência?
É o sonho. Quando estou a escrever um novo livro entro num sonho novo, que me leva a lugares que não estou à espera. E isso, para mim, tende a ser uma aventura excitante como para a pessoa que vai ler. E quando entro para um livro novo não sei quase nada. Tenho uma ideia, algumas personagens, um sítio, mas sei muito pouco. Nunca parto com a estória já acaba e um livro pode demorar-me quatro ou cinco meses até terminar a primeira versão, que depois é reescrita.

Parece rápido…
Acho que não, porque termino a primeira edição depois de ter passado dois ou três anos a pensar no livro, deixando-o que esteja mais comigo, até senti-lo. Só depois parto para a escrita. Há um tempo de maturação durante o momento que deixo os livros em banho-maria. Depois desse banho-maria, vou lá busca-lo. É um processo lento. Só que como eu tenho muitas ideias...

E consigo também há esta sensação de alívio quando termina um livro?
Sim. Há um alívio porque, ao fim de muito tempo, narrativa começa a ficar pesada. Começamos a ficar ansiosos em cortar a meta. Essa ansiedade apazigua-se quando chegamos ao fim. Por outro lado, quando termino o livro começo a sentir saudade daquele sonho. Tem esses dois lados.

Na Feira do Livro fez parte da mesa redonda “A arte de contar histórias”. Como é que se arquitecta esta arte no seu caso?
Quando começo a trabalhar um livro, a actividade torna-se um processo obsessivo, o que nos consome muito tempo, espaço mental. Todos os dias tenho muitas ideias para um livro, que, depois, levo-as a um filtro. Todos os dias censuro ideias. Há umas ideias, poucas, que sobrevivem a este filtro. E há dias em que acordo e algumas ideias ainda estão lá, apesar de todo esforço que faço para correr com elas. São essas ideias que continuam lá que, depois, uso para os romances. Esse processo tem pouco de prazer e muito de trabalho. Na escrita de romance, que leva muitas horas, se houver 5% de prazer já é muito. O resto é mesmo trabalho. E esse trabalho é difícil como qualquer outro, como ser advogado, engenheiro ou bombeiro. Embora ser bombeiro dá mais jeito porque salva vidas. Mas um livro também pode salvar vidas. Li tantos romances ao longo da vida que me ajudaram em determinadas alturas que parecem salvadores.

No mundo actual, como a literatura pode continuar a ser um instrumento de desenvolvimento humano?  
Em última análise não piora, que há tantas coisas nesta vida que pioram o desenvolvimento humano e tornam as coisas mais complicadas. Além disso, a literatura não debruça sobre a realidade de hoje – para isso existem jornais e redes sociais. A literatura tem um dever de dar um passo atrás e ter um tempo diferente. Quando escrevemos estamos a olhar para o que é comum entre os seres humanos do que para aquilo que é diferente. É uma tentativa de encontrar uma raiz idêntica para algumas situações. Por exemplo, o medo é a raiz de muitos comportamentos humanos. É verdade que o medo tem um lado bom, porque há um lado que nos alerta e que nos faz ser cuidadosos, mas também um lado pérfido, que cria separação e até guerra. Então, o escritor deve ser capaz de olhar as coisas deste ponto de vista. O escritor deve ter uma outra visão. Não estou a dizer melhor, mas diferente.

Defende que em Biografia involuntária dos amantes as personagens não sabem o que querem ou o que gostam. A que se deve esta indecisão?
Nesse caso específico, quis escrever um livro sobre a amizade de dois homens, em que há um que faz mal ao outro. E quando escrevo sobre personagens que não sabem o que querem ou o que sentem é porque muitas vezes sinto-me nessa situação. Como ser humano, às vezes, tenho impulsos contraditórios, consigo amar a um inimigo e, em alguns casos, sou eu meu próprio inimigo. Eu consigo amar essas coisas e isso é extraordinário. O poder do coração humano é esse, de se conseguir abrir a experiências que se não tivéssemos este nosso lado espiritual causariam repulsa. É natural que, a certa altura, não saibamos o que sentimos porque vivemos sentimentos contraditórios.

