Matola: uma eleição, três editais e três resultados diferentes

Foi pela voz da segunda vice-presidente da Comissão de Eleições da cidade da Matola (CEC da Matola) e de mais sete dos vogais provenientes da Renamo e do MDM que veio a contestação dos resultados eleitorais publicados sábado pelo presidente daquele órgão. Os contestatários dizem que os resultados considerados oficiais foram produzidos apenas com a participação dos vogais do partido Frelimo e não reflectem a verdade. Aliás, Torina Francisco Miquitai exibiu três editais do apuramento das eleições autárquicas na Matola, dos quais só reconhece apenas um. Trata-se do primeiro que dá vitória à Renamo, com 47, 46%, contra 46,85% da Frelimo.

Nos dois últimos editais, a Frelimo leva vantagem com 48,15 e 48,05% respectivamente, enquanto a Renamo passa para segundo lugar com 47,46% e 47,28 e respectivamente. “Aqueles não são os resultados produzidos na escola industrial. Nós não sabemos onde foram feitos aqueles resultados”, queixou-se a segunda vice-presidente CEC da Matola.

Idêntica posição foi manifestada por sete vogais dos partidos da oposição que inclusive não assinaram os editais divulgados pelo presidente da comissão. E um deles é Romão Rego, que acrescenta que para além de resultados fraudulentos, o processo eleitoral na Matola foi marcado por diversas irregularidades, desde a detenção de um membro de mesa de voto, até à introdução de dados por pessoas que não passaram por qualquer concurso público.

“Os resultados que foram divulgados, Eu, na qualidade de vogal, estando na comissão da organização das operações eleitorais, desconheço os resultados que foram divulgados no sábado, nunca os vi e no dia do apuramento nenhum daqueles números constava do documento impresso”, disse Romão Rego.


NOVELA DOS TRÊS EDITAIS

Três editais sobre o mesmo processo de votação. Três resultados diferentes sobre o mesmo processo de votação. Mas todos os editais com um denominador comum: a assinatura do presidente da CEC da Matola, Carlos Comé, um quadro de segurança que já dirigiu a extinta Polícia de Investigação Criminal. O jornal O País teve acesso aos três documentos e conta a história que começa com a vitória da Renamo e termina com a vitória da Frelimo.

No primeiro edital, foram registados 320.871 votantes, dos quais 3.129 foram votos em branco e 8.806 foram votos nulos. Feitas as contas, o número de votos válidos fixou-se em 308.936, dois quais 146.631 votos foram para a Renamo, que ganhou a eleição com 47,46%. A Frelimo segue em segundo lugar com 144.744 votos, correspondentes a 46.85%, e o MDM está na terceira posição com 16.759, equivalentes a 5,42%.

Para a Renamo e o MDM, este é o edital que reflecte a vontade expressa nas urnas pelos eleitores da autarquia da Matola. Mas a Comissão de Eleições da Cidade da Matola, dominada pela Frelimo, entendeu que devia alterar alguns dados, por isso avançou-se para a produção do segundo edital. Aqui, os dados sobre o número de votantes, votos em brancos e votos nulos mantém-se inalterados, mas há uma mudança nos votos por cada candidatura. Enquanto a Renamo mantém os 146.631 votos, equivalentes a 57,46%, a Frelimo ganhou mais quatro mil votos, passando dos 144.744 para 148.744 votos. De vencido, a Frelimo passa a vencedor no segundo edital, com 48,15%. Os quatro mil votos que dão vitória à Frelimo foram precisamente retirados do MDM, que viu os seus votos baixarem de 16.759 para 12.759.

Apesar de terem testemunhado a sua produção, a Renamo e o MDM dizem que não assinaram o segundo edital, por não concordar com as alterações efectuadas.

Mas a novela dos editais não pára por aqui. Foi produzido o terceiro edital, cujos dados coincidem com os resultados divulgados no sábado pela Comissão de Eleições da Cidade da Matola. Apesar de manter a vitória da Frelimo, o terceiro edital apresenta dados completamente diferentes. Se nos dois primeiros editais a taxa de abstenção era de 36,30%, no terceiro as abstenções sobem para 40,83%. Ou seja, enquanto nos primeiros dois editais foram votar 320.871 eleitores, no terceiro edital o número de votantes reduziu para 297.889. Deste universo, 2.861 foram votos em branco, 8.090 votos nulos e 286.938 votos válidos.

Na distribuição dos votos por candidatura, a Frelimo aparece como a vencedora das eleições na Matola, com 137.875 votos, correspondentes a 48,05%, a Renamo está na segunda posição com 135.678 votos, equivalentes a 47,28% e o MDM é o terceiro, com 11.799 votos, correspondentes a 4,11%.

O terceiro edital é assinado por oitos vogais que representam a Frelimo na Comissão de Eleições da Cidade da Matola. A Renamo e o MDM dizem que nem sequer sabem onde e em que circunstâncias foi produzido o terceiro edital, por sinal aquele que é considerado o oficial.


STAE VALIDA ÚLTIMO EDITAL

Desde domingo que o jornal O País tenta, sem sucesso, contactar o presidente da CEC da Matola. Carlos Comé não estava contactável nos seus seis números de telemóvel que tivemos acesso. Ontem, o jornal voltou a insistir, mas debalde: os seis números continuavam fora do ar e Carlos Comé nem sequer se encontrava no seu local de trabalho.

Já no STAE da Matola, o jornal conseguiu falar com o respectivo director, Augusto Langa. “Nós reconhecemos como legítimo o edital que foi publicado oficialmente e num acto solene, onde houve a participação de todas pessoas”, reagiu o director do STAE na Matola, acrescentando que desconhece os outros dois editais apresentados pela Renamo


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