Samito dentro do Espírito absoluto de Hegel

“Eu rebelo-me, nós existimos”
Albert Camus

Eis o voo arriscado da coruja da Minerva sobre os factos políticos antes de o sol se pôr. É mais provável que seja cedo para se lançar uma luz filosófica sobre a natureza imediata dos fenómenos políticos, mas ante o acto de rebeldia de Samora Machel Júnior (Samito) em querer conduzir o destino de Maputo fora das rédeas da Frelimo, a coruja da Minerva sente-se também atentada a rebelar-se do seu horário normal do voo e escalar o céu para avistar a marcha do Espírito absoluto. Na verdade, todo o acto rebelde é, por excelência, espontâneo e indisciplinado no sentido de desconsiderar a circunstância em que se revela e preocupar-se simplesmente com o desejo de impor-se.

Poderá ter havido alguma preparação para saída de Samora Machel Jr. da FRELIMO, embora não deixe de se destacar o espírito de rebeldia no facto de Samito ter deixado a grande máquina política que é FRELIMO para afiliar-se a um minúsculo organismo que é AJUDEM com uma fama de anonimato na esfera pública. O acto inopinado de Samito revela-nos um indivíduo que, agastado com a infâmia do partido tradicional, decide saltar do barco sem muito considerar onde vai cair. O importante para Samito parece-nos que foi salvar a sua consciência e o nome da família Machel, ao discordar explicitamente do comportamento do partido. Após uma FRELIMO colonial e libertadora que, sob a liderança de Mondlane e Machel, se apresentava à maioria do povo moçambicano, disciplinada, austera e focada no bem comum da população, é deveras consternador que a FRELIMO dos dias de hoje esteja implicado em graves escândalos de corrupção. Que as magnas dívidas ocultas, o tráfico de madeira e a devastação económica evitável que ligam elites deste partido não me permitam o engano.

Certamente que nem todos os membros deste partido libertador compactuam com esta má imagem da FRELIMO. Mas se não compactuam, o que é que fazem para distanciar-se? A passividade e a indiferença são filhas da conivência. Dos homens que não quiseram que a sua imagem fosse envolvida a um ignóbil fado tiveram coragem suficiente de dar-se à história como mártires, rebeldes, reacionários, revolucionários ou reformistas. Aqueles que conscientes do problema não tomaram nenhum acto de insurreição são tão coniventes quanto o povo alemão perante o holocausto de Hitler, não importando a forma da sua culpa se é pelo medo ou lealdade ao partido. Embora de maneira tímida, Samito acaba de demarcar um distanciamento moral da FRELIMO. A infâmia que pesa sobre o partido no poder já não é mais da carga de Samito. Ele já está em plena paz política consigo mesmo. Ou melhor, ele devia estar em plena paz espiritual consigo mesmo, pois, como disse Severino Ngoenha, não existe uma moral política separada duma moral pessoal.

Entretanto, ainda que seja louvável desertar o partido, este acto não é única forma de manifestar a discordância activa. É possível continuar dentro de uma instituição sem compactuar com a sua conduta, por meio da crítica e reforma. Um dos melhores exemplos sobre esse modus vivendi num habitat hostil é o próprio Samora Moisés Machel dentro do partido FRELIMO. Quando a FRELIMO da independência começou a mostrar sinais de degeneração política, Machel mostrou-se único de todos os líderes comunistas a criticar publicamente e veementemente o seu próprio partido. Criticou e prometeu sérias reformas sem precisar desvincular-se da FRELIMO. E o povo do então soube que dentro da FRELIMO havia sabotadores e corruptos, mas o presidente não era um deles.

De modo geral, avaliando os últimos eventos de dissensão que têm sucedido aos partidos libertadores em África pode-se vislumbrar que o Espírito absoluto cogitado por Hegel como ideia de autoconsciência está interessado em proceder a sua marcha dialética no continente negro. As peças do grande desígnio já começam a mover-se sob a magna razão. Os fenômenos políticos que, amiúde, se nos afiguram corriqueiros dentro dos partidos de libertação, quando olhados de maneira holística começam a revelar-nos a silhueta do futuro dos partidos políticos em África – que é a democracia interna. Se o fim último da história dos homens visto por Francis Fukuyama é a democracia, há uma obrigação que a organização interna dos partidos políticos termine democrática. Porque o movimento do Espírito absoluto não permite contramãos, todo o partido que resistir ao vento da mudança arrisca-se a ser esmagado, preterido e olvidado.

Vejamos o que está acontecer com o MPLA, após longos anos de ditadura de José Eduardo dos Santos, foi preciso que o Espírito absoluto introduzisse a peça de João Lourenço para operar reformas necessárias rumo à democracia. O trabalho de João Lourenço poderá não ser exaustivo mais já é um grande passo para a democratização do MPLA. O partido no poder da Nigéria, APC, sofre em 2018 deserções profundas motivadas por altos níveis de corrupção e incompetência que enferma a governação de Muhammadu Buhari. É chegada altura deste partido reorganizar-se de maneira mais democrática possível sob o risco de perder o poder. O ANC da África do Sul é relativamente um dos partidos mais democráticos de África desde a deserção de Malema e escândalos de corrupção de Zuma que obrigou o partido a expulsa-lo do poder. Soube gerir a crise e democratizou-se. O ZANU-PF, partido no poder do Zimbabwe, já começou a dar passos significativos rumo à democracia, quando em novembro de 2017, Mugabe foi forçado a renunciar ao poder por ter tentado transformar o partido num órgão familiar cujo chefe era ele. O mesmo espírito de mudança assombra a FRELIMO, no bom sentido, quando Samito decide romper com o partido do seu pai, alegando falta de democracia.

Por isso, o acto de Samito não devia ser visto simplesmente como uma decisão pessoal, mas como um dedo do Espírito absoluto na sua marcha pela democratização dos partidos políticos em África. A crise deu entrada no partido FRELIMO, não só pela dissensão marcante de Samito, mas por existir membros que estão indignados com a imagem ignóbil deste partido tradicional. Mas a crise pode ser motivacional bem como fatal, dependendo da forma como ela é gerida. Cabe, portanto, à FRELIMO, considerar a situação crítica actual em que se encontra como chamada de atenção para sua democratização ou como mais um acontecimento trivial que não coloca em perigo a sua pujante existência. Samito foi mais um dado bem jogado pelo Espírito absoluto. A FRELIMO, assim como MDM, RENAMO e outros partidos da África deviam cooperar o mais rápido possível com a grande marcha de democratização partidária de modo a poupar-se o esforço de despertar tardiamente com grandes perdas, pois, de qualquer forma a democratização dos partidos é certa. Somente os partidos democráticos são capazes de sobreviver num futuro em que Estados do mundo estão condenados a respirar a democracia. Quanto mais cedo os partidos políticos ganhar a consciência que a liberdade de expressão e transparência no seu funcionamento interno é única via de manter-se em “forma”, mais crises desnecessárias poderão evitar.

 


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