Saga d’ouro: a história de um narcisista

Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade
de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício.
Adelino Timóteo

Há dias encontrei-me com um velho amigo, que me perguntou: “então, José, e a crítica a Saga d’ouro? O que achaste do livro?” Bem, o Celso, o velho amigo, já havia lido a obra distinguida com o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018, no entanto, ainda assim, queria saber qual era a minha opinião sobre o novo romance de Aurélio Furdela. Bem, a primeira coisa que me ocorreu foi: “como este tipo sabe que li o livro?”. Na verdade, naquele mesmo dia, eu acaba de terminar a leitura, e, portanto, tinha o que lhe responder. Fi-lo de forma fragmentada, afinal sempre há conversas predestinadas a durar dois minutos do máximo. E se descontarmos o tempo da saudação, da pergunta – o Celso é sereno: fala muito vagarosamente –, devo ter respondido nuns 37 segundos. Ao fim desse período, cortei a conversa e o ensaísta foi exercer o jornalismo. Mas ficou a promessa, responder-lhe nesta coluna: “Outras margens”. Então, cá vamos nós.

Camarada Celso, conforme disse-lhe há dias, naquele encontro instantâneo, apreciei o livro do Furdela. Sinceramente, surpreendeu-me do ponto de vista do enredo e, principalmente, do discurso narrativo. Acho que estava à espera de outra coisa. Saga d’ouro está um livro bom de se ler, simultaneamente suave e complexo. Deve-se ler com muita concentração, sobretudo porque as personagens são relativamente parecidas e, como têm nomes particulares, esses diferentes de José ou Angélica, muitas vezes, até confundem.

Como bem sabes, camarada, afinal terminaste a leitura antes de mim, nestas 129 páginas Aurélio Furdela conduz-nos ao presente da história dos moçambicanos – cidadãos de África e do mundo –, por via do passado. Ao proceder assim, o autor vai buscar algures um mambo, soberano do Estado de Mwenemutapa, ressuscitando-lhe, dando-lhe uma nova oportunidade de ficar para história, quiçá, como referência de alguma coisa boa. Entretanto, GatsiRucere, o protagonista deste romance histórico, desobedece o seu criador, teimando em vestir a pele de vilão que tão bem assenta nos heróis do antigamente. Esses que pegaram em armas? Sem dúvidas.

Nota-se que foi um exercício muito árduo este de um ficcionista também armar-se em historiador e desbravar ambientes agrestes, nos quais, eventualmente, inicia muito do que hoje nos caracteriza, a nós, mais uma vez, os moçambicanos cidadãos de África e do mundo.
Ao reconduzir-nos lá para as bandas do Mwenemutapa, unindo pesquisa e criatividade, inclusive com emprego de um jogo anacrónico bem apropriado – veja-se, por exemplo, a passagem em que a tão disputada Manyara, preocupada pelo seu querido Mudzingaze, aproxima-se ao pai de criação dele, Folofanye –, Furdela reedifica os bastidores do poder, a partir dos quais lança vários questionamentos sobre o sentido de pertença a um propósito ou de lealdade a uma causa. Para o efeito, coloca três forças a disputarem as lancinantes minas de ouro: GatsiRucere, Matuzianhe e os ardilosos portugueses. Claro que aí não falta esse misto de feitiçaria e tradição que nos colocam numa lengalenga enquanto tentamos compreender a origem dessas forças anormais muito normalizadas. Importa mesmo, camarada Celso, que chegamos aonde o escritor pretende: às dimensões de um personagem narcisista.

A propósito de narcisismo – segundo a mitologia grega, que deriva de Narciso, jovem que se apaixonou pela sua própria imagem, tendo-se suicidado devido a impossibilidade desse amor poder realizar-se –, este é o termo que caracteriza GatsiRucere, pois bem sabes, por Freud, na Psicanálise, a palavra foi introduzida para se referir à fase inicial egocentrista do desenvolvimento da criança. Por analogia a estas duas vertentes, mitológica e psicanalítica, logo percebe-se, GatsiRucere é um narcisista à imagem de muitos chefes do presente, os quais muitas vezes julgam ser à medida de tudo, do conhecimento, da inteligência, daí a arrogância de se julgarem legítimos produtores de oportunidades e destinos.

