Recintos desportivos são…“mbobobo”!

Começo por dizer que “mbobobo”, numa explicação não muito rigorosa no ronga, aponta para: leilão, saldo, facilidades! Pois é o que está a acontecer com o mais importante para o desenvolvimento do futebol nacional: a privilegiação dos campos de futebol, para actividades não desportivas, desde que elas permitam, no imediato, receitas.

Exemplos: o Estádio do Zimpeto esteve impedido para o desporto por cerca de 20 dias, para a missa papal. Foi bonito, algo excepcional, os moçambicanos ficaram enriquecidos, os desportistas compreenderam e o país ficou a ganhar.

O problema é que esse mesmo estádio, é um local regular de cultos, ou outras cerimónias, com maior ou menor significado.
 
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Sempre que haja um “mega” espectáculo musical, adiam-se, transferem-se ou cancelam-se jogos e treinos, nos dias anteriores e posteriores ao evento, para a instalação de palcos. Aí, tanto poderão assistir-se a realizações culturais de qualidade, como movimentações de bundas, com artistas angolanos à cabeça e estrelas nacionais a servirem de “damas de honor”. Então, o Zimpeto abarrota, a relva sofre as consequências, as limpezas duram dois (ou mais) dias.

Mas se fosse só no Zimpeto e o futebol da capital ficasse só afectado pela monopolização do seu símbolo nacional...

A cidade de Maputo, com rigor, tem apenas quatro campos para o futebol. O do Ferroviário (dito das Mahotas), do Maxaquene, Costa do Sol e Mahafil. Escapam à mencionada “voracidade exterior” os recintos dos canarinhos e mahafilenses.

Nos outros dois campos, os futebolistas, que deveriam ser os “donos”, vão apanhando boleias, tanto para poderem treinar, como para jogar. Os espectáculos musicais sucedem-se de forma crescente, com a aquiescência dos dirigentes dos clubes, pois eles dizem que é daí que vem algum retorno...

Mas se sairmos da capital, para a Província do Maputo, o que temos? Estádio da Machava, Afrin e Liga. É para aí que se dirigem Ferroviário, Maxaquene, Desportivo, Liga de Maputo, para encontrarem espaço para as equipas principais treinarem, com alguma dignidade.
 
MEDIDAS ENÉRGICAS: PRECISAM-SE!
Se para os participantes no Moçambola o cenário é este, o que dizer para as representações na II Liga, juniores e infantis? E para os “duplicados” campeonatos femininos?

Em Cabo Verde, o Ministro dos Desportos decretou o fim da utilização dos principais estádios, para realizações extra-desportivas. Medida impensável entre nós. Porquê? Várias razões:

A primeira, muito simples: é que a maioria dos nossos compatriotas, considera perfeitamente normal pagar qualquer coisa como 500 ou muitos mais meticais, para assistir a um show musical medíocre, mas opta por ficar em casa em dia de derby Costa do Sol-União Desportiva do Songo, com o custo do bilhete a 50 meticais...

A segunda: é que será das receitas dos espectáculos musicais, que resultarão os meticais para acertar os salários em atraso com os atletas nas colectividades! Um ciclo vicioso e viciado!
Resumindo: equacione-se, um a um, o desaparecimento dos espaços, hoje ocupados pelo cimento que a todos asfixia, os “dumba-nengues” em tudo quanto é esquina, adicionando-se ao sumiço nas escolas, onde quando é preciso aumentar o número de salas de aula, o primeiro sacrificado é o espaço reservado à Educação Física e Desportos...

Concluindo: a componente principal para se fazer uma boa omoleta, são os ovos. Logo, para se ter bom desporto, são precisos espaços para a iniciação e competição. Aos vários níveis. Só que, perante a razia dos lugares onde antes se brincava, treinava e se jogava, não se pode sentir legitimidade para procurar outras explicações para o fraco desempenho do nosso futebol e para o desporto, em geral, quando nesta, que é basilar, se vive num autêntico... mbobobo!

 


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