Salvem a minha escola: Círculo Ndlavela

Como que evocando acontecimentos e memórias do meu pequeno percurso, digo com frequência e propriedade frases como "venho de muito longe eu". Para quem pouco me conhece, o peso dessa frase pode parecer simplório quando não cuidadosamente descortinados os factos que ela encobre.  Sem intenção de ser o sujeito principal deste humílimo escrito, mas tentando chamar à atenção para uma realidade que me é muito próxima, descortino-os.

O horário das notícias da noite sempre foi sagrado na casa dos meus pais, não só porque coincidia com o do jantar, mas também porque era a hora em que toda a minha família se reunia depois de um dia de desencontros. Como que procurando viver à minha maneira uma parte daquele momento sagrado, por estar deslocado do ambiente familiar, quando a escuridão visita Lisboa e a noite se confunde com  a madrugada, acesso o YouTube em busca da gravação do "Jornal da Noite" da STV e acompanho o quotidiano da "pátria amada".

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", disse Camões. Já não vejo todas as reportagens, confesso. Avançando ou recuando o vídeo, procuro as notícias que me parecem mais "quentes" e assisto os desenvolvimentos feitos pelas respectivas reportagens.

Nada de novo, até que algo me prende o olhar e me transporta no tempo.
Não posso crer! A apresentadora fala de algo relacionado à escola onde frequentei o ensino primário. Aumento o volume  e acompanho atentamente a reportagem. Ela finda, sinto um vazio e nada mais preenche o meu ser senão um turbilhão de lembranças.
Chama-se Escola Primária Completa de Ndlavela, ou simplesmente "Círculo Ndlavela" como é popularmente conhecida. Indepentendemente de como lhe chamem, foi lá, numa sala de madeira e zinco que me permitia um estágio no inferno quando fazia calor, sentado no poeirento chão, que com quase uma centena de crianças se iniciou o meu processo de formação. Coube à professora Laura, a minha primeira ensinadora, a missão de iluminar aquelas crianças. Nunca esqueci aquela professora, não só por ter sido a primeira, mas pela forma cativante e carinhosa como se preocupava em moldar naquelas crianças choronas pessoas com o máximo dos padrões de educação e competências que se pode exigir de um ser social. Nos três anos que juntos estivemos, ela me ensinou mais que escrever, ler ou contar, complementou o que eu recebia da minha família. Minha amiga Michela usa a expressão "um simples ser humano" quando se quer referir a  uma pessoa que não agrega valor à sociedade e só traz problemas. A professora Laura ensinou-me a não ser isso, "um simples ser humano".

Sempre que passávamos para o ano seguinte criava-se uma forte expectativa, sobretudo para os que tínhamos as aulas nas salas de madeira e zinco, em mudar de sala e continuar com o mesmo professor. O que me aconteceu na quarta classe foi o que ninguém desejava: mudei de sala e de professora. Ainda superei a mudança de professora, mas o difícil foi passsar a ter as aulas debaixo de uma árvore. Tinha as minhas aulas das seis e meia às dez da manhã. E, agora que escrevo, sou visitado pelo frio e pelo desconforto daquela experiência. Minha mãe dava-me uma capulana para estender no chão, por ser essa a nossa mesa e o nosso banco.  

A quinta classe ainda começámos debaixo da árvore, mas logo depois fomos premiados. Passámos para a sala dez, que era de alvenaria. Aquelas salas representavam o topo das melhores condicões, tinham sido intituladas ma predwene (os prédios). A sala continuava sem carteiras, mas já tínhamos umas chapas de zinco cobrindo a sala. Lembro-me de organizar um grupo de colegas de turma e chegarmos à escola por volta das seis da manhã para tirarmos as poucas carteiras que estavam noutras salas e pormos na nossa. Funcionávamos segundo a lei do mais forte, por isso, de quando em vez, ainda nos sentávamos no chão quando, nessa luta pelas carteiras, encontrássemos colegas mais fortes.

Sorte era algo muito bem-vindo naquela escola. Faltou-me alguma na classe e fui ter aulas numa sala de madeira e zinco que se encontrava ao lado do maltratado WC que nos expunha a todo tipo de doenças.

Precisava de um pouco de sorte, só um pouco para no último ano do ensino primário voltar a uma sala de alvenaria e concluir a minha passagem pelo Círculo com melhores condições. Fora tanto o desejo, que a sorte se fez presente e tive aulas na sala dois.

Apesar de tudo, aprendi e fui muito feliz naquela escola! Tive bons professores e fiz bons amigos! E, embora me tenham obrigado a aprender nessas condições, venci o determinismo e cheguei aonde cheguei.

Tempo, governos, directores, professores e alunos... Foram muitos os que por lá passaram e a escola não podia estar mais degradada... Ao ver esta reportagem, digo com um ar mais triste "venho de muito longe eu".  

Não podendo fazer nada, faço-me criança e entre choros e soluções peço que salvem a minha e outras escolas em condições semelhantes. Há que apostar muito mais no sector da educação, Moçambique!

 


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