Soweto Blues

É inevitável começar este tributo com uma alusão à minha infância e ao tempo em que, na remota cidade portuária de Nacala, eu ouvia compenetrado “Soweto Blues”, vezes sem conta, na bela voz de Miriam Makeba, por vezes melancólica, como naquele caso, sem imaginar, no entanto, que quem tinha escrito aquela letra e quem tinha composto aquela música, que tanto me arrebatava, era Hugh Masekela. Nesse tempo nem sequer ouvira falar de Masekela. De Makeba, sim, ouvira falar, e cultivava-a, sobretudo por causa de “Pata Pata” ou  “Malaika”. O mais famoso artista sul-africano na época, curiosamente, era Steve Kekana. Só muito mais tarde, é que soube que “Soweto Blues”, esta música de protesto, este libelo acusatório contra o regime segregacionista do Apartheid, que proibira Xhosa, Sotho e Zulu nas escolas, impondo o Afrikaans como meio de instrução, era do trompetista, compositor e cantor que eu viria a ouvir, obsessivamente, vinte anos depois. Foi através do disco Hope que eu me tornei um incurável admirador de Hugh Masekela. Vivíamos o tempo da esperança e Nelson Mandela tornava-se Presidente da África do Sul, o sonho da liberdade era partilhado, a luta dos sul-africanos era nossa luta, os heróis e os seus mártires eram nossos mártires. Masekela foi talvez, de todos os músicos sul-africanos, o mais solidário. Falou de Moçambique e dos moçambicanos em todos os espectáculos que fez e em que cantou “Stimela”, provavelmente a sua música mais emblemática, aquela que melhor lhe consigna a condição de activista, militante, lutador, a par de “Bring Him Back Home” (Nelson Mandela). Outros músicos vinham a Moçambique e eram solidários: Dollar Brand, aliás Abdullah Ibrahim, tocara em Maputo “Mannenberg”, Miriam Makeba cantara para Samora Machel “A Luta Continua”, Letha Mbulu e Caiphus Semenya tocavam abundantemente na rádio. Não me esqueço de “Angelina”, de Semenya. Para os mais velhos, havia a reminiscência da voz e do canto de Dorothy Masuka. Mais tarde, viriam Brenda Fassie e a sua exuberância, PJ Powers haveria de cantar na Machava, Johnny Clegg haveria de arrebatar plateias, ou Sipho Mabuse com o seu “Jive Soweto”. Vi pessoalmente Masekela em Maputo, naqueles exultantes anos 90, ali na Associação Txova Xita Duma, numa jam session inesquecível. Ele cantara e tocara com vigor e de forma tão arrebatada.

Na vetusta TVE, predecessora da TVM, recordo-me de ver um espectáculo, hoje mítico, realizado em Harare, a 14 de Fevereiro de 1987, de apresentação de Graceland, de Paul Simon. Simon gravara, nos estertores do Apartheid, um belíssimo álbum com músicos sul-africanos. Miriam Makeba cantou “Soweto Blues”, a música que Masekela fizera para ela. Hugh Masekela cantou “Bring Him Back Home” (Nelson Mandela) e “Stimela” com aquela sua força telúrica. Ray Phiri, que morreu o ano passado, estava na viola solo. Masekela impressionou-me ali. O seu punho cerrado, uma imagem que me lembrava uma fotografia famosa de Peter Magubane, um outro sul-africano icónico, a sua voz poderosa e o seu trompete singularíssimo. Ainda usava cabelo grande e tinha, como sempre teve, aqueles olhos impressivos, esbugalhados. Tinha 48 anos, com quase 30 anos de exílio, de combate nos palcos do mundo. Vê-lo a cantar “Stimela”, com aquela força da natureza, com aquela energia, fez dele um dos músicos sul-africanos que eu haveria de cultuar. Eu nunca vira algo assim. Era extraordinário, era libertador. Aquele espectáculo de Paul Simon foi um marco na minha vida. Aquele disco de Paul Simon foi um acontecimento para mim. Decerto, prenunciava um novo tempo e estava inscrito nele a esperança. Nós vivíamos na ânsia de ver Nelson Mandela liberto e Graceland, e a incursão de Simon pela música sul-africana e com os músicos sul-africanos parecia um sinal inequívoco de que algo iria acontecer. Isso só viria a suceder em 1990.

