Sofala, a província que não só fala

Na semana passado fui designado para acompanhar a visita do Presidente da República à província de Sofala. Era o regresso de quem lá viveu um ano e oito meses, igualmente a mando do serviço, o que me permitiu viver experiência enriquecedora e conhecer melhor aquela província e suas gentes que literalmente não só fala como o nome da província sugere, mas também age e trabalha arduamente.

Apesar de que já tinha estado na Beira uma semana antes, a passagem pela cidade por apenas um dia me permitiu ir a locais que na semana anterior não tinha conseguido ir. E foi de coração partido que vi a cidade com as ruas totalmente partidas. Em algumas vê-se o esforço inglório do município a tentar tapar os buracos. Por outro foi de satisfação pois senti uma Beira que cresceu muito desde que de lá sai em finais de 2014. Novas infra-estruturas económicas surgiram, o bairro de Estoril parece não dever nada a Triunfo de Maputo e o percurso da Beira a Inchope vai ganhando nova vida.

Foi com satisfação que percorri a Estrada Nacional Número 6, aquela mesma que fiz várias reportagens entre 2013 e 2014 a denunciar a sua acentuada degradação sendo a principal via de interligação do nosso país a vários países da SADC. A estrada está quase pronta e com novo rosto.

No Domingo dia 19 iniciamos a aventura que nos levaria ao norte da província de Sofala região que foi assolada pelo conflito militar e que o Chefe de Estado decidiu visitar este ano. As 9 horas as duas Toyota Land Cruizers, comumente chamadas HZ estavam estacionadas no hotel e prontas para levar os 13 jornalistas idos de Maputo para cobrir a Visita Presidencial. Uma das HZ era do tipo que é usada como ambulância, pelo que a maioria dos jornalistas usaram-na a outra tinha mais conforto e por isso todos lá queriam entrar, mas só os mais teimosos conseguiram usa-la. Tinha capacidade só para 4 passageiros.

As 10 horas partimos com destino final o distrito de Chemba, mas com paragem em Caia para pernoitar. Depois de discussão sobre a via a usar venceu o grupo que preferiu usar a Estrada Nacional Número Um, com desvio em Gorongosa via Casa Banana até Cheringoma e depois até Caia. Assim fizemos e só às 19h30 minutos chegamos a Caia.

O percurso foi extremamente doloroso. A EN1 está completamente irreconhecível, cheia de buracos enormes que engolem qualquer viatura ligeira. Mas tive satisfação ao ver o renascer da vida ao longo de toda estrada que liga a vila de Gorongosa passando por Vunduzi até Casa Banana. Percorri aquela região altamente produtiva em meados de 2014 e estava totalmente abandonada. As poucas pessoas com que se cruzava só se via lágrimas de sangue nos seus rostos, mas agora vi alegria, vontade de produzir mais. Vi baracas abertas, muita gente a circular, mulheres e crianças a lavar roupa nos riachos que nascem da Serra da Gorongosa.

Aquela terra que testemunhou o derramamento de sangue entre irmãos mostrou-me que está pronta para transformar a tragédia e os momentos difíceis porque passou em força para produzir mais e combater a pobreza no seu seio e no país em geral. O mesmo vi em Casa Banana, em Mazamba e em Cheringoma que visitariamos dias depois.

Chegados a Caia pernoitamos na Pensão do músico Esaú Menezes. As 5h00 do dia seguinte partimos, mesmo com reclamações dos colegas que se faziam transportar na “ambulância” pois a noite não fora suficiente para acalmar as dores causadas pelos bancos de napa e madeira aliados aos saltos nas covas das estradas esburacadas. Mas fazer o quê a jornada estava apenas a iniciar.

Partimos para Chemba via Sena, ao longe deu para matar saudades da ponte ferroviária Dona Ana sobre o rio Zambeze. Nunca tinha estado em Chemba mas a nova fábrica de açucar em fase terminal de construção e o enorme canavial dão indicação de que nos próximos tempos Chemba vai ter uma outra realidade. A feira provincial que mostrou as potencialidades económicas de Sofala realizada em Mulima voltou a mostrar o quanto aquela província está determinada em desenvolver.

