Tete – o lugar de Ana Mafalda Leite

Ao Cremildo Nota e Romeu Artur, Tete também é nosso lugar.

 

Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar.

Bernardo Soares

 

“Como se a manhã do tempo despertasse”, “Poemas de Moatize”, “Outras fronteiras: fragmentos de narrativas” – igualmente título da obra – e “O Índico em Marrakesh”. Estas são as quatro partes que compõem o recente livro de Ana Mafalda Leite, lançado no Brasil, pela Kapulana, e em Moçambique, pela Cavalo do Mar.

Logo nos textos iniciais, a autora deste Outras fronteiras: fragmentos de narrativas apresenta um afã literário concretizado com muito afinco, daí o equilíbrio entre o saber, a vocação e o sentido sensorial sobre as coisas. A partir disso, é recorrente a entrega dos sujeitos textuais na enunciação do afecto pelos objectos e lugares (enquanto tradutores de uma atmosfera específica) com realce para as emoções consequentes. Nada disto é feito de forma linear ou absoluta. Pelo contrário, tudo sucede com recurso ao retrato fragmentado das circunstâncias e do que as mesmas significam, numa aposta quase obsessiva quanto à revisitação de contextos particulares.

Numa entrevista cedida ao jornal O País, este mês, Ana Mafalda Leite afirma que, com o seu livro, quis colocar Moatize no mapa literário. De facto, ao ler-se Outras fronteiras fica-se com esse entendimento, afinal aquele distrito de Tete aparece amiúde apresentado como a síntese do que realmente importa: a casa grande, sem número ou inumerável, o sítio de onde se parte e para onde se regressa.

Ocupando Moatize uma dimensão muito privilegiada na memória de Ana Mafalda Leite, na verdade, é apenas uma porção do que a província de Tete, com destaque para as zonas frias do norte (Macanga, Angónia, Marávia), representa para a autora que lá viveu o limiar da existência: “No princípio havia chauta (deus) e a terra parada/ um dia um relâmpago imenso desenhou nos céus/ a chuva/ que trouxe à terra o homem e todos os animais// pousaram nos planaltos da marávia e da angónia” (p. 33).

No excerto acima e noutras passagens do poema “A lenda da criação” está explícita a visão cosmogónica do sujeito poético, a quem cabe a reformulação da origem da humanidade, das suas circunstâncias, logo, da vida na terra.

Além disso, na fixação por Tete, Ana Mafalda Leite versifica elementos importantíssimos da oralidade nyungwe e nyanja, especificamente concernentes à cultura nyau (a qual implica a dança com o mesmo nome considerada Património Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO), os ritos de passagem e as crenças atinentes à vida após a morte. Do mesmo modo, há aqui um trabalho sobre identidades que rompem fronteiras, espaços condicionantes da liberdade de ser e de existir. A visão da poetisa, nesse sentido, é holística ao estilo antropológico. Por isso Outras fronteiras mescla erudição vivencial com os domínios culturais, sociais, históricos e geográficos. Há-de esta a razão do livro ser rico do ponto de vista do movimento: de Moatize para Marávia, de Macanga para Angónia ou do Centro de Moçambique para o mundo.

Chegados aqui, ocorre-nos essa frase extraída de O livro do desassossego, de Bernardo Soares: “Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar”. É uma posição complexa esta de um dos heterónimos de Fernando Pessoa. Aqui é invocada porque em Outras fronteiras escapa a sensação de que os homens vivem conhecendo-se mal como povo e como espécie. Então o convite não poderia ser outro, senão o de pensarmos e repensarmo-nos a partir dos lugares a que pertencemos até um domínio mais amplo. Por essa via, Ana Mafalda Leite cumpre a importância de fazer da literatura um instrumento de compreensão de especificidades locais, de modo que o todo faça mais sentido.

Título: Outras fronteiras: fragmentos de narrativas

Autora: Ana Mafalda Leite

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 15

 


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