Um país chamado dona Berta

«Só os moçambicanos serão capazes de combater

e eliminar a insurgência em Cabo Delgado»

 

Num papel castigado por várias chuvas, colado à entrada da barraca da dona Berta está, com letras ébrias, escrito: «Hoje não há vale!  Só amanhã!»

Ao lado deste  papel que há muito, expulsa gargantas sedentas e mentes esfomeadas  do linguareiro convivio, está um outro, que diz: «Caro cliente, estamos fechados devido a pandemia da COVID-19». E abaixo desta frase, uma adormecida seta, improvisada à caneta,  indica ao portão da entrada da casa da proprietária do estabelecimento.

De facto, fechou!

E só os fregueses atentos adivinham as circunstâncias! 

Continuam  com as  vagabundescas cerimónias, no quintal da vendedeira, pese embora a discrição seja a senha de entrada. Eis a dona Berta, comercialmente reinventada!  O dinheiro é como o combustível diante duma ardente lenha. Quanto mais se tem, mais desejo de o ter!

Maria Alberta da Piedade Dimande, para os amigos, dona Berta, é meretriz assumida que combina a sua profissão com a venda de bebidas alcoólicas num estabelecimento com três equipados quartos  para saciar os apetites carnais da freguesia.

Atenta as circunstâncias, viu o seu corpo, já envelhecido, perder a concorrência face as novatas da mais antiga profissão. Com uma ímpar tranquilidade, recruta e treina novatas e poe-lhas ao serviço da sua gananciosa bolsa.

 Além disso, o sucesso da patroa da mais antiga profissão, deve-se a audácia desta em ter introduzido na sua indumentária, o hidjabi, uma vestimenta exclusiva das devotas discípulas do Maomé.  

Aí, os fregueses movidos pelo desejo de desvendar o que de bom há por dentro daqueles vestidos do islão, vai ela astutamente, engordando os seus envelhecidos bolsos. No mundo de negócios é a  esperança que vende, assim dizem os entendidos na matéria!

Ali, naquele quintal de portão fechado à sete cadeados, é um outro  país,  onde polícia e ladrão são farinhas do mesmo milho.

É uma república unida para desacatar as medidas tomadas pela autoridade, porque ali, a autoridade também é povo. Zé ninguém, em outras palavras!  O álcool e o silêncio ali presidem, qual gato e rato!

Eis o país chamado dona Berta. Um amontoado de individuos com e sem instrução, conscientes mas vacilantes, conspirando contra o seu próprio destino.

Em surdina, de tudo ali se fala.

Fala-se da religião à politica. Entre outros, murmura-se ali da suposta incapacidade do autarca Vahanle; mastiga-se a intimidação e perseguição aos jornalistas e orgãos de comunicação;  cavam-se as raizes da insurgência de Cabo Delgado.

E nascem teorias!  

« Ah, são os muçulmanos os obreiros da guerra em Macomia e Mocimboa da Praia» -  apalpam!

«Há mão externa ali;  é um negócio de tubarões do mundo, sob o impávido olhar de quem de direito!» - indignam-se!

Certo dia, enquanto o  álcool ginasticava os seus cérebros, os tagarelas, errantes, viram entrar  Momade Mulima.

Soldado do Exército destacado para Macomia e depois para Mocimboa da   Praia, Momade Mulima, regressara sem anuência das ordens superiores, vivendo escondido de tudo e de nada!

Ninguém lhe dirigiu a palavra.

Para a estranheza do recém-chegado, todos ali calaram-se!

Sentou-se numa das escassas cadeiras. A dona Berta serviu-lhe «patrão», sua bebida predilecta.

Nada disse.

As palavras não são necessárias diante de uma  tanta perturbação emocional!

Serviu-se de um trago. Em seguida visitou os olhos vacilantes de cada um  dos cerca de dezassete vagabundos ali sentados.

Bebeu o segundo trago!

Com uma inigualável rapidez, devorou o terceiro, o quarto e o quinto trago e divorciou-se da  acanhada garrafa.

Era uma tarde de sexta-feira.

O sol, satisfeito, preparava-se para descansar. Tratava-se de solistício,  período em que os dias são longos e as noites, curtas.

Foi quando a dona Berta o servia do segundo «patrão» que o desertor, começou com o seu calamitoso sermão:

? Talvez me repudiem por ter fugido. Talvez estejam curiosos em saber do terror que passei. Afianço-vos, muita é a  carne putrefacta, sim, putrefacta carne de seres,  outrora homens, mulheres e crianças, essas flores que nunca murcham, que ali, naquele cabo muito mal delgado, cedo murcham.

Bebeu um duplo do seu «patrão», suspirou profunda e tremendamente, e prosseguiu mais revigorado:

? Só os moçambicanos, unidos, serão capazes de combater e eliminar a insurgência em Cabo Delgado. Os mercenários tem seus interesses! Esta duvidosa insurgência,  quanto mais se expandir, geografica e ideologicamente, melhor para os mercenários, pois vão garantir que fiquem mais tempo e assim engordarem os seus mealheiros!  Eles não têm nenhum interesse em eliminar os ataques!

Todos, uns fingindos responder mensagens telefónicas, outros cortando as unhas às dentadas, cabisbaixos,  nada disseram.

Endireitou-se, engoliu o último trago do seu segundo «patrão»,  lançou ferozmente o recipiente e bradou:

? Chega de falácias, seus cobardes! Acham que  é só Cabo Delgado, seus filhos de víbora?!!! Sobre as minhas pobres costas,  está um  gigantesco segredo, que me aranha o sono e os pensamentos.

E como ninguém ousava em responder-lhe, atalhou, agudamente:

- Neste solo pátrio, jazem muitas riquezas naturais; e o apetite do mundo em devora-las  é  ainda muito mais maior. Muito maior, ouviram? Por onde andam os experientes  guerrilheiros da Resistência Nacional de Moçambique? Porque não enquadra-los  urgentemente no combate aos insurgentes?

Havia um sepulcral silêncio que lhe granjeava destaque!

Furioso, levantou-se, qual mestre censurando o desviado proceder dos seus discípulos:

- Ouviram falar de Naparamas? Por onde andam, hein? Porque não ressuscitar os Naparamas, esses poderosos soldados tradicionais?

Jactancioso, o seu discurso tomou para um rumo fraternal:

- Se  não apelarmos  os decisores  a tomarem uma atitude acertada; se  não redobrarmos a solidariedade para com os nossos irmãos de Cabo Delgado, que fogem a pé, desprovidos de bens; então, por causa da nossa  manifesta e insistente indiferença, um dia  acordaremos em chamas,  atacados em  todos os lados,  por tubarões sem escrúpulos, arrivistas,  preocupados em sugar  as riquezas de cada pedaço de carne de terra da nossa  pérola do Índico e nesse dia,  sem honra e nem glória! 

E porque o «patrão» já excessivamente estava a pentear-lhe o juízo, caiu adormecido.

 


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