Seis poetas escolhem seis poemas para hoje (mas também para amanhã)

Seis poetas escolhem seis poemas para hoje (mas também para amanhã)

Por: Pedro Pereira Lopes

Julio Cortázar explica, no seu distinto livro de análise literária, Valise de Cronópio, que “o que chamamos poesia implica a mais profunda penetração no ser de que é capaz o homem”, ou seja, a poesia, enquanto arte, só será fecunda em possível afirmação de sobrevivência. Poesia comprometida, verso decorativo, feição épica ou meditativa, etc., quase tudo se pode dizer da poesia, mas, em momentos como este, de esvaziar os olhos e montar novos sonhos debaixo do sol, a poesia é, acima de tudo, ESPERANÇA.

Pedi aos poetas Jaime Munguambe, Nelson Lineu, Hirondina Joshua, Mauro Brito, M. P. Bonde e Sérgio Raimundo (Poeta Militar) que escolhessem seis poemas e que justificassem suas escolhas. Regras quase que não existiam, tinham apenas de ser textos que os marcam. São, afinal, poemas que podem ser lidos hoje mas também amanhã. Vamos lá?

A ESCOLHA DE JAIME MUNGUAMBE

“Os seres”, de Antonin Autard

Não caiem

para o dia exterior


Só tem a força

de resplandecer

na noite subterrânea

onde se fazem


Mas desde eternidades

passam

o seu tempo

e o tempo

a fazer-se

e nem um só chegou

assim

a manifestar-se [...]


Fazer o corpo humano sair

para a luz da natureza

mergulhá-lo vivo

no clarão da natureza

onde o sol acabara enfim

por desposá-lo.


A EXPLICAÇÃO DE JAIME MUMGUAMBE PARA A SUA ESCOLHA

Escolho este poema pelo facto de, talvez, facilmente penetrar-me corpo adentro e, por conseguinte, criar uma tempestade indescritível e aprazível à carne. Todos os edifícios textuais, poéticos, têm esse domínio, puxam-nos aos espaços (in) concretos, lugares abstractos ou exactos, onde resplandece o êxtase, o centro da efervescência total da liberdade espiritual: onde a palavra vive e seduz o silêncio murcho, o palco de uma reflexão irreflectida, onde respiramos abraçados pelas linhas do destino indecifrável, Antonin Autard fala dos seres, simplesmente dos nós que fazem a Humanidade, ou seja, de nós como sujeitos orgânicos com o lado interno e o externo.

A ESCOLHA DE NELSON LINEU

“Procura da Poesia”, de Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objecto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda húmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

A EXPLICAÇÃO DE NELSON LINEU PARA A SUA ESCOLHA

Por que escolhi este poema? Responder seria convocar a razão, e para quê o poema precisaria da razão? Se um texto que se quer poético precisa da razão, “ainda não é poesia”, como escreveu o poeta. Drummond brinca com o entendimento, sempre que me lembro do poema, três versos enchem-me a poesia: “A poesia (não tires poesia das coisas) ”; “Convive com teus poemas, antes de escrevê-los”; “Não forces o poema a desprender-se do limbo”. O último é como vejo um meu texto em cima da árvore, e não posso fazer nada, além de esperar que amadureça e caia, e só depois da autorização do chão que canto, escutá-lo.

A ESCOLHA DE HIRONDINA JOSHUA

“O Palácio da Ventura”, Antero de Quental

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

A EXPLICAÇÃO DE HIRONDINA JOSHUA PARA A SUA ESCOLHA

“Sonetos” de Antero de Quental, um dos primeiros livros que li na adolescência, e o favorito do meu pai: capa preta e uma flor vermelha no centro, um anúncio de desassossegos. O que esta escrita me trouxe de especial foi o facto de ela ser voltada à experiência do “para além do físico” – metafísica. Ouvi dizer que triste não é o texto, mas a mão que o lê, eu hoje devo concordar plenamente, quando o texto espelha-nos, espalha-nos para novas conquistas. É o que acontece com “O Palácio da Ventura”, diria até que textos como este despertam em nós o lado animal e espiritual que teimamos ignorar. Somos apressados por natureza, não temos tempo para olhar o que está ao redor enquanto mais dentro. As palavras têm o poder de segredar quando nos mente quem as vincula. Por mais belas e estruturadas que sejam. Um texto que trai esta lei não toca. E lirismo é não mentir. Com Antero percebi que as palavras têm energia, assim como as pessoas. E tal energia está em constante movimento. Como falam os brasileiros, tudo está “se construindo”. O que mais me impressiona na sua escrita é o acto de transformar a vida em arte – os instrumentos estão em nós e não fora. Antero sabia disso. O que mais é a poesia senão uma procura-interrogativa?

 


A ESCOLHA DE MAURO BRITO

“Poema do futuro cidadão”, de José Craveirinha

Vim de qualquer parte

de uma Nação que ainda não

existe.

Vim e estou aqui!

Não nasci apenas eu

nem tu nem outro...

mas irmão.

Mas

tenho amor para dar às mãos-

cheias.

Amor do que sou

e nada mais.

E

tenho no coração

gritos que não são meus

somente

porque venho dum país que

ainda não existe.

Ah! Tenho meu amor à rodos

para dar

do que sou.

Eu!

Homem qualquer

cidadão de uma nação que

ainda não existe.

