Um sofrimento por detrás da grande seca que fustiga o “Grande Maputo”

Um sofrimento por detrás da grande seca que fustiga o “Grande Maputo”

As terras estão saturadas. Qualquer movimento, o escapa é poeira. Paisagem amarelada, natureza adormecida e os campos agrícolas não tiveram nenhuma colheita: mais fome para quem tem nela como base de sustento. Já os rios estão calmos e nenhuma corrente de água se move. Nem o “Umbeluze” conseguiu escapar a seca severa que afecta a região metropolitana de Maputo. Esta é a grande seca que perdura já há cinco anos.

Como consequência disso, vários bairros do Grande Maputo sofrem restrições no fornecimento da água. Por isso, as populações desta região percorrem quilómetros e mais quilómetros à busca do precioso líquido.

Na província de Maputo, mais concretamente nos bairros Jonasse e Djuba, os termómetros apontavam para 34 graus celsius e no céu não traz esperança de chuva. As torneiras já não estão visíveis. Aliás, alguns nem se lembra aonde essas haviam sido instaladas. “Desde 2012 não sai água. Estamos a sofrer aqui. Não tem água”. Foi nesta frase que Raquel Vilanculos resumiu o drama por si vivido, durante sete anos que nunca viu saiu uma gota sequer na sua casa.

Se por um lado, alguns bairros da Região do grande Maputo recebem a água de forma alternada, a situação é mais grave ainda em Djuba e Jonasse onde, desde que há cinco anos a barragem funciona a cerca de 30 por cento da sua capacidade, o que eu teve impacto no fornecimento de água e, nalguns casos, e as autoridades tomaram medidas severas. “E numa situação dessas sempre convidamos o cliente a fazer a suspensão do contrato”, relevou Afonso Mahumana, porta-voz da empresa Águas da Região de Maputo.

A nossa equipa de reportagem escalou, primeiro, o bairro Jonasse. Uma senhora que se fazia acompanhar por um adolescente nos chamaram atenção. Eles traziam um “burro” e uma carrinha de mão que continha muitos bidons. Chama-se Raquel Vilanculos. Ela é um exemplo de quem sente, directamente, as consequências da severa estiagem que afecta a região metropolitana de Maputo.

“Por aqui não sai água. Tenho que acordar muito cedo. Por voltas duas ou três de madrugada para ir buscar água”, disse Raquel Vilanculos num tom de frustração.

Porque o local onde buscam água dista a pouco mais de seis quilómetros da sua casa, é com ajuda do “burro” e na companhia do seu filho que vão buscar água. “Tenho um burro e colocamos os bidons que depois carregamos de lá até aqui em casa, mas o exercício é diário porque a água não serve. Por isso todos temos que ir buscar”, disse.

Porque a qualquer momento a resposta ao grito pela água pode vir do céu, Raquel Vilanculos está sempre preparada para recebê-la. “Eu coloquei as chapas aqui na caleira para quando chover a água da chuva cai num recipiente e aproveito-a para lavar roupa, cozinhar e beber. Para piorar nem existe rio por aqui. Não tem nada. Está muito seco”, sublinhou.

Contudo, nem sempre Raquel Vilanculos dependeu da chuva. À entrada da sua casa deparamo-nos com um tanque cisterna, onde costumava armazenar a água, mas para enchê-la são necessários três mil meticais, dinheiro que é proveniente da agricultura e com a seca, todas as culturas cederam para a seca.

“Este ano não tem nada. Tenho Machamba em Namaacha, nada tenho. No princípio da época lancei várias sementes na expectativa de colher alguma coisa, mas não consegui nada. Assim nem sabemos o que vamos comer”, lamentou Raquel Vilanculos com um olhar

Quem também está refém do exercício de percorrer quilómetros à busca de água potável é Cecília Baulene. Ela revela que nem é sempre é fácil fazer o percurso de seis quilómetros diariamente, por isso também opta em armazenar a água da chuva para o consumo.

“Bebemos a água da chuva. Não temos o que fazer. É suja como não bebemos. Com medo de doenças também. Às vezes crianças passam mal de diarreia e nós suspeitamos essa água”, apontou Cecília Baulene, residente de Jonasse.

Do outro lado de Jonasse, localiza-se o bairro Djuba. Por aqui, o problema de restrições de água encontra eco, o que muda são apenas as personalidades.

Eliana Olga tem 30 anos de idade. A mãe de sete crianças conta que a água sai de vez em quando, e no dia que sai aproveita o máximo porque não se sabe quando voltará a mesma voltará a jorrar na sua torneira. Enquanto isso, tem que poupar a pouca água que conseguiu.

“Para nós apanharmos água é difícil. Assim que saiu ontem, assim não temos água e nem sabemos quando voltará a sair. Até o tambor que tem água, eu posso carregar porque a pouca água que consegui, nem chega um bidon de 20 litros, nem sei o que vou fazer”, revelou desesperadamente, Eliana Olga.

A nossa fonte revelou que há dias que para cozinhar pede cinco litros de água nos vizinhos de boa-fé que ainda tem um pouco nas suas reservas à espera do dia incerto que o líquido precioso vai jorrar nas suas toneiras.

