Vinte e Cinco

Ela segurou-me pelos olhos. Pelo fio do olhar, delicado, mas fatal como a seda teia de uma aranha. Entramos para a cela escura. Não, não estávamos detidos. Pagamos três notas aos policias da esquadra, para termos meia hora de privacidade naquele compartimento.

Deslizou um, dois, três passos felinos. Pousou a cidra no chão, depois de um gole. Na bolsa entreaberta, uma capulana em prontidão. Estendeu-a sobre uma pilha de tijolos que, sob uma placa de madeira e outras coisas, fazia uma cama estreita, no compartimento estreito, na tarde estreita, como a vida, estreita.

Sentou-se sobre a capulana. Não se despiu. Com a crise, elas não se despem antes do pagamento. Outro gole de cidra, sem me soltar do olhar. Soltou os lábios. O sorriso lampejou o lugar semi-escuro.

Contive a pressa, fechei a grade. Dei um coice na porta sem fechadura, com o calcanhar. A porta bateu, estremeceu docemente as lascas de que se cobria e voltou a entreabrir-se, como se percebeu no gemido penoso das dobradiças.

Sentei-me sobre a capulana, ao lado dela. O enchido que fazia de colchão suspirou com o peso. Ela acendeu outro sorriso, receptiva, e iluminou o quase quarto. Soltou-me do olhar e virou-se para a janelinha gradeada. Segui-lhe o olhar, enquanto o meu braço lhe percorria, pelas costas, o tecido leve da blusa e os volumes de carne que lhe esculpem a cintura. De esguelha viu-me mexer, com a outra mão, num pequeno baralho de notas pequenas, preparando o pagamento.

– Faço anos – atiçava-me a generosidade no pagamento, puro golpe de marketing, com a delicadeza duma timbila sedutora na voz nasalada.

Era junho. Estávamos a vinte cinco. Vinte cinco da independência. Eu disse-lhe que era privilegiada por ter nascido naquela data.

– E sou de 1975, tenho idade da independência.

Olhava para a janelinha gradeada como se procurasse alguma independência por ali. Não lhe entreguei ainda o dinheiro. Precisava da mão para segurar as dela, tremulas. Já não sorria. Sem o sorriso os músculos da fase cederam. Deu um gole na cidra, apercebeu-se da garrafa vazia, e disse, olhando para a garrafa:

– Sabes, o mundo é vazio.

Animei-a dizendo que junho era um mês bonito, de bons feriados. Dia da criança. De África. Da independência. Massacre em Mueda. Tinha conseguido a ignição de um sorriso, mas o motor foi-se abaixo quando lembrei do 16 de Junho, dia da moeda.
– O dinheiro... – suspirou –, o grande mal deste mundo.
– A guerra também – acrescentei.
– Vem tudo junto. Eu tenho a idade de um país que sofreu com guerras e está endividado. Sei disso porque pelo meu corpo também passaram por muitas guerras.
– Mas tu estás endividada?
Suspirou. Teria dado outro gole na cidra se a garrafa não estivesse vazia. Não olhou para mim:
– Eu sou puta.
Não lhe vi os olhos, mas percebi uma lágrima no tom da voz. Olhávamos para a janelinha da cela. Apertei, instintivamente, o abraço. Ela deixou cair os cabelos postiços sobre mim e a cabeça no meu ombro. Assim abraçados, e a olhar para as grades da janelinha da cela, comecei a sentir-me gradeado num sentimento indescritível. Lá fora, uma bandeira içada no pátio da esquadra, resignava os seus últimos fiapos, na tarde sem vento.

 

 

 


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