Um copo de vinho

Esta tarde, dei o meu passeio habitual por um bairro antigo, com casas pequenas –T1, do século XIX. Muito pitoresco e lindo de se contemplar. Os holandeses tornam a coisa ainda mais prazerosa porque eles raramente fecham as cortinas. Tive então a oportunidade de espreitar o interior de algumas delas.

Um homem baixinho, todo ele vestido de preto, óculos escuros, pedalava em minha direcção. Deu-me um sorriso enorme e disse “olá”. Respondi-lhe com um sorriso.

Escassos metros mais à frente, uma casa chamou-me a atenção pela arte e plantas espalhadas ao longo da janela. Dei uma olhada para o interior. Parecia hippie; até tinha uma cascata artesanal, pequena e bonita. Continuei a andar, e quando olhei para trás, lá estava o homem simpático, outra vez sorridente. Ele parou e disse:

Olá, chamo-me Johan. Vejo como te encanta o bairro… – disse ele em holandês, com um forte sotaque alemão.

É realmente interessante! – retorqui.

Eu moro aqui, e tenho o meu atelier aqui também. Tens de vir ver… se quiseres. Podíamos tomar um copo de vinho.

Aquilo fez-me lembrar a minha imaginária Lisboa (apenas a baixa), com toda aquela gente boa, iminentemente a convidar-te para tomar qualquer coisinha – talvez fosse apenas uma questão de tu mesmo sugerires – em suas casas.

Claro, podemos fazer isso! – E eu estava a ser sincera – deixa-me acabar a minha caminhada. Já volto!

Óptimo!

O corpo dele era daqueles que tremia. Ocorreu-me que pudesse ser um corpo abusado.

Voltei, à procura do seu atelier. Para a minha surpresa, a casa dele era aquela casa hippie que eu havia admirado anteriormente.

A porta estava aberta, pude ouvir um som sul-africano. Aquilo foi certamente para me impressionar – pensei.

Olaaaa – gritei.

Ele veio até à porta, convidou-me para entrar, todo feliz.

A casa estava de facto cheia de pequenas coisinhas. Tudo de pequeno que se possa imaginar, estava lá: pedaços de vidro, estatuelas religiosas e de anjos, velas, cachimbo, chaves, termómetro, latas de cerveja, garrafas, etc.

Finalmente havia um sofá. O sofá era ainda mais escuro que o seu verde escuro, devido a absorção de humidade e tudo o que estava sujeito a cair nele.

A minha primeira impressão foi a de que ninguém merecia aquele tratamento.

Queres beber alguma coisa? Tenho vinho…

Depois de ter dado uma vista d’olhos à sala toda, não me apetecia meter nada na boca que viesse daquela casa.

Ah não, obrigada…

Nada de álcool? Tenho água aromatizada, mesmo boa, com algumas ervas… feita por mim. Gosto de aromatizar tudo, até fruta! Deixa-me mostrar-te a água…

Água com ervas? Parecia bom, mas eu não conseguiria.

Ele dirigiu-se à cozinha e trouxe de lá uma jarra contendo a sua arte. A água era amarelada. Pois, era da fusão – pensei.

Eu continuava em pé, tentando equacionar como me sentar, onde colocar a minha carteira. Era uma sala cheia e suja. Não se conseguia ver a sujidade, a poeira, mas o ambiente em si era sujo. Era demasiado para o escuro.

Depois pensei que devesse ser um pouco mais flexível já que ali me encontrava e ele estava a ser simpático desde o início. Aquilo era o que ele era. Se eu ali me encontrava, tinha de aceitar tudo aquilo.

Oh, até tem um aspecto interessante mas acho que não me apetece beber mesmo nada…

Ok. Eu vou beber um vinhito, então…

A quantidade de vinho na garrafa dava apenas para um copo. Ele deitou o vinho no copo e depois levantou-o, em jeito de “saúde”.

A estas alturas já devíamos estar sentados. Coloquei a minha carteira no meu colo e sorri nervosa, sem querer dar a entender que estava pouco à vontade.

Questionava-me sobre o porquê dele me ter abordado. O que foi que ele viu em mim? Onde é que ele encontrou a ligação para uma amizade?

É verdade que precisámos de um leque vasto de amigos. No entanto, amizade implica troca de energia, conhecimento, cheiro, respiração, frustrações, felicidade, etc. Tudo de uma forma em que ambas as partes entendam.

Então, também moras aqui? Há quanto tempo?

Sim. É minha casa e atelier ao mesmo tempo e moro cá há 8 anos. Vim com a minha ex-namorada, que veio estudar arte. Acabámos, ela foi-se… e eu não me mudo da Holanda! – disse ele, muito convencido, com um sorriso trémulo, abrindo os seus olhos amplamente.

Percebo. E trabalhas aqui? O que é que fazes?

Sou artista, como podes ver. Faço de tudo. Infelizmente não faço escultura, mas pinto quase tudo, incluindo retratos. Vês ali? É trabalho meu! – apontou para um retrato pendurado na parede, com a foto original ao lado. Achei que fosse razoável, nada de extraordinário.

Também faço desenho a lápis… de vez em quando vou conseguindo umas encomendas. Deixa-me mostrar-te o meu trabalho. – ele foi buscar dois grandes álbuns cheios de trabalhos seus.