Hugh Masekela: “There is a train comes from Namibia and Malawi/ there is a train that comes from Zambia and Zimbabwe. / There is a train that comes from Angola and Mozambique. / From Lesotho, from Botswana, from Swaziland. / From all the hinterland of Southern and Central Africa. / This train carries young and old, African men/ Who are conscripted to come and work on contract/ in the golden mineral mines of Johannesburg/ And its surrounding metropolis, sixteen hours or more a day / For almost no pay. / Deep, deep, deep down in the belly of the earth”.

A letra e a música têm uma força e a interpretação de Hugh Masekela é inesquecível. Ele cantou esta música não sei quantas vezes e sempre com uma energia inesgotável. Cantou-a até ao fim. Era a música da sua causa maior: a injustiça. Para além de a cantar, era seu hábito fazer um discurso sobre os explorados, sobre os espoliados, sobre os oprimidos, sobre a liberdade, o valor da liberdade, sobre os mártires, sobre os que tinham morrido nas minas ou na luta. Para além daquele dia ali  no Txova, vi-o cantar e tocar outras tantas vezes, na Cidade do Cabo ou em Joanesburgo. Há cinco anos, no Kippies – que assim se chama em homenagem a Kippie Moeketsi -, com a sala completamente cheia a cantar e a dançar, Masekela fez uma extraordinária homenagem a Miriam Makeba, sua companheira de vida e de luta. Os sul-africanos amavam-no. Pretos, brancos, indianos, mulatos, eu sei lá, ali, naquele momento, acreditei na Nação arco-íris que Mandela inventara. Isto foi em Março de 2012. Em Abril de 2015, estava eu a almoçar com o meu saudoso amigo António Pinto de Abreu, em Joanesburgo, e vimos o Masekela a atravessar o pátio e tivemos o impulso de o ir cumprimentar. Masekela era um homem que recusava a condição de vedeta. Fácil no contacto. Fraterno.

Esta manhã, de 23 de Janeiro, chega a notícia do seu passamento. “Stimela” e a sua força, para além de outras músicas, que são uma fusão de vários ritmos, sobretudo da música dominante das townships da África do Sul, como mbhaqanga, marabi, jit e kwela, numa alquimia com o jazz, voltam à minha memória. Os obituários são unânimes: morreu o pai o jazz sul-africano. A afirmação quadra-se muito à ocasião e facilita na redação dos títulos. Não sendo um dislate, encerra uma imprecisão. Aquilo que se chama jazz sul-africano aqui, que é mais fusão de ritmos sul-africanos, sobretudo o kwela e o mbhaqanga, pode reclamar outras paternidades. Sobretudo de um músico que influenciou o próprio Hugh Masekela na juventude e que tocou com ele: Kippie Moeketsi (1925-1983). Para além deste saxofonista que era visto como o Charlie Parker sul-africano, cabem como pais do jazz sul-africano outros companheiros de Masekela: Abdullah Ibrahim (1934), Basil Coetzee (1944-1998), Jonas Gwangwa (1937), entre outros. No poema “À Paris”, de Rui Knopfli, do livro Mangas Verdes com Sal, de 1969, onde ele começa dizendo “O meu Paris é Johannesburg”, o Rui, que era um conhecedor e cultor de jazz, escreve a páginas tantas: “Depois do turkish coffee meto-me/ até ao Cul de Sac e fico-me/ a ouvir o sax maravilhado/ de Kippie Moeketsi. O jazz, sim, / é genuíno e tem um bite/ todo local.”

