“Uma sociedade só avança quando sabe olhar-se ao espelho”

“Uma sociedade só avança quando sabe olhar-se ao espelho”

Os moçambicanos precisam redescobrir-se de modo que possam saber estar neste mundo. Tal necessidade deve ser acompanhada de uma entrega livre de preconceitos e sem o chamado “politicamente correcto”. Esta é a percepepção de um poeta (que escreveu o seu último livro consciente de que a poesia é liberdade, um lugar onde se busca o conhecimento, de redescobertas e afirmação): Armando Artur, autor que desde os anos 80 viaja pela literatura sem jamais pensar na ideia de que as letras são espaços de evasão. Para o autor de A reinvenção do ser e a dor da pedra, a poesia é uma espécie de fé, e, nisso, uma luz que deve apagar “o medo que reside dentro de nós, principalmente o medo de nós mesmos”. É esse medo que nos leva a vários tipos de fundamentalismos que, infelizmente, pululam um pouco por todo lado. Nesta entrevista realizada à volta do último livro de Armando Artur, o poeta lança propostas sobre como a valorização do ser enquanto sujeito gregário pode ser feita.

 

Publicou, recentemente, A reinvenção do ser e a dor da pedra, um livro que viaja pelo tempo e por um espaço universal. O que lhe ocorreu ao fazer deste livro o que é?

A própria poesia levou-me a esta viagem. Ela, a poesia, pede-me sempre uma explicação com relação aos diversos fenómenos. Convenhamos, explicação poética. Desta feita foi então necessário empreender esta viagem pelo tempo e pelo espaço que habitamos e, inclusivamente, uma viagem pela própria poesia. Creio mesmo que neste livro consegui em grande medida responder às questões que se me colocavam poeticamente.

 

A ideia de “reinventar o ser”, patente no título e nos textos, sugere uma tentativa de o poeta armar-se em construtor da cidadania, cicerone da Humanidade. Quer comentar?

De maneira nenhuma. A poesia como um meio de conhecimento, de interpretação do mundo, para mim, reinventar o ser pode ser sim uma tentativa de procurar (re)conhecer o ser que nós somos como um ente em busca de si mesmo, uma vez que está permanentemente num processo de mudanças. Por isso mesmo penso que precisamos de nos reinventar, para que reconheçamos e aceitemos as mudanças que se impõem dentro de nós próprios.

 

O que mais lhe inquieta, de modo que a reinvenção do ser faça sentido nesta proposta literária?

É o medo que reside dentro de nós, principalmente o medo de nós mesmos. É esse medo que nos leva a vários tipos de fundamentalismos que, infelizmente, pululam um pouco por todo lado e, por consequência, cria-nos muitos entraves no aperfeiçoamento do ser que nós somos, rumo ao desenvolvimento que tanto almejamos.

 

A pedra transporta consigo a imagem de um tempo antiquado. No final das contas, a pedra é dos objectos que há muito acompanha a história do Homem. O que a pedra está a fazer nos seus poemas?

É a metáfora do enrolamento do ser em si mesmo com todas as consequências que advêm dessa realidade. A pedra é aquela que todos nós conhecemos, passiva e serena na sua condição, dorida e nostálgica na sua impossibilidade de não ser outra coisa senão pedra. A pedra é-nos necessária como metáfora de nós mesmos.

Neste livro, coloca-se numa posição transcendente, que lhe permite visualizar as cores da natureza e os “tick tacks” do ponteiro do relógio. Deu-se conta disso?

Não, não me dei conta. É a poesia que tem esse poder de visualizar tudo isso, eu simplesmente sou portador do ente poético que vislumbra essas cores e esse compasso do tempo.

 

O que significa reinvenção, para si, neste contexto literário?

Significa aperfeiçoamento, mudança, transformação, desenvolvimento, conhecimento, liberdade…

 

Na apresentação deste livro, José Castiano disse, a certa altura: “No fundo, este livro é sobre a possibilidade de nos reinventarmo-nos como seres moçambicanos livres, que devem usar a linguagem dizendo-se verdades”. Por que é um poeta preocupado com a liberdade?

Não é uma preocupação com a questão da liberdade. É que a poesia ela em si é liberdade. O Dr. Castiano creio que foi ao âmago da questão da poesia. Ele foi muito feliz na abordagem do meu livro. Aliás sempre admirei o Dr. Castiano nas suas abordagens filosóficas. Creio mesmo que ele foi a pessoa certa para apresentar o livro, tinha que ser uma pessoa com outro tipo de lupas para esgravatar este livro.

 

A reinvenção do ser e a dor da pedra é o primeiro livro seu, depois de cessar as funções de Ministro da Cultura. Sentiu alguma pressão ao escrevê-lo?

Não, não senti, uma vez que nunca parei de escrever. Aliás, eu já publiquei um livro quando estava  em funções. É verdade que, quando estava emprestado à política, não dispunha de muito tempo. Sessei já há quatro anos. Foi o tempo suficiente para eu sistematizar as notas que andei a rabiscar durante esse tempo. De notar que para além do livro publicado tenho mais três por sair.

 

Há um verso que me chama atenção neste livro: “nada seria mais doloroso e pungente do que não ter a memória do futuro” (p. 20). Na sua percepção, ao que o sujeito poético se refere?

Refere-se a necessidade de construir o futuro. Naturalmente um futuro melhor que o dia de hoje.

 

Como podemos preservar essa memória do futuro?

Reconhecendo que é preciso sonhar. Sonhar é sempre bom e necessário, pois inspira-nos ao trabalho visando alcançar esse sonho. Temos que sonhar alto, mas a medida do nosso sono. Mas como o futuro é relativamente inalcançável, vamo-nos contentando com o melhor de hoje com relação ao de ontem. É aí onde reside a memória do futuro.

