Se me quiseres conhecer: substratos de uma narrativa fragmentada

Quando chegar aos 30
serei uma mulher de verdade
nem Amélia nem ninguém
um belo futuro pela frente
e um pouco mais de calma talvez

Martha Medeiros

 

A mira de Ricardo Franco está treinada para captar boas narrativas. Considerando que “cada ser humano é uma história”, conforme enalteceu Yuck Miranda há dias, então a exposição Se me quiseres conhecer – uma reflexão fotográfica entre dois mundos, não só legitima essa afirmação do actor, como nos vem lembrar de que as histórias se encontram em qualquer lugar.

Quando visitamos a mostra de Ricardo Franco, patente na galeria do Centro Cultural Franco-Moçambicano até 21 de Agosto, a primeira coisa que nos pode ocorrer é mesmo essa: somos personagens de nós próprios, se quisermos, das nossas narrativas e lutas. Por isso, cada ser humano também é protagonista de algum enredo por desenrolar. Atento a isso, provavelmente, e aos eventos quotidianos que muito facilmente nos escapam ou desvalorizamos, Franco insere-se no universo predominantemente feminino para aí extrair acções, diálogos e movimentos. Claro que toda esta engenharia é captada em uma comunicação sem vozes, na qual não faltam os silêncios do narrador, perguntas e algumas respostas adiadas. Ainda assim, no contacto visual com as fotografias, entre o alegre e o verosímil, o visitante consegue ouvir em surdina as palavras não ditas nos textos de Se me quiseres conhecer. Nesse momento, ficam criadas as condições para, através da mira do fotógrafo, cada um ser o seu particular contador de vidas inspiradoras.

Em fragmentos, porque cada imagem é independente, Ricardo Franco tece um conjunto de cenários que têm no centro mulheres maduras, de um estrato social humilde, como se revelasse atracção por certa condição feminina já destacada em O regresso do morto, de Suleiman Cassamo. Quer isto dizer que a proposta do fotógrafo não é nova na arte feita em Moçambique. Entretanto, tem esse mérito por contemplar além das imagens todo um conceito do belo sempre inefável.

Se em Cassamo a mulher é sinónimo de sofrimento, na mostra de Franco a mulher, em geral doméstica, é amor às pessoas, ao lar, às coisas e ao encanto das coisas. Em Se me quiseres conhecer, a mulher é a alma do afecto e as suas mãos alicerces de uma sociedade que ainda as limita e oprimi.

Não são apenas fotografias que Ricardo Franco expõe no CCFM. São também substratos de realidades que em si encerram contrastes, pois quem melhor cuida, muitas vezes, é fustigada. Com efeito, a fotografia é uma maneira de revigorar os silêncios das mulheres que zelam sem objectar; agem sem esmorecer e sobrevivem na complexidade dos seus propósitos. Mulheres essencialmente (sub)urbanas, mulheres-coragens, entre dois contextos: do conforto onde trabalham e da carência onde vivem. Logo, há aí uma duplicação de sentidos.

Ora, à parte as narrativas fragmentadas, conectando-se de forma recíproca, Se me quiseres conhecer é um exercício esteticamente sugestivo, no qual Ricardo Franco, com curadoria de Miguel Rego, demonstra uma grande subtileza na precisão do objecto em foco. E nisso nota-se um contraste aliciante no jogo de luzes em oposição às sombras naturais ou criadas. A espontaneidade aparente é outro factor notável, o que dá a entender que o fotógrafo preocupou-se em não manchar a naturalidade dos contextos. Se o objectivo foi ser o mais autêntico possível, Franco atingiu-o com fotografias bem esclarecedoras.  

Retornando aos dois contextos retratados nas fotos, no texto de apresentação da exposição, Cristiana Pereira observa que o fotógrafo estudou esses dois mundos que diariamente se cruzam, entretanto, acrescentamos nós, opostos e distantes. Assim, seja como empregada ou criada, aqui a mulher é a ponte que nos conduz de um plano para o outro. Há-de ser por isso que uma voz nos diz, em O remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe: “Não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas”. Quem diz mãe diz mulher, e, como também nos diria o escritor português, as mulheres de Ricardo Franco, em Se me quiseres conhecer, são lugares por onde deus chega.

 

Títulos: Se me quiseres conhecer

– uma reflexão fotográfica entre dois mundos

Autor: Ricardo Franco

Exposição fotográfica

Classificação: 13


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