Somos culpados, sim Sara Jona*

Gostava de contribuir para o debate iniciado por Sara Jona Laisse, no jornal O País, de 29 de Julho do corrente ano, em torno da música “culupado”, de irmão Mbalua.

Eu sou um cidadão moçambicano que preza muito a sua cultura, a nossa moçambicanidade, ou seja, um indivíduo que, sabendo que estamos numa era globalizada, aprende de outras culturas, tudo de bom para agregar valores à pessoa. Prezo valorizar o que é nosso, isto é, tudo o que o país oferece de positivo. Parece-me que, de facto, no "mundo não existe uma cultura melhor do que a outra", cada uma é genuinamente assim como é. Por exemplo, aprender Português, Inglês e Francês, é tão bom como aprender changana, matsua, bitonga, sena, ndau, tewe, chiungue, chuabo, makua, jawa e nyandja. Nós sabemos bem falar as nossas línguas maternas, mas os nossos filhos não sabem nem dizer bom dia, o que será destes quando não estivermos mais aqui?

Agradeço à Sara Jona pela grande partilha de conhecimento e ensinamentos dados, no seu texto intitulado “Somos culpados, a propósito de um jingle que “bate”. Concordo com tudo o que ela explicou cientificamente, no que concerne a música do irmão Mbalua e, ressalvo que não sou melhor do que ninguém em tudo, nesta vida, e muito menos na interpretação dos aspectos das nossas culturas. No entanto, eu percebo que os artistas verdadeiros (genuínos) são dotados de dons divinos para fazer chegar ao povo mensagens para melhorar as suas vidas em todos os aspectos. Estas mensagens, muitas vezes, são passadas de diferentes formas, através de recriações de linguagens, imagens, etc, para atrair o maior número de pessoas.

Os artistas utilizam muitas vezes comparações e metáforas para transmitirem as suas mensagens. Ora vejamos, alguns exemplos, quando a Dama do Bling diz na música "Lágrimas de Mãe", "seremos sogra e nora rivais que convivem na mesma casa, mas vivem como animais", para mim para além de estar a falar desta grande verdade e realidade do nosso país (disputas entre sogra e nora), está a dizer também, basta que sejamos gente, não interessa a cor, raça, género, religião, favorecidos ou desfavorecidos, somos todos irmãos, independentemente da nossa consanguinidade e, devemos nos ajudar e cuidar uns dos outros em todos aspectos. Já a música "o outro Lado da Lei" fala sobre o polícia, mas para mim a mensagem é, todas as profissões são importantes e devem ser respeitadas, ou seja, devemos confiar, agradecer e enaltecer os nossos profissionais condignos.

O irmão Mbalua, na sua música diz que "o culpado é o namorado dela" e apela para que este cuide da sua namorada. Para além de estar a falar dos namorados, no geral, ele faz um apelo a sociedade, para que cuide e ame, cada vez mais, cada um ao seu próximo. Por exemplo, devemos cuidar mais dos nossos pais, irmãos, primos, amigos, conhecidos e das pessoas em geral, para tornar melhor a vida na sociedade. Ele pede para resgatarmos alguns valores sociais e culturais que estão quase se encontram perdidos.

Nas nossas sociedades tem se verificado que se vive a moda "cada qual por si e Deus por todos". Para mim o culpado somos todos nós que estamos a tornar a sociedade uma lástima. Por exemplo, quais são as nossas práticas na sociedade? Será que amamos e tratamos o próximo como deve ser? Será que somos exemplares no que dizemos e fazemos? Alguns de nós têm conhecimentos, habilidades, posses que poderiam ser partilhados para ajudar os outros que precisam, mas não fazemos isso. Outros criam os seus petizes com mimos exagerados e sem limites.

Penso que a educação é dada em casa e a escolarização na escola, não esperemos que os meninos aprendam a dizer obrigado na escola, aprendam a trabalhar na escola, aprendam a respeitar as pessoas na escola e aprendam a praticar boas obras na escola. A criança é o adulto que teremos amanhã, elas nascem sem formatações, tanto para o bem ou mal, nós é que colocamos tudo nas suas cabeças.  Na minha opinião devemos refletir e agir urgentemente, pois ainda há tempo de mudar o cenário, resgatar a sociedade, pois o impossível não é um facto, é apenas um evento. Penso que juntos podemos tudo, basta que cada um, na sua casa, no seu espaço, onde quer que esteja, faça a sua parte. 

IRMÃO MBALUA muito obrigado por tudo, porque o senhor está a fazer a sua parte, chamando-nos atenção para acordarmos desse sono diabólico (estamos a deixar o mal ser normal) e não fazemos nada. Não podemos continuar a fazer as coisas do mesmo jeito hoje e esperar resultados diferentes amanhã. Este é, para mim, o apelo que a música traz. Paremos de criticar desnecessariamente e agreguemos valores aos nossos grandes feitos. Por causa da pandemia, muito tempo passamos em casa com a nossa família, aproveitemos para começarmos junto dela, a mudar a sociedade de hoje e, quiçá de amanhã. 

Perguntei à Sara Jona se julgava válida as ideias soltas que deixo neste texto e se achava bem publicá-las, por reconhecer nela uma figura pública credenciada e preocupada com a valorização cultural, no nosso país e que poderia avalizar o meu trabalho e ajudar-me a torná-lo público. Julgo que ela está interessada em ajudar a sociedade, partilhando o seu saber e opiniões; pelo que gostava de colaborar com ela no âmbito do enaltecimento das nossas culturas.

 

*Manuel Chironda. Contacto: mschironda@gmail.com.


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