 

E a do passado? Existe?

Sim, existe. A memória de ontem é perigosa, pois aprisiona o ser num tempo em que já não há mais nada a fazer. É impossível transformar o ontem. O que passou, passou. Mas com a memória do futuro já é diferente. O futuro é sempre uma possibilidade. É liberdade, pois posso influenciar o meu futuro.

 

Para alguns ou muitos autores a literatura é um espaço de evasão. E no seu caso?

Literatura a sério nunca pode ser um espaço de evasão. No meu caso, a poesia é um meio de conhecimento, uma forma peculiar de educação, como diria a Sophia de Mello Andresen. E eu acrescentaria, a poesia é uma espécie de fé. Portanto, a literatura não é um meio, é um fim em si mesma. Mas não quer dizer que ela não participe no processo de transformação do mundo. Essa é uma das suas consequências.

 

Como quer que este A reinvenção do ser e a dor da pedra se imponha nos leitores?

Apenas como uma nova proposta literária para os meus leitores. Tenho dito, modéstia à parte, que o livro é uma boa proposta de facto. Os meus leitores não estão defraudados, tenho consciência disso.

 

Sente que socialmente estamos desgastados, para que a proposta de reinvenção seja cantada em livro?

Penso que sim. Conforme disse atrás, precisamos de nos redescobrir para sermos e estarmos neste mundo. Penso mesmo que precisamos de parar, ainda que seja por um minuto, para refletir sem preconceitos, sem pruridos, e sem o chamado “politicamente correcto”. Uma sociedade só avança quando sabe olhar-se ao espelho.

 

Neste livro há pelo menos dois momentos que vale destacar. No primeiro, textos que acumulam uma preocupação pela terra e pelos homens; no segundo, uma poesia lírica. Tinha que ser assim?

Sim, foi uma viagem longa. Foi uma abordagem sobre o mundo e sobre a própria poesia, através da poesia. Penso que consegui fazer esse liame entre as duas dimensões.

 

Foi um livro de escrita fácil?

Foi muito duro. Apelei em mim muitos dos instrumentos coleccionados ao longo de anos de escrita e leituras. Tenho cá para mim que a poesia moderna quer-se concisa, clara e com conteúdo, acima de tudo. A poesia não pode ser simplesmente um emaranhado de palavras, ainda que estas configurem metáforas, imagens e por aí adiante. Esse tipo de poesia foi muito explorada no século passado. Estamos noutros tempos, noutras abordagens, noutras plataformas…

 

A propósito de novos tempos, estamos a produzir muita literatura nos últimos anos, se avaliarmos pelo volume de livros publicados. Como está a nossa literatura?

Eu penso que a nossa literatura vai bem. É verdade que a qualidade não corresponde com o volume de publicações. Mas é assim mesmo, a qualidade provém do volume de edições. Sinto que no meio de tudo isso há muita qualidade literária, e isso deixa-me confortável. Quanto ao resto, o tempo é uma espécie de peneira, fará o seu trabalho. O que temos que fazer é continuar a encorajar a publicação de mais livros.

 

No passado fomos considerados terra dos poetas. Sente que a nossa poesia ainda impõe-se à narrativa?

Nem por isso. Sinto que há um equilíbrio entre os dois géneros, mau grado a barreira do desconhecimento daquilo que se produz no nosso país. Sinto que temos que trabalhar mais para a divulgação da nossa literatura em geral.

 

Como? O que se deve fazer para internacionalizarmos a nossa nova literatura?

Muita coisa. Mas sei que a AEMO tem um plano ambicioso nesse sentido. Cá estamos nós para ajudar na materialização desse projecto.

 

E qual é o papel de Moçambique e dos moçambicanos na promoção dos nossos autores a nível internacional?

Penso que temos que estar unidos, em primeiro lugar. Temos que estar no mesmo barco. A literatura e/ou cultura é um universo quase que infinito. Todos cabemos lá, apesar das vicissitudes criadas pelo liberalismo, que é intrinsecamente individualista, refletindo-se também nas artes e cultura. Mas os académicos podem ajudar a explicar melhor certas idiossincrasias, nossas. Contudo, penso que com um plano integrado é possível em pouco tempo internacionalizar a nossa literatura. Mãos à obra.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Os bebés de Auschwitz, de Wendy Holden, um livro comovente, que nos remete aos limites da sobrevivência; Recados da Alma, de Bento Baloi, um livro, uma estória repleta de emoções; cinema: Os oito odiados, de Quentin Tarantino, gosto da “loucura” deste realizador, da forma como conta as suas estórias; artes plásticas: quadros de Gemuce, um artista fino que consegue nos levar às nuvens, pedalando; música: os últimos álbuns de José Mucavele e de Wazimbo, adorei simplesmente.

 

PERFIL

Armando Artur nasceu em 1962, na Zambézia, tendo iniciado a sua actividade literária em 1980, na altura com 18 anos de idade. Faz parte do movimento literário Charrua. É membro fundador da Associação Pan-africana de Escritores (PAWA). Foi igualmente Secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Desempenhou as funções de Vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP) e de Ministro da Cultura. Tem os seguintes livros publicados: Espelho dos dias (1986); O hábito das manhãs (1990); Estrangeiros de nós próprios (1996); Os dias em riste (2002); A quintessência do ser (2004); No coração da noite (2007); Felizes as águas (antologia, 2008),; As falas do poeta (2014) e, agora também, A reinvenção do ser e a dor da pedra (2018). É Prémio Consagração Rui de Noronha – FUNDAC e Prémio Nacional José Craveirinha de Literatura.

 

 

 

 


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