Vendedores de liberdades

O senhor Namagulia Murara saiu quando a aurora era ainda uma utopia inimaginável. Nem a Paciência, sua esposa que se mantinha entre os lençóis encardidos, no velho colchão de molas, sentiu os passos lentos que o seu marido coreografava para não deixar quaisquer desconfianças naquele minúsculos e reles quarto, onde o seu doce, como tratava a mulher em momentos de fugazes alegrias, um hábito que nos últimos anos já se escasseava, repousava o corpo e a alma.

Pegou com certo carinho as chaves para evitar aquele tlintar que podia acordar a parceira, imprimiu nuns camaleónicos passos naquele esburacado soalho de argamassa e com as duas mãos, para que os gonzos não cantassem tão alto ao ponto de despertar a dona Paciência, abriu a porta e saiu! Em fracção de segundos perdeu-se na cacimba matinal.

Quando o ponteiro curto e grosso do relógio, preso a uma das paredes daquela velha casa de madeira e zinco, apontou para as cinco horas da manhã, dona Paciência ouviu um gogogogo incomum, ruido que a despertou do desconfortado sono. Abriu os olhos de mansinho, trouxe sua alma ao mundo e esticou as antenas do seu pavilhão auditivo para averiguar se era ou não devaneio e se realmente era sua a porta que bramia aquela hora da manhã, lamentavelmente a realidade se impôs ao ponto de pontapear a porta.

A primeira surpresa foi a ausência do seu marido, o que a motivou a se levantar e não precisou expor seu rosto ao velho espelho que espetado a uma das paredes reflectia a cama, como fazia em dias normais, apenas gritou bem forte com a intenção de abafar a algazarra que vinha de fora, enquanto procurava qualquer coisa para esconder as vaidades.  

“Qual é o problema, já?!!!!”

Mesmo que fizesse um esforço brutal, seu grito não era capaz de abafar aquele gogogogo da porta. Era um trenado barulho e os que o promovia continuavam motivados mesmo depois da intersecção da mulher. Dona Paciência nem mesmo precisou ajeitar a velha capulana que cobria apenas a parte frontal do corpo, assim que abriu a porta, com o tecido entre os dedos, viu três homens com rostos mergulhados de ira o que indiciava a disposição para qualquer selvajaria. Os estranhos invadiram-lhe o rosto murcho que trazia da noite, porém a mulher olho-os nos olhos com aquela coragem que as pessoas nessas situações não sabem de onde vem.

“Algum problema?”

“Todos do mundo!”

“O que aconteceu?”

“É isso mesmo que queremos saber…”

“Viram me marido?”

“É isso mesmo que queremos.”

Apenas um deles respondia a mulher, sendo que os restantes dois olhavam-na como famintos olham para qualquer coisa comestível, o que constrangia mais a dona Paciência a ponto de perder a paciência.

“Onde está o teu amarido!”

“Aconteceu alguma coisa?”

“Apenas diga onde, porra…”

“Eu, eu, eu… não sei onde ele está…”

A determinação dos homens foi-lhe arrancado a ousadia que trouxera da noite, começou a tremer e tremia bastante o que lhe fazia gaguejar. Os dois homens, os de sem palavras aprimoravam mais ainda aquele olhar de feras famintas. De olhos abertos e testas enrugadas pareciam rugir, tinham rostos experimentados a várias adversidades, características exaltadas pelo excesso de cicatrizes que exibiam. O trio vergava vestes pretas, não se sabia se era ou não coincidência, o facto é que aqueles trajes acompanhados daquele terror representado em seus rostos, naquela fatídica manhã, fizeram bater mais rápido o coração da dona Paciência. 

“Estás a ver alguma cara de palhaço?”

“A verdade é que eu não sei onde ele está!

“E tu és o quê?, o porta-voz dele?”

“A esposa!”

“Então onde ele está?

“Quem são vocês e o que querem com o meu marido?”

