“Visca Catalunya!” - Os breves intensos anos da República Catalã

Francesc  Macià - na sequência das eleições municipais ganhas pelos republicanos e perante o facto de o rei se ter exilado (refira-se que o ditador Primo de Rivera, que governara  a Espanha entre 1923 a 1930, demitira-se um ano antes e se exilara em Paris) -,  declarou, a 14 de abril de 1931, a República Catalã,  que teve uma existência efémera. Seria presidente da Generalitat, num governo provisório desde 28 de abril do mesmo ano e depois eleito pelo Parlamento da Catalunha desde 14 de dezembro até à sua morte a 25 de dezembro de 1933, quando foi sucedido por Lluís Companys, que também pertencia à esquerda republicana radical. Recordo-me dos anos desta república, tão bem cartografados pelo escritor irlandês Colm Tóibín, na sua “Homenagem a Barcelona”, no dia em que foi proclamada, uma vez mais, a República da Catalunha. Não é, por conseguinte, a primeira vez que se declara a República Catalana. Em 1641 fora Pau Claris a fazê-lo; em 1873, Baldomer Lostau; em 1934, haveria de ser Lluis Compays, companheiro de Macià, a proclamar o mesmo. Se Lostau declarou um “Estado Catalão”, Macià içara a bandeira de uma república dentro de uma Federação ibérica e Companys um Estado Catalão dentro da República Federal Espanhola.

Os breves anos da República Catalã, dos anos 30 do século passado, são vistos como verdadeiros anos de ouro para a Catalunha e, sobretudo, para Barcelona. Pau Casals, que chegou a ser considerado o maior violoncelista do mundo, chamou-lhe “um verdadeiro Renascimento cultural”. O governo de Macià tornou oficial a língua catalã, abriu os cordões à bolsa e aumentou as despesas na saúde e educação, e planeou fazer a expansão da emblemática cidade de Barcelona. Para tal, Francesc Macià convida o lendário Le Corbusier. O arquiteto francês, de origem suíça, haveria de pronunciar sobre Barcelona uma frase igualmente lendária: “Por fim”, disse ele, “num ponto vivo do planeta, os tempos modernos encontraram um refúgio.”

Miró, o grande Joan de Miró, regressou de França. Havia uma nova atmosfera na cidade. Também lhe atraía o novo regime. Quando foi organizada, em princípios de 36, uma mostra da obra nova e vanguardista de Pablo Picasso, exposição que acolheu mais de 8 mil visitantes, Miró falou, como aliás o fez Salvador Dali. Esta inauguração foi transmitida ao vivo pela rádio. Picasso vivera em Barcelona na juventude.

A língua catalã que, como língua literária havia sido soterrada durante mais de trezentos anos, readquire nacionalidade. Um engenheiro que se tornara filólogo dedica-se a estabelecer as suas normas ortográficas. Em 1932 publica um dicionário com o apoio do Estado. A educação em catalão é, a partir dos anos 30, influente. Surgem manuais e coletâneas de textos na língua que se consagra. Uma nova geração de poetas catalães, influenciados pela poesia francesa e inglesa, evitando, quase sempre a influência castelhana, irrompe e se afirma.

Pau Casals, que nascera em Vendrell, na província de Tarragona, terra natal de Antoni Gaudí (o grande arquiteto de Barcelona, que projetou a Sagrada Famíla, entre outros marcos da cidade) e Miró, seria, naqueles anos, provavelmente, a figura cultural mais influente da Catalunha. Os seus concertos, sobretudo para as camadas sociais desfavorecidas, são a expressão maior da legenda daqueles anos fulgurantes da República Catalã. A sua carreira e o seu destino iriam ser destruídos, no entanto, pela Guerra Civil, que eclode em 1936.

O poeta andaluz Federico Garcia Lorca, que também viu o seu destino ser traçado, de forma trágica, pela Guerra Civil, teve o seu nome, no Bairro Gótico, dado a uma rua nos anos da guerra. Lorca chegou a Barcelona, pela primeira vez, em 1925, pela mão de Salvador Dali, que conhecera em Madrid. A década seguinte seria de uma paixão fulminante pela cidade catalã e pelas suas gentes.

