Uma palavra em torno da minha saída do Prémio BCI

No dia 25 de Fevereiro, retirei o livro “Saga d’Ouro” do rol de obras candidatas ao Prémio BCI de literatura, em situação de equívocos trazidos a público por alguns “escritores ” que entendiam haver “conflito de interesses” intrínsecos a minha condição de escritor e colaborador da AEMO. Entendo que devo explicar o porquê de colocar entre aspas o termo escritor.

Ao longo da minha carreira literária, tive o privilégio de, ainda em fase iniciática, partilhar momentos de conversa com escritores com maior experiência de vida literária. Dessas conversas, retenho um precioso legado de Eduardo White, que conservo em memória, muito a ver com a atitude que se deve ter enquanto escritor. Dizia-me White, numa dessas distantes cavaqueiras: “ser escritor não é apenas escrever e publicar livros, é acima de tudo uma questão de atitude que se deve ter ao longo da carreira ”.

Ciente desta condição, face ao entendimento de que “um dos escritores é colaborador directo, o escritor Aurélio Furdela, em condição de conflito de interesses”, decidi retirar o livro da lista das obras candidatas ao prémio. A atitude não se deveu, de modo algum, a nenhum acaso de conferir justeza a pseudoapreciação de Pedro Pereira Lopes e companhia. Entendi, sim, que devia resguardar o prestígio do Prémio BCI de Literatura da infâmia que se lutava por mergulhá-lo, um prémio que dura há dez anos.

O Prémio BCI de Literatura foi criado com o intuito de incentivar a produção literária no seio dos escritores moçambicanos. Ora, antes de ser colaborador directo da AEMO, existe em mim a condição de escritor, aliás condição essa que levou a direcção da AEMO a convidar-me para ajudar a agremiação a materializar os seus objectivos.

Nessa mesma qualidade de colaborador da AEMO, ajudei a criar todos os restantes prémios, que hoje Pedro Pereira Lopes, Eduardo Quive, José dos Remédios dão rosto a ideia de que devo ser excluído de qualquer possibilidade de atribuição, por razões meramente extraliterárias.

A ideia de criação dos prémios da AEMO visava, acima de tudo, galvanizar a vida associativa, buscando a sã concorrência entre os membros da AEMO e, por outro lado, atrair outros escritores que, embora não filiados, ajudam a desenvolver a cultura moçambicana, através da sua criatividade literária. Desde esses tempos, confiamos a um júri, constituído por escritores consagrados e académicos –  verdadeiramente académicos –   a tarefa de apurar o vencedor. Para o caso do Prémio BCI de Literatura, que é o de melhor livro do ano, pesam como critérios de avaliação aspectos meramente literários, ao contrário, por exemplo, do Prémio José Craveirinha da AEMO (PJCL), que ainda se ponderam outras qualidades do candidato. Essa foi a tónica da linha dos prémios ao serem criados. Nessas circunstâncias, Mia Couto ganhou o PJCL, sendo Presidente da Mesa da Assembleia-geral (o mais alto órgão da AEMO), e Ungulani Ba Ka Khosa ganhou o Prémio BCI de Literatura, na condição de Secretário-geral (o mais alto cargo executivo). Ora, essa condição de titular de cargos não serviu, de modo algum, para consubstanciar algum conflito de interesses, pois acima de tudo prevalece na literatura a ideia de que somos escritores, membros da AEMO, que gozam dos mesmos direitos, à luz dos estatutos da agremiação. Estamos no campo literário e valem critérios literários. Confiamos no veredicto do júri e, com os vencedores, festejamos a atribuição do galardão, sem ataques, nem ódios estampados nas páginas dos jornais e contas do facebook; claro, isso antes da aparição do Refila Boy da literatura.

Se hoje entende-se que as regras devem sofrer mudanças, existe sempre a possibilidade de revisão do regulamento, bem diferente de perpetrar ataques, autênticas emboscadas jornalísticas, para abalar a decisão do júri com declarações do tipo: “Se os membros do júri estão a pensar em premiar Saga d’ Ouro com o BCI de Literatura, talvez detestem o teor deste artigo. (…) Começo por descartar Saga d’ Ouro, de Aurélio Furdela, pois a mim faz confusão que um autor candidato a um prémio literário integre o grupo que o promove, divulga ou regulamenta como se tratasse de um assessor. Quer dizer, é uma questão de princípios (e eu nem tenho princípios melhores do que ninguém). Ou se trata de concorrer ao prémio ou se trata de o divulgar.”

 Devo dizer ao jornalista José dos Remédios que todos os membros activos da AEMO integram o grupo que o promove e divulga os prémios instituídos pela agremiação. Regulamentar? Todos regulamentamos os prémios. Se for necessária uma revisão dos regulamentos, por que não? Agora, bater-se por coagir a mudança de regras nos derradeiros dias da divulgação do vencedor é mera emboscada, no mínimo, desqualificável, uma importação do paradigma político moçambicano. 