Os músicos sul-africanos ouviam com denodo os nomes legendários do jazz americano e tentavam imitá-los ou glosá-los. Na sequência do massacre de Sharpeville, que haveria de inviabilizar a digressão dos Jazz Epistles, onde tocava Masekela, de que fazia parte Dollar Brand (mais tarde Abdullah Ibrahim), tendo-se tornado impraticável fazer espectáculos, dado que o regime, temendo levantamentos populares, proibira ajuntamentos, o trompetista decidiu ir justamente para a América. Lá encontraria os seus demónios tutelares. José Craveirinha escreve “Cântico do Pássaro Azul em Sharpeville”, um notável poema publicado em Karingana ua Karingana: “Os homens magros como eu/ não pedem para nascer/ nem para cantar. / Mas nascem e cantam/ que a nossa voz é a voz incorruptível/ dos momentos de angústia sem voz”. “Mas homens somos / e com mesmíssimo encanto magnífico/ aqui estamos/ na vontade viril de viver o canto que sabemos”. Esta “vontade viril de viver o canto”, como diria Craveirinha, leva o jovem Hugh Masekela, aos 21 anos, aos Estados Unidos ao encontro de Dizzy Gillespie ou Duke Ellington. Seriam Dizzy e Armstrong (Louis), os deuses do trompete, instrumento que ele começara a tocar aos 14 anos, com quem conviveu nos circuitos do jazz americano, que o incentivariam a buscar o seu estilo com base nas influências africanas. Também se cruzou com outro deus do trompete: Miles Davis. Aquilo que ele inventou e de forma prodigiosa foi um som próprio, inconfundível, capaz de captar, nas várias fases da vida do seu país e povo, o que lhe era distintivo. Chamam-no jazz à pressa. Tem influência de jazz, sim, mas é outra coisa. Tem ali fusão de ritmos, desde o afrobeat ao kwela. O que influenciou alguns outros músicos africanos, como o nigeriano Fela Kuti. No livro autobiográfico, Still Grazing, Hugh Masekela explica a origem da influência do jazz. Bandas locais como Jazz Maniacs, Harlem Swingters, Merry Makers ou Merry Blackbirds tocavam músicas famosas americanas. Eles ouviam Louis Armstrong, Count Basie, Duke Ellington, Cab Calloway, entre outros. A sua avó Johanna, zelosa e temente a Deus, achava uma blasfémia pôr a tocar tal música em casa, pelo que o neto, cuja relutante paixão pela música se havia tornado numa obsessão, ouvia o que tocavam os gramofones dos tios e dos vizinhos. Ramapolo Hugh Masekela nasceu em Witbank, a 4 de Abril de 1939. Conviveu muito cedo com o drama dos mineiros que vinham de Moçambique e Angola, com promessas de uma vida maravilhosa, e que se viam defraudados, trabalhavam duramente por salários de miséria (almost no pay). Muitos morriam com problemas pulmonares, de tuberculose, ou de acidentes. As bebidas alcoólicas e a violência que se vivia no contexto em que cresciam marcaram-no para sempre. Ele falou durante toda vida destes mineiros explorados e espoliados, destes trabalhadores com contratos miseráveis, das mulheres que andavam com cargas à cabeça à berma dos comboios de carvão, falou desses explorados, lutou por eles, clamou por eles, lembrou-se toda a vida deles, onde quer que fosse. As causas que foram sempre suas e os ritmos que ouviu na infância, cruzados com a sua paixão irredimível pelo jazz, estão na origem de um som que ele inventou, transfigurando-se ele próprio, como deus do trompete, como tinham sido os seus mestres como Dizzy Gillespie.

“Uptownship”, “Grazing in the Grass”, “Lady”, “Languta”, “Marketplace”, “Ha Le Se Li Khanna”, “Mama”, para além dos citados “Soweto Blues”, “Bring Him Back Home” (Nelson Mandela), ou “Stimela”, são registos insofismáveis do seu talento e do seu génio, da sua exuberância no palco, da sua poderosíssima voz. Para além de uma forte presença, o que avulta desta vida de 78 anos é a sua obstinada luta anti-apartheid, no seu fulgor arrebatado, no seu sopro inconfundível, na sua voz audível, nos ritmos que se mesclavam, entre jazz, afrobeat, as vozes e os cânticos da África do Sul, ou nos sonhos e na ânsia dos povos da África Austral, cuja voz ele emprestou no seu inconformismo até ao fim. Cantou a luta anti-apartheid, mas não deixou de intervir após o fim do regime. Foi homem de todas as causas. Denunciou a xenofobia quando os sinais ainda eram ténues. Foi um africano universal. Sempre combativo. É, sim, indubitavelmente, um dos fundadores do que se convencionou chamar jazz sul-africano, com Moeketsi, Ibrahim, Coetzee, Gwangwa, lugar onde avultam hoje nomes como Sibongile Khumalo, Lira, Simphiwe Dana, McCoy Mrubata, ou onde avultavam nomes como Sipho Gumede (1952-2004), Zim Ngqawana (1959-2011) ou Moses Molelekwa, que morreu em 2001, aos 27 anos. Dos grandes vultos tutelares, sobrevivem-lhe Jonas Gwangwa e Abdullah Ibrahim, sendo Gwangwa mais ao ritmo kwela e Ibrahim o mais purista de todos. Este ano, em Novembro, passam, curiosamente, 10 anos sobre a morte de Miriam Makeba, com quem Masekela esteve casado, entre 1964 e 66, e para quem ele escreveu e compôs “Soweto Blues” – facto curioso: Masekela nunca cantava “Soweto Blues” -, que eu ouvia, com indisfarçável arroubo, na minha remotíssima cidade de Nacala, nos finais dos anos 70, sem imaginar que se tratava de umas músicas exemplares e emblemáticas de Hugh Masekela.

 


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