Federico Garcia Lorca: “Barcelona é diferente, não é? Aí temos o Mediterrâneo, o espírito, a aventura, o grande sonho do perfeito amor. Há palmeiras, pessoas de todos os países, anúncios extraordinários, torres góticas e uma maré urbana intensa. (...) Que prazer foi para mim conhecer essa atmosfera e essa paixão. Não estou surpreendido por a cidade se harmonizar comigo, porque me entendi maravilhosamente com tudo aí e a minha poesia foi recebida de uma maneira que, na realidade, eu não merecia (...) E não apenas isso, mas eu, que sou um catalanista ferrenho, simpatizo muito com o que este povo fez, e estou cansadíssimo de Castela.”

Repare-se: “E estou cansadíssimo de Castela.” Margarita Xirgu, grande atriz catalã, irá representar peças do dramaturgo andaluz. “Mariana Pineda” terá cenários idealizados por Dali. Lorca expõe os seus desenhos na mesma galeria que expusera a obra de Miró e Dali. Isto nos finais dos anos 20. Em 1932, depois de publicar Um Poeta em Nova Iorque, regressa à cidade. É um poeta consagrado. Fala, recita poemas, os seus poemas são cantados, os poetas catalães recitam em catalão.

Quando, em 34, estreia a peça Yerma, em Madrid, vivem-se tempos conturbados. Lluis Company, que substituíra Francesc Marcià, falecido em dezembro de 1933, está em confronto com Madrid e declara a Catalunha como República independente: “Liberal, democrática e republicana”. Nesse mesmo ano emerge a figura de Francisco Franco, que reprimira a sublevação nas Astúrias a 6 de outubro de 1934. É visto como o salvador da pátria em relação ao comunismo. Margarita Xirgu (que acolhera em casa Manuel Azanã, ex-primeiro ministro, ao sair da prisão, acusado de apoiar sublevações em Espanha, é posta debaixo de fogo). A imprensa da direita ataca a peça de Lorca. No ano seguinte, Xirgu leva à cena Yerma, em Barcelona, enquanto a esquerda se prepara para as eleições no ano seguinte. As filas para as bilheteiras são enormes. São formadas desde muito cedo. Federico García Lorca falará no fim do espetáculo, numa sala completamente apinhada de gente. Elogia a cidade, elogia Margarita Xirgu e o seu trabalho. Xirgu sobe ao palco e diz: “El meu cor és amb vosaltres. Visca Catalunya!” (O meu coração está convosco. Viva a Catalunha). É o delírio.

A peça andaluza de Lorca percorre as aldeias catalãs e serve o fervor nacionalista. O poeta é famoso em Barcelona. Bodas de Sangue é a peça seguinte. Lorca está apaixonado pela cidade. Convive em Montjuic com os ciganos, gosta de ir comer na zona do porto, gosta de ouvir canções e danças andaluzas nos bares do Barri Xinès. Bodas de Sangue é um sucesso. Em dezembro de 35, Margarita Xirgu leva à cena outra peça de Garcia Lorca, Doña Rosita la Soltera.

Em fevereiro de 1936 chegam as eleições. Manuel Azaña, que fora acolhido por Margarita Xirgu, regressa ao poder. Exonera Francisco Franco do Ministério da Guerra e envia-o para as Canárias, em março do mesmo ano. Lluis Company, que fora derrotado na sua peleja com Madrid e exilado de Espanha, retorna, no mesmo mês de março de 36, a Barcelona. É recebido em apoteose. Consegue aprovar a sua reforma agrária. Pede a Pau Casals que toque a “Nona Sinfonia”, de Beethoven, nas escadarias do Palau Nacional de Montijuic, como este fizera, para Francesc Marcià, em 1931.

 

Casals não completará mais do que os três primeiros movimentos da sinfonia. A 17 de julho de 1936 começara a sublevação militar no Protetorado espanhol de Marrocos. A 18, Franco avançava a caminho de Marrocos. Começaria, assim, em termos cronológicos, a Guerra Civil Espanhola. A 19 de agosto de 1936, o poeta Federico Garcia Lorca é assassinado em Granada. Nos meses que se seguiriam, Barcelona seria destruída. Terminavam, de modo trágico, os breves e intensos anos de ouro da República Catalã. 

 


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