“Não queremos nada com ele, queremos é ele!”

O clima já estava tenso, dona Paciência que já estava impaciente olhou nos quatro cantos do seu vasto quintal e nada viu, apenas aquele ar sóbrio que soprava misturado na ramagem matutina. Naquela hora da manhã nenhum dos seus vizinhos havia acordado, aqueles homens desconhecidos que se não haviam apresentado, nem dito porquê procuravam o senhor Namagulia Murara, eram as únicas vivalmas ali, “Mas onde se meteu este senhor?” Pergunto a mulher si mesma sem soltar a voz e o mais agravante era que nem ela sabia o que o marido teria feito para merecer tal visita.

“Mas bem, bem, bem, podem-me dizer o quê que meu marido fez?”

 “Chega de blá, blá, blá… vamos levar ela connosco!” Determinou um daqueles que ainda não haviam tossido sequer.

“Como assim, levar ela?”

“É o que temos, djony.”

“Mas não ela quem queremos, ela é inocente.”

“Não há inocentes nessa cena. Vamos levá-la e pontos!”

Dona Paciência, depois de ouvir a sua sentença, de costas voltadas a porta, retornou para dentro da casa, fechou-a com todas as trancas e, toda a pressa e força que tinha. Ofegante, com os poros a libertarem-se, apesar de a manhã estar muito friorenta, já se via com o corpo ensopado. Correu para o quarto procurou por qualquer coisa, mas no meio daquela agitação não conseguia localizá-lo nem saber o que era, enquanto isso os três homens embarafustavam a porta com todas as forças do mundo.

Em menos de cinco minutos, com a porta já escancarada, introduziram-se no interior da casa, vasculhavam em todos compartimentos pela mulher. Dona Paciência estava num dos quartos desusados tentado quebrar a janela, e se não fosse tão dura a tabua que o marido usou para fechar aquela janela talvez ela tivesse chance de escapar antes mesmo que o homem de poucas palavras entrasse e a pegasse pelo pescoço. Assim que agarrou trouxe-a até a sala de estar, onde se encontravam os seus dois comparsas e disse:

“Quer morrer, quer viver?”

 “Onde está o trafulha do seu marido?” Berrou o primeiro interlocutor.

Vendo que não teria qualquer resposta que lograsse seus intentos, o homem deu-lhe uma bofetada de arrepiar a alma e atirou-a no soalho. A mulher desfeita chorava, chorava sem saber nenhum dos porquês de tudo aquilo. Chorava até quando os homens lhe meteram no guarda malas do runx vermelho que estava estacionado a duas léguas da sua casa.

Foi uma manhã trágica para aquela mulher, que ensanguentada não parava de chorar para o “cala-te” dos homens de preto. Quando Senhor Namagulia Murara voltou por volta das vinte e duas horas, não se surpreendeu tanto ao encontrar a casa como se fosse o epicentro de um vendaval tropical. Entrou de mansinho assim como saiu de madrugada, levou algumas peças de roupa e com uma pasta nas costas sumiu, pé ante pé e desapareceu na escuridão da noite.

Algumas horas mais tarde, numa barraca algures na cidade, quatro homens bebiam um copo enquanto estudavam o que fazer com a mulher, que respirava com imensas dificuldades no porta-malas do runex.

“Edjo, aquele gajo não virá resgatar a mulher, pá?”

“Então, vamos fazer o quê?”

“Vamos-lhe mostrar que não se brinca com a malta!”

“Como?”

“Vamos pensar bem, bradas.

“Pensar bem? Ora bolas… O gajo quando nos prometeu dinheiro, não estava a pensar bem?

“Ya, porra, a malta encheu as urnas e o gajo não quer nos encher os bolsos.”

“E dizem que ganharam…”

“Isso não me interessa, eu quero minha xibaba, djo.”

“Estás a ver, né? Esse gajo vai nos conhecer.”

“Ah vai… espera só.”


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