Portanto, é um autor que transporta para as personagens as suas próprias indecisões?
Transporto sempre. As minhas personagens são maneiras dissimuladas de iluminar aspectos da minha própria experiência. Para já, os meus narradores não têm nome e, muitas vezes, confundem-se com o próprio autor. Muitas vezes, as personagens que me vão surgindo são inspiradas em pessoas verdadeiras e são partes de mim. Escrevi um livro há dois anos, que é o Paraíso segundo Lars D., em que é narrado por uma mulher de 63 anos. Ela narra a estória e eu fiquei surpreendido até porque consegui fazer essa narração e descobri que essa mulher também está dentro de mim, como também está uma criança, um adolescente. Somos habitados por várias personagens que, se conseguíssemos compreender, seríamos mais simpáticos uns com os outros.

Quanto custa manter a actividade de escritor?
Para ter os livros que escrevi deixei de lado uma série de coisas. Por exemplo, não sou casado e não tenho filhos. Se calhar sem a escrita isso poderia ter acontecido facilmente. Penso que este é o percurso que tinha de fazer. Sou crente de que as coisas acontecem quando têm que acontecer. Temos que se abdicar de muita coisa para escrevermos, mas esta acaba sendo uma vida instável, porque num ano podemos vender bem e, noutro, as coisas não nos correrem de feição. E isso causa instabilidade financeira.

Já agora, concorda que o livro As três vidas é a sua consagração como autor?
Esse livro estabeleceu-me como escritor. É um romance que tenho boa memória de ter feito. Deu-me muito trabalho e é um livro pelo qual tenho um amor particular. O livro recebeu prémio e os que se seguiram foram contaminados.
 
E quando escreve livros como O bom inverno ou Anatomia dos mártires pensa na maneira como o leitor vai os receber?
Não penso exactamente no leitor, mas tenho a ideia de que não estou a escrever sozinho. Tenho a sensação de que estou a escrever para alguém e, às vezes, penso que é para mim próprio, como forma de manter diálogo comigo próprio.  

Como é ser escritor num país com longa tradição literária como é Portugal?
É difícil. Tive a sorte e o azar de nascer numa época em que apareceram imensos escritores de qualidade, também associados ao prémio Saramago, que foi lançando uma série de escritores importantes para a literatura portuguesa. Foi sorte porque nasço numa geração muito forte. E grande azar por causa da grande concorrência com os leitores (estou a brincar). Não deve existir um país com 10 milhões de pessoas como Portugal com tanta importância literária. Nem a Holanda ou Hungria têm tantos escritores de qualidade e conhecidos com Portugal.

E ser escritor de língua portuguesa num contexto universal?
Aí é mais complicado. Quando escrevemos em português – ainda que José Saramago tenha aberto uma porta para os escritores de língua portuguesa por causa do Nobel, o que dá oportunidades de jovens escritores serem traduzidos fora, por exemplo, com esta idade não me imagina a vender livros em França, Alemanha ou Itália – a repercussão ainda é pequena porque os países falantes são mercados com pouca importância ao nível global. Portugal é pequeno e está no fim da Europa, por assim dizer; Brasil, dada à dimensão do país, não se pode dizer que seja um mercado forte; os outros países de língua portuguesa padecem dos mesmos problemas. Apesar de português ser a quinta língua mais falada no mundo, a expressão disso acaba por ser muito menor do que inglês, alemão, francês e mandarim, porque essas línguas são do grande negócio. É muito mais difícil um escritor que escreve em português ser conhecido do que um escritor que escreve em espanhol, com mesma qualidade.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?
Sugiro obras de Mbate Pedro, o filme A estória de fantasmas e tudo de jazz.

Perfil
João Tordo é um escritor português. Nasceu a 28 de Agosto de 1975. Em 2009, venceu o Prémio José Saramago, com o romance As três vidas. Tem várias obras publicadas, como: O livro dos homens sem luz, Hotel Memória, O luto de Elias Gro e O deslumbre de Cecília Fluss. As suas obras estão publicadas em França, Alemanha, Itália, Brasil e Hungria.
 

 


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