Somos culpados, a propósito de um jingle que “bate”

Moçambique foi obsequiado por uma música de um cantor que usa o nome de “Irmão Mbalua”. É natural do distrito de Lugela, província da Zambézia, em Moçambique.

Tem um jingle e um refrão muito simples, que se fixa facilmente nas nossas memórias: o culpado é o namorado dela. Este jingle “bate”, “está em alta”, é “a música do momento”, como se diz na gíria popular. E tudo isso se deve também ao refrão e à restante parte da letra da música, que também gera polémica.

Diz a música, do jeito e até onde pude apreendê-la:

“Aquela moça sempere quando passa aqui, anda isolada, ninguém dali compania, eu admiro do jeito que ela vive mali, parece que ninguém toma conta dela. 2x

Vê o telefone que usa aquela moça usa , é moviteli amarrado com borracha, eu admiro do jeito que ele a vive mali, parece que ninguém toma conta dela.

Culupadu é o namorado dela. 2x. Avarento é o namorado dela, que não satisfaz as necessidades dela.  [Repete-se refrão].

Se fosse quase as garrotas lá na banda iam pulir curação daquele mano, até que ele juraria na verdade, que nunca farei desperezo deste, porque já leva tempo aquela moça soferendo uma tortura perigosa de amore. Contuto isso continua li amando, seu namorado apesar de tudo. Já leva tempo aquela moça soferendo uma tortura perigosa de amore”…

Em diferentes comentários que li, a música foi intitulada “Culupado”. Algumas pessoas são da opinião de que se trata de uma “não música”, porque a letra não diz nada ou, porque está pejada de erros linguísticos. Outras, afirmam que o conteúdo é demasiado machista e outros ainda, têm-na como uma boa música, porque descontrai, ie, “anima”, tal como se tem afirmado entre nós Moçambicanos.

Consultando o dicionário Priberam da Língua Portuguesa (acesso em Julho de 2020), constou-me que música é uma “Organização de sons com intenções estéticas, artísticas ou lúdicas, variáveis de acordo com o autor, com a zona geográfica, com a época, etc; é também a arte e a técnica de combinar os sons de forma melodiosa ou uma composição ou obra musical”, entre outros.

Se considerarmos essas definições, “Culupado” é uma música. Tem sons harmoniosos, que dão um ritmo, não só agradável ao ouvido, como também, bons para se dançar. Os sons foram combinados de “forma melodiosa”, é por isso que o jingle se fixa ao longo do tempo. Essa música até mereceu uma encenação cantada e dançada de Alcy, um artista cómico moçambicano. E a oferta de dois telemóveis ao autor, por parte da Movitel. É lúdica.

E é uma música que diz muito. E que muito é esse? E aí vamos a uma outra definição que diz: “Organização de sons com intenções estéticas, artísticas ou lúdicas, variáveis de acordo com o autor, com a zona geográfica, com a época, etc”. Essa música faz um registo sobre a civilização e mentalidade vividas em Lugela e muitas outras partes do nosso país, nos quais os rapazes, nos ritos de passagem, que incluem preceitos sobre a sexualidade e sobre usos e costumes ligados à vida conjugal, que são realizados tanto para meninos, quanto para meninas, marcando a sua passagem para a vida adulta, é lhes ensinado que devem cuidar e prover as suas mulheres. Sendo que cuidar, significa criar condições para que ela ande sempre bonita, na maior parte dos casos, em Moçambique, deve-lhe comprar sempre capulanas, por exemplo, entre outros bens, para manter ou melhorar a sua beleza e apresentação. A elas cabe, cuidar e seduzir o marido, atraindo-o, encantando-o e mantendo-o sempre enamorado. E cuidar, passa por alimentá-lo devidamente.

Vêm daí as afirmações na música: “eu admiro do jeito que ela vive mali”, “O culupado” é o namorado dela. Pois, se a moça já se encontra em idade de casar, pelo menos é o que aparenta a representação em vídeo, ela já tem namorado. E nessa civilização, o namorado é um noivo, é o homem com o qual a moça se irá casar. Nessa filosofia de vida, não se namora, com a ideia de depois se passar para um outro namorado e por aí em diante. Os meninos e as meninas, nessas civilizações são educados a namorar para casar. E, por causa disso, estando em idade de se casar, assume-se que tenha namorado que deveria cuidar e prover bens com qualidade. É a tradição daquele local. Que é diferente, não melhor, nem pior, que a ocidental ou que aquela que começa a aparecer em alguns círculos nas zonas urbanas, em Moçambique, nas quais, se debatem as questões de igualdade e de equidade de género.

