Ungulani Ba Ka Khosa distinguido com Prémio José Craveirinha

Ungulani Ba Ka Khosa distinguido com Prémio José Craveirinha

25 mil dólares é taco. E o valor não se estima calculando o que pode comprar, mas, neste caso, pelo simbolismo que transporta. Foi esta a ideia que Ungulani Ba Ka Khosa transmitiu ao auditório que aderiu à cerimónia na qual foi laureado Prémio José Craveirinha 2018, realizada na vila do Songo, no distrito de Cahora Bassa, em Tete, na última sexta-feira.

Visivelmente emocionado quando a Mestre-de-Cerimónias pronunciou seu pseudónimo, convidando-lhe para ir receber o cheque gigante, com aqueles números tão sedutores quando acompanhados das letrinhas mágicas USD, o escritor levantou-se com prontidão, virou-se para o público – maioritariamente constituído por alunos da escola secundária trajados de uniforme verde e branco –, levantou bem hirtos os braços como se festejasse um golo decisivo, que os mambas nunca marcam, e sorriu, como se gritasse: “o taco é meu. É meu e agora é que aqueles dois quartos que estou a construir com a minha mulher em Marracuene finalmente terminam”. O que até aí era uma cerimónia formal, com protocolos, foi transformado por Ungulani num encontro de amigos, gerando gargalhadas acompanhadas de palmas espontâneas.

Foi naquele ambiente que Ungulani Ba Ka Khosa recebeu o reconhecimento por, de acordo com os membros do Júri, constituído por Gilberto Matusse (presidente), Fátima Mendonça, Manuel Tomé, Armando Artur e Artur Bernardo (vogais), inspirar novos autores moçambicanos, que, inclusive, adoptam a forma de escrita do autor recém-laureado. Paralelamente a esse feito, a decisão de premiar Ungulani prendeu-se ao facto do escritor ter: co-fundado a revista Charrua, que contribuiu para robustecer a literatura e cultura moçambicanas, com a sugestão de um novo modelo de escrita; desempenhado funções de relevo, com impacto no país, como guionista no Instituto Nacional do Cinema, Secretário-Geral na AEMO e director no Instituto Nacional do Livro e do Disco. Na percepção dos membros do Júri, igualmente, Khosa, contribui para o crescimento da literatura e cultura moçambicanas através de intervenções e edições da sua obra no estrangeiro e por ter escrito um dos melhores livros africanos do séc. XX.

Momentos depois de receber o Prémio José Craveirinha, o escritor não se deixou levar por falsas humildades. Foi directo ao afirmar que já previa obter tal reconhecimento, pois, segundo suas próprias palavras, de todos que a HCB pagou a passagem para participarem da cerimónia, não viu um candidato tão favorito quanto ele. Mesmo sem ninguém ter-lhe dito alguma coisa, confiante, Ungulani ligou para Salomé, a esposa, e adiantou que o prémio seria seu. Previsão acertada, o autor de Ualalapi somou mais um reconhecimento literário nesses mais de 30 anos de dedicação à escrita.

MAIOR PRÉMIO LITERÁRIO DO PAÍS

O Prémio José Craveirinha foi instituído em 2003. Desse ano até 2007, o prémio distinguiu o melhor livro do ano. A partir de 2009, foi remodelado, passando, desde então, a laurear a carreira de um escritor, poeta ou ensaísta moçambicano cujo impacto da sua obra seja acentuado para o enriquecimento da arte literária e cultura moçambicanas.

Ungulani Ba Ka Khosa é o sexto autor a ser atribuído o prémio carreira que já conquistou em 2007, quando se distinguiu o livro Os sobreviventes da noite. Antes de Ungulani, venceram o prémio carreira Fátima Mendonça (2016), Luís Bernardo Honwana (2014), Lília Momplé (2012), Calane da Silva (2011) e Aldino Muianga (2009).

O Prémio José Craveirinha é uma iniciativa criada pela AEMO com patrocínio exclusivo da HCB. Com esta premiação, Ungulani Ba Ka Khosa leva para casa cerca de 1 500 000 meticais.

 

FEIRA DO LIVRO DO SONGO

A cerimónia de premiação de Ungulani Ba Kh Khosa coincidiu com a abertura da sétima edição da Feira do Livro do Songo, igualmente patrocinada pela HCB, empresa que subsidia o preço do livro em 30%, para que as comunidades e mais potenciais leitores possam conseguir pagar. O evento teve intervenção do Governador de Tete, Paulo Auade, quem considerou: “É de grande orgulho para a nossa província, quando, uma empresa de prestígio internacional, como é HCB, patrocina eventos culturais que são já uma referência a nível nacional e internacional. A Feira do Livro do Songo é uma oportunidade para os residentes desta parcela do país conhecerem de perto e interagirem com grandes nomes da literatura moçambicana”.

O principal orador na cerimónia foi Filimone Meigos, quem colocou a importância da leitura no mesmo nível que o da alimentação, pois, para o poeta, enquanto os alimentos satisfazem o organismo, a leitura enriquece a alma. E Nataniel Ngomane, presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, parceiro da HCB nesta iniciativa, frisou: “Se nós lermos o bastante, vamos crescer bem e buscar melhores soluções para os problemas que afectam o país”.

 

UNGULANI BA KA KHOSA

Prémio José Craveirinha 2018

Um escritor, meus amigos, nunca pensem que tem dinheiro. Mas temos uma coisa: a paixão de escrever. E vocês, acima de tudo, vocês estudantes que têm sempre a paixão de escrever, não pensem que são melhores ou piores que os outros. Não. Todos nós somos como qualquer um. Ser escritor é paciência; ser escritor é encontrar-se. Tenho 61 anos, não tenho nada, mas há uma coisa, sou recebido por governadores. Recebem-me e recebem-me como gente.

PEDRO COUTO

PCA da HCB

O Prémio José Craveirinha é o maior de literatura nacional e um dos maiores dos países de língua oficial portuguesa. O mesmo foi instituído visando impulsionar e alargar a criação e produção literária de qualidade, distinguindo escritores nacionais que se evidenciam pelo seu mérito na concretização desse desiderato. Agradeço à Associação dos Escritores Moçambicanos por se associar à HCB, mantendo vivo o Prémio de Literatura José Craveirinha.

 

CARLOS PARADONA

Secretário-Geral da AEMO

A HCB e a AEMO, com este Prémio José Craveirinha, colhem os frutos que dignificam as nossas artes e o país em geral. Com a instituição desde galardão, os escritores moçambicanos alcançaram maior respeitabilidade nos diversos quadrantes do mundo, porque não passa despercebido do plano internacional. Este prémio foi instituído para fazer jus à dimensão do nosso poeta-mor e queremos enaltecer o comprometido da HCB com a nossa literatura.

 

GILBERTO MATUSSE
Presidente do Júri

Os membros do Júri deliberaram atribuir, por unanimidade, o Prémio José Craveirinha, edição 2018, ao escritor Ungulani Ba Ka Khosa. A decisão do Júri fundamenta-se no seguinte: o escritor, desde o lançamento da sua primeira obra, tem-se assumido como uma voz emblematicamente comprometida com trabalho original e ousado que ano após ano apresenta aos diferentes tipos de leitores inovações nos planos estético-literário, linguístico, filosófico e histórico.

 

 

 

 


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