Quando Ungulani ganhou o Prémio BCI de Literatura, eu concorria nessa mesma edição com o livro as Hienas Também Sorriem. Não me foi atribuído o prémio, felicitei-o pelo reconhecimento do júri ao livro Entre as Memórias Silenciadas. Muito recentemente, o actual secretário da AEMO, Carlos Paradona Rufino Roque, na edição de 2018, concorreu com o seu último livro, o romance Carota N’tchakatcha, e ninguém saiu a levantar a questão de conflito de interesses. Hoje, sou um simples vogal, nada igual ao estatuto de Presidente da Mesa ou Secretário-geral, e os co-participantes ao concurso e companhia arreganharam os dentes, destilaram peçonha, a fim de afastar-me do convívio, pois os prémios literários sempre constituíram um dos momentos mais altos do convívio literário ou, pelo menos, assim foi até que entrou em cena um comboio que anda de chinelos, que a todos os vencedores e candidatos procura abalroar.

Embora gritante, esta não é a primeira vez que o literato de comboio achinelado se fez aos carris, antes saiu e apitou três vezes,…e a quarta. Apitou, quando atribuiu-se um prémio a Professora Fátima Mendonça. Apitou contra o prémio conferido a Luís Bernardo Honwana. Apitou, aquando do prémio outorgado a João Paulo Borges Coelho. Agora, apita e deita muita fumaça pelo prémio atribuído a Celso  C. Cossa, ribomba que há conflito de interesses. Outro vício de reclamar por tudo mais alguma coisa, importado da política à literatura. Qualquer associação congrega grupos de interesse, defende interesses colectivos, através de regras estabelecidas. Como se pode impor que uma instituição do género exclua das actividades que promove os membros que colaboram em prol da mesma? Qual é a razão de Eduardo Quive entender que “O caos foi criado pela AEMO? [ que deve ] impedir que os seus colaboradores directos façam parte?” – Grande absurdo

Sendo o Prémio BCI de Literatura o galardão atribuído ao melhor livro do ano, se nos batermos por retirar do certame as obras dos colaboradores da AEMO, ainda teremos a garantia de se estar a apurar o melhor livro do ano? Não foi essa a ideia que norteou a criação do prémio. Entendo que, escondidos na liberdade de expressão, procura-se hoje desenhar um quadrado, para o qual se empurra os escritores a fim de nele habitarem em pensamento, assim torná-los iguais a funcionários públicos, a políticos, ou “académicos” – desses deformados pela escolástica mal assumida, a procura aqui de glória como escritores, já que na academia constituem mera insignificância. Não basta ser alfabetizado para sentirmo-nos escritores. Que livro de referência tem Pedro Pereira Lopes, para hoje autoconferir-se galões de escritor, de regulador literário? Simples menções em exames escolares, de títulos de libretos que assina? Ou prémios em pinhos a quinarem a sorte ao vento, mas que depois ninguém consegue ler tal livro até a décima página? Quem já leu o tal Mundo Grave, da primeira a última página? (Possivelmente os seus próprios estudantes, por razões óbvias.) Não são os prémios literários que fazem um escritor, nem a maledicência faz o homem gozar da liberdade de expressão, pois quem a cultiva vive preso na amargura do rancor e do ódio que sempre saltou a vista dos olhos do novel Refila.

Habituados a refilar contra os políticos, agora confundem a AEMO com a CNE. Basta de politiquices importadas para o mundo das artes. Se não ficou claro, posso desenhar: Uma associação cultural, no sentido restrito do termo, funciona a semelhança de um clube desportivo, amador bem a nosso contexto, contando com a entrega dos seus associados em muitas tarefas do dia-a-dia. Imaginemos que essa febre de “conflito de interesses” venha um dia a chegar ao desporto. Por hipótese, o Ferroviário envolve alguns atletas do clube na organização de um torneio. Pouco antes da realização da prova, vai alguém alegar que quem esteve a trabalhar não organização, divulgação e assessoria da direcção nos afazeres do certame não deve  jogar porque aos árbitros podem favorecê-lo em campo. Este pseudodebate peca, a priori, pelo facto de ignorar a natureza das instituições. A esse nível, de legitimação da criatividade de cada membro-candidato,  os argumentos aplicáveis a CNE, acrescentam patavina a uma agremiação como a AEMO, a AMMO, Núcleo d’Arte, SOMAS ou Ferroviário e Maxaquene.

Que ninguém procure conferir-se mérito a mercê da minha atitude de retirar Saga d’Ouro, pois fi-lo por duas razões: primeiro, para evitar que continuassem a conspurcar gratuitamente o prémio que ajudei a criar; segundo, nenhuma concessão saber-me-ia à glória, depois de toda a vilipendiação. A gula, a vanglória, o ódio e a inveja são matéria de trabalho do escritor nas personagens que cria, mas nunca parte do carácter que o deve marcar. Deixem ao menos o escritor ser diferente, pois merece alguma diferença para sê-lo, é uma atitude e escolha de vida. Deixem-no fora dessa caixa para a qual o empurram, pois, ainda na ressaca dos  Pink Floyd,  We don't need no thoughts control.

 


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