A EXPLICAÇÃO DE MAURO BRITO PARA A SUA ESCOLHA

José Craveirinha não morreu, ao contrário do que se diz e pensa. E com ele não morreram os seus pensamentos e anseios como poeta e cidadão tão ligado a terra que o viu nascer. Muito antes de ter consciência da existência e o valor da poesia, tive o primeiro encontro  com a poesia do Craveirinha nas aulas de Português, em Fábula, quando então era um dedicado e comportado aluno. A partida um texto breve, simplista, e por outra sem conotação algum, mas tão acutilante e sério, algo que vim a descobrir mais tarde, com muito lamento pelo facto de nenhuma das minhas professoras o ter clarificado. A escolha deste texto não é de hoje, logo que o descobri entre as suas camadas o sentido metafórico. Encontrei nele o motivo da não conformação, da rebeldia, da vontade de ir além, de se reinventar; quem sabe continuar a encontrar outras formas de ser, de pensar, ou, dizendo de outro modo, sacudir a poeira. O poema chega a ser mais do que uma nota de um poeta-cidadão, mais do que um apelo. É um soprar de ouvidos na busca da imagem e da essência do novo homem que vai elevar a bandeira mais alto, que irá conquistar a coesão social  e sobretudo harmonia que falta no menu. Se calhar o sentido da palavra é mesmo esse: a continuidade, a abertura de caminhos e não um mote para chegar ao destino, por isso a metáfora está sempre ali. Neste caso muito subtilmente, algo que Zé muito bem dominava. E hoje, mais uma vez, há necessidade de dar amor a todos e de continuar a edificar uma nação inexistente.

A ESCOLHA DE M. P. BONDE

“IV”, de Álvaro Fausto Taruma

Aqui reina a palavra, o poema, o amanhecer de todos os fonemas sobre as casas, sobre a vida, sobre os cursos de água, sobre as padarias vigiando a fome, sobre o sol aludindo o fogo, a alquimia, sobre um rio correndo na mão em premonitória quiromancia. Mas fala-se também do puro instante da aparição, da vida regendo os sonhos, a língua, do manejo do verbo, da caligráfica ave, do oráculo da fala ou da poética gramática da escrita.


Diz-se ainda de uma janela contemplativa, do alfabeto entregue em oferenda e do alumbro mágico de quem cria.


Diz-se dessa palavra temperada: o sol, esse imenso latifúndio de luz, vindima da esperança. Diz-se da sua ramagem incendiária; a lavrada substância do fogo; favo do mel da claridade; o sol rasgando o hímen resoluto das manhãs. Por isso:


Por nada, por tudo

Por um instante de luz

Abro o cárcere de palavras, o mudo

Silêncio onde me pus.

Desato o poema, meu escudo

Contra a escuridão que me seduz

Mas a liberdade que aludo

Nenhuma poesia traduz.

A EXPLICAÇÃO DE M. P. BONDE PARA A SUA ESCOLHA

Escolhi este texto porque me identifico com o processo criativo: a metapoesia. Aqui o autor apresenta as suas ferramentas para compor os textos. A capacidade de reflexão demonstra que o autor está a fazer o seu caminho, procurando a sua voz interior. Há uma consciência, por parte do autor sobre o seu valor, apontando os signos, as imagens, as ferramentas para chegar ao âmago do texto. Eis então, o mundo do Taruma por se desvendar.

 


A ESCOLHA DE SÉRGIO RAIMUNDO (POETA MILITAR)

“O escritor”, de Gonçalo M. Tavares

É um escritor ou então a mulher partiu com outro,

e o corpo não recuperou a vontade

de se preocupar com a roupa.

Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido

apareceu-lhe à frente como numa colisão.

No entanto é discreto.

Tem a idade em que já não se desejam os olhares dos outros.

Branco, o cabelo transmite paz e

uma pequena desistência.

Tem cachimbo, óculos,

na mesa revistas francesas sobre a alma e os laboratórios que a

estudam;

pega numa folha e começa a escrever.

Tem ar sóbrio, o corpo não dança,

vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros.

Escreve; passa a mão sobre a orelha.

É um escritor, em definitivo.

A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usa-la,

percebe a sua natureza.

A EXPLICAÇÃO DE SÉRGIO RAIMUNDO (POETA MILITAR) PARA A SUA ESCOLHA

Este poema faz parte do fantástico livro “1”, assinado pela mão do escritor que até Saramago prometeu-lhe bater de tanto escrever bem; Gonçalo M. Tavares. É um poema que, em parte, condensa a figura de um escritor que solda a sua escrita com a irresistente matéria da solidão. Gonçalo, com a sua técnica de busca de palavras com um sentido material, mostra-nos como o escritor manipula pelos garfos dos dedos o tédio e assim alimentar a sua escrita. Faz isso porque “vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros”. Obras clássicas, de Gonçalo, nasceram, com certeza, desde constante choque com o tédio. Gonçalo é um escritor que percebe a natureza da solidão e do tédio. Basta ver Bloom em “Uma viagem à Índia”, Marius em Uma menina está perdida no seu século à procura do pai” e Mylia em Jerusalém. Este poema entra no interior do escritor e sai com as medidas certas das suas convulsões; entra como um tabuleiro que é empurrado para o forno e assim sair com o pão.


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