Vimos os álbuns de forma minuciosa pois ele não queria perder nenhum detalhe, explicando tudo. A maior parte dos desenhos eram da sua cidade. Prédios, montanhas, gente, a vida no geral. Eu gostei da forma como ele desenhava as pessoas próximas umas das outras. Não acho que deva ser tarefa fácil – desenhar gente junta, abraçada, multidões. Confesso que ele o fazia muito bem.

Em todos os desenhos, ele alegava estar neles retratado, simplesmente dizendo: “este sou eu”.

Os desenhos eram tão pequenos que eu não conseguia revê-lo no meio daquela gente toda. Perguntei-lhe por que estava tão certo de que era ele, ao que ele respondeu: “Porque eu estava lá quando fiz os desenhos. Por que razão me haveria de excluir deles?”

Muitos desenhos de pessoas nuas. Ele também se encontrava dentre elas…

Oh, podes ficar com estes! – ele deu-me 3 fotocópias de desenhos bem básicos e o seu primeiro poema em holandês.

Muito sinceramente, eu era capaz de viver sem aquilo. Eram tão pequenos quanto a minha mão, eu mal conseguia ver os detalhes neles, para além de que eram fotocópias.

Ele também desenhava muitos sinais cósmicos e salientava como tudo tinha dois lados: um lado escuro e outro claro; grande e pequeno… – tão simples quanto isso.

Vi muito daqueles álbuns, estava a ficar cansada, ansiosa para mudar de assunto. Fazia-lhe perguntas sobre como é que ele conseguia trabalhar, já que não o imaginava a poder sobreviver do seu trabalho, que era evidente ser escasso.

Ah, eu vendo a maior parte do meu trabalho na Alemanha, onde tenho uma clientela regular – disse.

Ele tinha um filho. Pouco sobre ele foi dito. Vive com a mãe.

Vês aquela máscara?

Sim, também a fizeste tu? Parece real…

Não… acho que vem da Etiópia, não achas?

Por que haveria de vir da Etiópia?

Não sei… os detalhes…

Os detalhes não indiciavam que fosse da Etiópia. Ele deveria ter ido pela técnica da coisa se quisesse ser convincente. Parecia mais da África Ocidental, pelo que me lembro dos documentários.

Acho que tenho de me ir embora…

Ok, foi mesmo um prazer conhecer-te. Espero mesmo poder ver-te outra vez. Para a próxima, mostro-te as fotos da minha família! – ele parecia tão feliz.

Passámos quase uma hora e meia juntos, e o Johan não perguntou nada sobre mim. Nada!

Dei conta de que não tivera sido eu que lhe chamara a atenção. Ele precisava mas é de alguém com quem falar, alguém que apreciasse o seu trabalho. Nem sequer estou certa de que ele tenha sentido que eu pudesse ser a pessoa certa para o fazer. Ele apenas fez do melhor para levar alguém para dentro da sua casa.

Já lá fora, quando nos despedíamos, mencionei vagamente estar a passar por um mau momento, como uma desculpa para não o contactar nas próximas semanas…

Ah stress, eu nunca estou stressado! Eu faço Yoga todos os dias de manhã e dá-me para me sentir bem-disposto o dia todo!

Ele continuou a gabar-se do que era capaz de alcançar em termos de paz interior. Parecia muito cansado, problemático… e trémulo. Nada que fosse puro.

Aliviada, parti. Oh, que dia! Detestei tanto este episódio. Não podia acreditar! Senti que ele tivera arruinado o meu dia.

Enquanto eu caminhava para casa, pensei que deveria arranjar uma forma de me desfazer da sua existência. Mesmo. Não levá-lo no pensamento, para a minha casa, para o meu santuário. Detestei! Não porque queria que a atenção recaísse sobre mim, sobre a minha vida conturbada, mas porque ele usou-me, teve-me à borla, do nada. É verdade que me tenha apercebido disso, que poderia ter saído mais cedo mas não vi nenhum inconveniente em fazer-lhe o favor de lhe ouvir e sentir-se bem. Não vejo nada de mau nisso, objectivamente. No entanto, tudo o que ele tinha para oferecer eram os seus líquidos sujos? Pensava ele que eu era barata, fácil de enganar? Donde é que ele obteve tais sinais?

Chegada à casa, fechei a porta com força e encostei-me à ela como se estivesse a bloquear a entrada a alguém. De repente soltei uma gargalhada. Fi-lo durante a noite inteira, sempre que me lembrasse nele. Ele era maluco, então?!! Não consigo ver outra explicação, a não ser solidão. Mas solidão só, não torna uma pessoa em narcisista. Aos 50, sendo ele espiritual, artista, ele tem de sentir, preocupar-se e estar genuinamente interessado noutras pessoas. Esta é a essência de toda a vida que ele tenta projectar.

Apesar deste episódio, continuarei a falar com estranhos. Muitas vezes fui uma estranha, fiz coisa semelhante a que ele fez – abordar gente apenas para fazer novas amizades. Isso dá-me um sentido de liberdade.

É terça- feira e ainda me riu quando penso nele. Simplesmente não havia necessidade de o conhecer. Ah, a última frase dele: “Por que achas que nos conhecemos? Tem mão de Deus nisto”.


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