GatsiRucere é uma boa proposta para repensarmos a importância da liberdade quando esse direito parece ser posta em causa pelos opressores, inclusive por aqueles que se escondem na democracia, como diria George Orwell, uma forma bonita de dizer ditadura.

Portanto, o narcisismo de GatsiRucere é um vício, uma praga que se vai alastrando um pouco por todo lado e sectores socias, de onde a prepotência e a presunção são mecanismos incapazes de abafar a incompetência de liderança.

No livro, camarada Celso, e isso é o que mais interessa, chamaram-me atenção as práticas de um protagonista que mata ou manda matar, semeia ódios ao invés de esperanças, desterra para não perdoar, e oprime ao invés de amar. Aliás, quando o afecto muito raramente manifesta-se, o próprio GatsiRucere tece algumas cogitações para o aniquilar, pois, para a sua mesquinhice, tudo à sua volta existe para o satisfazer.

GatsiRucere é o centro do universo. Como Narciso, a sua queda sempre iminente é antecedida de um amor próprio exacerbado, sem partilha. Então, para se manter no trono, o nosso anti-herói não hesita em usar a velha técnica dividir para reinar, colocando, no meio da divisão, Manyara a prémio. Mudzingaze e Bengo são os objectos dessa luta, por terem sido impingidos pelo mambo a uma missão fatal. Com isso – como é frequente em Adelino Timóteo –, o amor dissipa-se, nessa circunstância e noutra em que o feiticeiro Rumbindzai é atraiçoado por GatsiRucere, vendido aos portugueses que o arrancam da sua terra para lhe atirarem ao Brasil. Consequência: as esposas do polígamo ficam sem quem as satisfazer o desejo, criando-se aí qualquer coisa de hilariante, bem descrito, embora breve.

A descrição é uma técnica, neste Saga d’ouro, que introduzi o leitor num universo que lhe é distante. O autor tinha mesmo de manter o cuidado de o situar de múltiplas maneiras, conciliando o vocabular e os contextos que lembram a época de GatsiRucere com a necessidade de manter a história actual. Furdela conseguiu isso. Mas, tendo melhorado muito em relação ao último livro dele que li, As hienas também sorriem, “pecou” em três coisas – e tu já deves imaginar, ó Celso, que és muito atento a essas questões: primeiro, poderia ter explorado com maior profundidade o perfil das personagens, inclusive do protagonista. Segundo, o fim… Saga d’ouro inicia e evolui de maneira que prende o leitor. O enredo, a lembrar-nos muito Ualalapi e As mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, mantém-nos muito expectantes em relação ao fim. Quando chega, pimba, parece que não é bem aquilo que estávamos à espera ou que deveria ser. Não te vou mentir, quase fiquei desiludido. Furdela poderia ter trabalhado melhor o fecho; terceiro, o trabalho sobre a emoção não foi muito sólido. Por exemplo, a passagem em que Mudzingaze é deixado para trás, depois de ter sido ferido por Bengo, poderia ter sido mais dolorosa. Sinceramente, devia e não consegui sentir a dor de Mudzingaze, de Folofanye e de Manyara, na sequência da crueldade de Bengo.

Seja como for, camarada Celso – noto que o relógio marca 1h02, e já é altura de ler Sonhos manchados, sonhos vividos para daqui a uma ou duas semanas voltarmos a esta coluna –, respondo-te com franqueza: valeu a pena ler a história desse narcisista, contada por Aurélia Furdela. Por isso, a todos que gostam de regressar à realidade a partir da ficção, mesmos os que já se fartaram do passado na ficção moçambicana, fica a nossa sugestão.
 
Título: Saga d’ouro
Autor: Aurélio Furdela
Editora: Imprensa Nacional
Classificação: 14


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