“Se não emprestar bidon nos vizinhos, hoje está mal. Se amanhã não sair, vamos passar mal até ao dia que sair. Às vezes me é difícil cozinhar por não ter água. Crianças dormem sem tomar banho e com roupa suja”, acrescentou.

Mais para o interior de Djuba, a situação é mais dramática ainda. Por aqui, há quatro anos que as torneiras não deixam escapar uma única gota de água. E quando chove...“Graças a Deus. Tem que levar os bidons pôr ali nas chapas de zinco para captar a água da chuva e como não temos tanques e nem como comprar água usamos essa água para beber e os afazeres de casa”, revelou João Muchanga, residente de Djuba

Em meio a tanto sofrimento causado pela escassez de água, alguns não perdem tempo para fazer um negócio. Reginaldo Novela, por exemplo, tem um terreno numa zona baixa de Jonasse onde a água sai com alguma frequência. Foi daí que teve a ideia de fornecer a água a pouco mais de 100 famílias deste bairro.

“Normalmente, 25 litros faço por três meticais porque factura não está fácil. Aqui recebo facturas que variam de 1500 a 2500 meticais. Para dizer que não há como, eu tenho que fornecer água a essa gente e por sua vez tem que pagar para poder pagar a factura”, explicou, Reginaldo Novela, residente de Jonasse.   

O nosso interlocutor conta que vende água para todos. Tanto os que compram em poucas quantidades como os que compram em muitas quantidades. E no dia da gravação da reportagem encontramos Jorge Mathe que nos explicou como compra a água no Reginaldo.

“Nós compramos 1000 litros por 100 meticais. Levamos essa água para os clientes que geralmente pedem em grandes quantidades. Vendemos a água em função da distância, onde levamos, mas uma vez que é aqui perto, vendemos a 500 meticais”, esclareceu Jorge

Nesses bairros, às vezes o desespero na busca pela água toma conta dos residentes que acabam tomando medidas extremas e prejudiciais para a empresa Águas da Região de Maputo: a vandalização de tubos.

E é essa vandalização que provocou, no ano passado, um prejuízo de pouco mais de um milhão à empresa Águas da Região de Maputo além de ter-se perdido mais de 35 milhões de litros. E feitas as contas, a água desperdiçada abasteceria os bairros que se ressentem da falta da água na Cidade e província de Maputo.

“A empresa terá que ainda procurar outros recursos financeiros para poder repor ou fazer a reparação das infra-estruturas danificadas e esses recursos, que são escassos, poderiam ser usados para melhorar o abastecimento de água para outras áreas em que a água ainda não chega”, avançou Afonso Mahumana, porta-voz da empresa Águas da Região de Maputo.

 No que diz respeito às restrições no fornecimento de água nos bairros Djuba e Jonasse, o porta-voz da empresa desdramatizou, dizendo que o problema está com dias contados.

“Nós vamos fazer uma derivação a partir dessa conduta que vai ser conectada a partir da dutora até ao bairro que está mais distante e a mesma conduta vai fazer um pequeno desvio para alimentar o centro distribuidor da Matola-rio. O que vai acontecer é que o volume no centro distribuidor vai aumentar e também aquela população que está mais distante naqueles bairros vai ter a água”, assegurou Afonso Mahumana.   

O assunto de escassez de água na região metropolitana de Maputo foi um dos pontos de agenda da visita do Presidente da República ao Reino Eswatine, o que reforça a esperança de, em breve, haver melhorias no fornecimento deste precioso líquido.

“A primeira pergunta que eu fiz ao querido irmão Vossa Majestade foi se estava a chover ou não no Reino Eswatine e ele disse que estava a chover e muito bem neste ano, o que significa que há alguma abundância e eu logo disse: abra a válvula só por três dias para ver se a barragem dos Libombos consegue encaixar água por a cidade de Maputo, Matola e Boane está com problemas de água e a nossa barragem está agora com menos de 25% do normal e há restrições. Ele disse que vamos falar bem sobre o que se passa e se for possível vamos resolver”, revelou Nyusi aquando da sua recente visita àquele Reino. 

E ao que tudo indica, a resposta do Eswatine não vai tardar a chegar.

“Há uma preocupação muito clara e objectiva tanto é que até finais de Março, as equipes técnicas tem que trazer resultados. A vontade política foi expressa de que sim é preciso disponibilizar um canal de água para Moçambique”, sustentou José Pacheco, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação

No seu novo relatório sobre a situação mundial da água, intitulado “Abaixo da Superfície”, a WaterAid refere que só em Moçambique 46% da população, o que corresponde a perto de 13 milhões de pessoas não tem acesso à água e 65% das pessoas consome água imprópria.

E A situação é mais crítica para os grupos mais vulneráveis. O relatório revela que pelo menos 2500 crianças com menos de cinco anos de idade morrem anualmente por beber água suja.  

A produção insustentável de produtos para a exportação, aliada ao crescente desejo de produtos resultantes do uso intensivo da água por parte dos consumidores é apontado pelo estudo como um dos factores que pode dificultar bastante o acesso das comunidades pobres à água limpa.

 

 


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