Releituras e/ou autores/livros de cabeceira

Uma vez perguntaram-me quais eram os autores universais que eram uma espécie de deuses meus da literatura? E eu enumerei alguns, claro, dos que eu havia lido. Há outros ainda que me chegaram via recomendação feita por interpostos leitores como é o caso dos ensaístas e dos críticos literários. Confesso que gosto de ensaístas justamente porque conseguem abrir-me portas ao encontro de outros autores e/ou livros. Lembro-me, por exemplo, de eu ter lido “A Longa Caminhada até à Liberdade”, de Nelson Mandela, por “sugestão” de Jack Lang, através do seu livro “Nelson Mandela – Uma Lição de Vida”, que é, quanto a mim, um ensaio profundamente filosófico sobre a vida e obra de Madiba.

Então, dizia eu, um dos deuses que arrolei foi o Franz Kafka. Conheço Kafka desde 1985 por intermédio de Fátima Mendonça. Até hoje não entendi por que razão, sendo eu poeta, Fátima Mendonça me recomendara a leitura do Kafka... Como que em resposta e, por ironia do destino, seria justamente a própria Fátima a prefaciar o meu primeiro livro, publicado em 1986. Minha vénia por ter-me posto em contacto com um dos maiores cérebros da literatura de todos os tempos.

A obra de Franz Kafka chegou-nos graças ao seu amigo Max Brod que, por “traição” a Kafka e por amor à literatura, fez um favor à humanidade ignorando o pedido do amigo que, enfermo e à beira da morte, pedira-lhe para que destruísse todos os seus manuscritos, constituídos por cartas, contos, romances, entre outros fragmentos diversos.

E um dos grandes livros de Kafka é o “Processo”, 1925, cujo personagem, Josef K., acorda um dia e é constituído arguido dum crime que desconhece, e é-lhe aberto um processo igualmente misterioso. Mas para mim, este grande romance se resume na lenda que um outro personagem, o Capelão, conta a Josef K., cujo título é “Diante da Lei”.

Em suma, o Capelão conta que um homem que andava a busca da lei chega ao palácio da justiça. Lá encontra um guarda junto à entrada. O homem pede para entrar, ao que o guarda, que era forte e robusto, desencoraja-o a fazê-lo pois, diz-lhe que à medida que o homem fosse percorrendo os corredores da Lei, encontraria guardas um cada vez mais robusto e possante que o anterior, pelo que se quisesse enfrentar cada um dos guardas era livre de entrar, mesmo sem a devida autorização. Então o homem, amedrontado, fica ali parado junto à entrada da Lei. Entretanto o tempo vai passando e o homem envelhecendo enquanto aguarda pela autorização. Já velho e cansado, ocorre-lhe uma pergunta que até ali nunca fizera ao guarda: “Por que razão durante todo este tempo em que eu estive aqui nunca apareceu mais ninguém igualmente querendo entrar na Lei?”. Ao que o guarde responde dizendo “é que esta porta estava unicamente destinada a ti”. Depois disto, o homem morre. E assim termina a lenda contada pelo Capelão.

Como se pode depreender, “Diante da Lei” é uma lenda desconcertante, porque encerra em si mesma uma equação insolúvel, como a própria vida. Mesmo analisada sob todos os pontos de vista, quer sejam filosóficos, religiosos, políticos, a existência leva-nos sempre a um beco sem saída. Aliás, esta vertigem é característica da obra de Franz Kafka, pois ficamos sempre com a sensação do vazio, do nada, do absurdo, quando lemos a “Metamorfose “, “Um Artista da Fome”, “O Castelo”, “A Toupeira”, entre outros. E a literatura é isso mesmo, tem como função desvendar, destapar o lado virtual da vida, trazendo-nos a realidade nua e crua sobre o absurdo existencial.

 


 

 


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