 Entretanto, devo acrescentar, que nesses círculos urbanos, mesmo as pessoas que não tenham sido educadas com a ideia de que os homens são provedores, fazem uso disso, para satisfazerem diferentes caprichos, mesmo assumindo, de antemão, que não se casarão com o/a visado/a. Esse capricho é de ambas as partes, homens e mulheres. E nesses contextos, a assumpção, por parte dos homens, é a de que se pago, posso usufruir da mulher e do seu corpo, como e quando desejar. E a que existe, por parte das mulheres, é, se o homem quiser dispor do meu corpo, deve pagar por isso. Acaba sendo um contrato implícito ou explícito, dependendo dos casos. E repito que estes posicionamentos são diferentes dos enunciados na música de Irmão Mbalua.

O que o cantor pretende destacar é a etiqueta cultural da sua tradição. Cuidar e prover a namorada, fazendo que ela se sinta a melhor de entre as outras mulheres. Acompanhá-la, sempre que possível e dar-lhe insumos de que possa dispor com qualidade. Neste caso, o tal insumo é representado pelo telemóvel, que não sendo da sua tradição, já faz parte. E não cuidar e não prover, é um desprezo, tal como o enuncia em: “Se fosse quase as garrotas lá na banda iam pulir curação daquele mano, até que ele juraria na verdade, que nunca farei desperezo deste, porque já leva tempo aquela moça soferendo uma tortura perigosa de amore”.  Para o cantor, a moça está a ser torturada, mas ainda assim ama o seu namorado. Por causa disso, julgo que a música é um apelo ao cuidado pela mulher, pela sua beleza, pelo seu bem-estar, no contexto daquela tradição e civilização.

O conteúdo da música é machista para as pessoas ocidentalizadas ou para os que acreditam na equidade e igualdade de género. Mas no contexto em que é cantada por Irmão Mbalua, naquela sociedade, cada um tem o seu papel a desempenhar. As dinâmicas de estruturação social definem papeis por género e nem se discutem. Há, entenda-se, uma troca. Provavelmente não seja equitativa, mas é o que ficou definido entre os membros daquela comunidade. E é aceite. Admito que com o tempo isso possa mudar, porque as culturas não são estáticas.

No contexto de divisão de papeis por género ou na partilha de deveres e de responsabilidades, para mim, o problema surge, apenas quando se atentam os direitos e a dignidade humana. Parece-me que, tanto no ocidente, quanto nas nossas sociedades tradicionais, nunca será possível que esses deveres e responsabilidades sejam partilhados de modo equitativo, nem igual. Haverá sempre alguma desigualdade. Além disso, o problema surge ainda, quando a desigualdade gera injustiça, submissão ou exploração de uns por outros. Se não for o caso, se houver aceitação, o caminho é continuar-se com o relacionamento. Ou então, em contextos de introdução de novas dinâmicas sociais, nas quais se alternem ou se alterem os papeis sociais, desde que aceites, não vejo motivo para alaridos. Faço essa afirmação alicerçada pela perspetiva de um princípio, dos Estudos Culturais, que preconiza que a análise das culturas deve optar por descrevê-las e não estabelecer subalternidade entre umas e outras.

A outra questão colocada relativamente a essa música é a dos erros de língua. Não vejo problema algum neles, porque a língua é o que os falantes falam e não o que a gramática pretende que seja. Por mais tratados gramaticais que existam, as pessoas sempre falarão em função dos seus contextos e do que aprenderam. E no caso de uma música, há representação de um falar de um determinado contexto, pelo que nada há a protestar. Haverá, se assumirmos que faz parte da beleza estética o bem falar. Mas o bem falar é relativo pois, se se tratasse de um texto de carácter oficial, para ser utilizado numa escola ou numa instituição, aí, sim, em Moçambique, a norma exigida é a europeia. E aí, os erros linguísticos seriam um assunto a ser corrigido, nesse contexto oficial. Mas digo isso com “todas as pinças na mão”, porque me pergunto: corrige-se uma obra de arte? Não sei. Além disso, mesmo em contextos profissionais, há ressalvas a serem feitas, por exemplo, no que diz respeito à publicidade, área na qual se tem estado a adequar a linguagem ao contexto no qual ela é utilizada. Portanto, esse assunto é discutível.

Por estas e por outras questões, que agora não me ocorrem, julgo que o Irmão Mbalua, anima os corações dos seus fãs, especialmente, nesta época em que diferentes formas de provocar alegria são aceitáveis; pelo que ele não se deveria sentir culpado pela polémica em torno da sua música! Os culpados somos nós que não conhecemos os contextos e as subtilezas das nossas culturas. A sua música é uma obra de arte. Agora, se o produto é de “alta qualidade” artística, ou se é uma “grande” obra de arte, eis a questão! Que se discuta, a partir de pressupostos estéticos.

 

Sara Jona Laisse, docente de Cultura Moçambicana. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

 

Vem de Movitel, companhia provedora de telefonia móvel.


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