No fim do dia e depois do trabalho devíamos partir para Maríngue onde devíamos passar a noite para dia seguinte receber o Chefe de Estado. Mas uma informação vinda de Marínguè diz que o local onde devíamos pernoitar foi ocupado por outras entidades e a solução era irmos dormir em Caia. Lá fomos nós. Mas para nosso azar todas hospedagens de Caia estavam ocupadas. Solução: dormir no carro. E porque na “ambulância” não era possível oito pessoas dormirem alguns recorreram às cadeiras da esplanada do Rocha para tentar acalmar o corpo castigado pelas péssimas estradas e os bancos dolorosos do carro, isso já passavam das duas horas da madrugada.

As 4 horas da manhã uma parte conseguiu negociar com o pessoal da pensão Rocha para fazer o banho outros não. E mesmo assim partimos para Nhamapaza onde o Presidente inaugurou a extensão da energia eléctrica algo que acontece pela primeira na história daquele povoado. À nossa chegada, procuramos sítio para o matabicho e indicaram-nos a barraca Sobra de Mbuzine da dona Tina. Logo as 7 horas ela serve como matabicho arroz ou xima com galinha cafreal e dobrada. Não tinhamos escolha pois não sabiamos quando teriamos a próxima refeição. Alguns dos que não conseguiram fazer banho em Caia, tentaram pedir nas residências particulares de Nhamapaza mas a falta de água que aponquenta aquela região não permitiu satisfazer o nosso desejo.

De Nhamapaza seguimos para a vila de Marínguè. Depois das reuniões acompanhamos o presidente que decidiu caminhar pelas ruas daquela vila. Aqui foi onde ganhei mais uma recompensa. Conhecer um Marínguè que nunca tinha ouvido falar. E de jovens que através do comércio procuram reverter a sua história de pobreza. Alguns mostraram as pequenas e degradas barracas que lhes têm permitido ganhar a vida e com orgulho estarem a construir outras barracas convencionais e maiores. Outros que de pequenas pensões estão a evoluir para pensões maiores e com melhores condições e até expandir o negócio para outros locais.

Foi agradável ver Marínguè que luta para deixar para traz os anos de um passado sangrento e a abraçar um presente de busca incensante pela prosperidade.

De Marínguè já depois das 20 horas partimos para Inhaminga, a vila sede do distrito de Cheringoma. Usamos a EN1, entramos por Phiro deixando a Serra da Gorongosa do lado direito e mais uma vez pela Casa Banana. Chegados à vila, passava da uma hora da madrugada fomos à pensão Safari onde deviamos pernoitar. Já não havia quartos. O pessoal local decidiu desfazer a reserva feita. Fomos ver outros locais e nada. Alguém nos indicou uma tal de pensão Bombinha. Na procura da tal cruzamos por sorte com uma das pessoas que devia nos receber e acomodar. Admirada disse que já não contava connosco. Mesmo assim acordou o colega que nos levaram para o Instituto de Formação de Professores de Inhaminga. Depois de negociações conseguem arranjar colchões que foram colocados numa sala de aula para descansarmos. Felizmente aqui conseguimos água para o banho. Só depois das 3h30 da madrugada conseguimos dormir. As 5 horas tinhamos que partir para Mazamba, que dista 42 km da Vila. E lá fomos trabalhar.

Inhaminga surpreendeu-me por ser uma vila organizada e com o movimento que mostra que está a recuperar os seus tempos áureos, antes da guerra que a devastou, e não entendi porque não é município. Depois do trabalho não haveria outra escolha senão ir dormir na Beira. E desta vez escolhemos usar a via de Muanza até Dondo. A estrada também é péssima. Encontramos camiões transportando madeira enterrados. Precisamos de mais de 4 horas para fazer apenas 177 km. A viagem viria a terminar em Nhamatanda. Uma Vila municipal que por estar ao longo da EN6 teve sempre uma actividade económica intensa.

Definitivamente, a viagem permitiu perceber que o conflito de 2013 a 2016 teve impactos muito negativos na economia e na vida das pessoas na província de Sofala. E a população tenta mostrar com trabalho e determinação que não quer mais a guerra, as pessoas querem dar um rumo diferente para as suas vidas e seus filhos. E urgentemente o governo precisa de repor as estradas da província de Sofala para dar a oportunidade àquela população de lutar pelo seu desenvolvimento.

Que Deus abençoe Sofala.

 


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