Recordando o título maxaca e a presença num Mundial

Recordando o título maxaca e a presença num Mundial

Xi-Cau Cau

Belmiro Simango, Claudino Dias, Aníbal Manave, Ernesto Júnior e João Chirindza, constituíam o cinco-base. Mas havia outros como Ernesto Gomes, Firmino e José Moiane, que corporizaram a única vitória de Moçambique num Africano de Basquetebol de clubes, com a consequente ida ao Mundial, em Barcelona. No centro do sucesso, um nome: Chuck Skarshug, um técnico norte-americano fortíssimo no aspecto mental, sem o qual, seguramente a colectividade não teria chegado tão longe.

Decorria o ano de 1985. O Maxaquene era orientado por um treinador português chamado José Esteves. Tinha ganho o título nacional ao seu rival, o Desportivo, onde pontificavam os irmãos Amad e Naimo Mogne, com um base de excelência que dá pelo nome de João Paulo Vaz.

Então, que venha o Africano, a realizar-se entre nós.

Um técnico que fez a diferença

Chuck chegou a Moçambique 15 dias antes do arranque da prova. A sua ideia era mesmo a de ganhar, apesar da reconhecida superioridade dos adversários. O técnico norte-americano falava espanhol, o que facilitou a integração. Numa semana, ele já conhecia os hábitos e o “tamanho do coração” dos seus atletas. Passou a ser um amigão e um professor, quanto à importância da força mental, na alta competição.

Um exemplo: Chuck foi à casa de Firmino Moiane, família humilde e equacionou tudo quanto à entrega daquele atleta. Disse-me: “Caldeira, ele madruga, vai à Universidade, treina duro e ainda dá treinos à equipa feminina. O Firmino tem um coração grande. Por isso prefiro colocá-lo no banco e quando o mando lá para dentro, não preciso de lhe dizer nada”.

Veio o sorteio do Africano e saiu ao Maxaquene, na ronda inaugural, o Kano Pilars, então campeão africano. “Ainda bem” – disse o Chuck. “Vamos quebrar as tremedeiras e ver quem é que os tem no sítio”. Seguiram-se noites inolvidáveis de pavilhão cheio e vibrante, chegámos ao título, algo antes impensável.

Depois, seguiu-se o Mundial de Clubes, em Barcelona. Uma curiosidade: enquanto que no Algarve os baixinhos tugas se espantavam por ver um ajuntamento de pretos altos, em Barcelona, o que causava espanto era o inverso: um grupo de “txotes” a querer confrontar-se com autênticos gigantes.

Chuck era um ganhador. Não tinha meios-termos. No estágio pré-competitivo no Algarve, tudo foi preparado para um teste final, diante do Imortal da Albufeira, a três dias da competição na Catalunha. Os jogadores, contra a vontade do treinador, decidiram poupar-se. Pela primeira vez, Chuck viu o jogo sentado, parecendo indiferente. Interiormente, estava muito zangado.

Terminada a partida em que fomos derrotados por uma equipa da II divisão, encaminhamo-nos para o autocarro, em silêncio. Arrancámos. A meio do trajecto, o técnico mandou parar o veículo e deu ordens para se acenderem as luzes interiores. Seguiu-se uma palestra que até hoje me está gravada. Falou dos sacrifícios que todos tinham que fazer em prol dos milhões de moçambicanos que passam fome, da necessidade de confiarem na sua honestidade e entrega, ele que deixara a família a milhares de quilómetros.

Do sonho à realidade

Chuck não tinha a noção exacta das diferenças. Da mesma forma que vencera o Africano, achava possível ganhar o Mundial. No primeiro jogo, diante de uma equipa cubana, perdíamos ao intervalo por cerca de trinta pontos. O “mister” estava confuso e por isso mudou toda a equipa-base, metendo os suplentes, reforçados por Amad Mogne. E porque conseguimos um equilíbrio neste período, decretou a inversão: os titulares passavam a banqueiros. E assim foi. Mas as diferenças era enormes, em tudo. No jogo com os donos da casa, o Barça, a meta era a de perder “só” por 50 pontos, o que não foi atingido!

Em tempo de carências no país, várias estórias aconteceram nessa deslocação, mas vou recordar apenas duas:
No período de aquecimento antes do jogo, os catalães, que tinham dois norte-americanos, faziam “afundanços” e tudo o mais para nos impressionar. E quando as duas equipas entraram lado-a-lado para o campo, Lewis, um dos norte-americanos, de 2.15, girou a cabeça de José Moiane, que tinha cerca de 1.60 e exclamou: “você, com essa altura, vai jogar basquetebol comigo”?

Final do jogo com o Barça, as estrelas San Epifânio, De La Cruz, Sibílio, Vilacampa e outros, numa manifestação de simpatia, vieram ao nosso autocarro para fazerem a tradicional troca de camisolas. Uma honra, para nós, sem dúvida. Só que... os nossos atletas receberam as camisolas mas não puderam retribuir pois tratava-se, na realidade, de um dos dois jogos de equipamentos que possuíam. Foi difícil fazer entender essa realidade àquelas estrelas multimilionárias!

 


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