Xicalamidade – um regresso ao grau zero do desespero

A terra é a única coisa que fica quando tudo o resto acaba.

Isabel Allende

 

E de repente a terra fica completamente submersa. A vida quase desvanece. Nos ramos das árvores e nos tectos das casas prevalecem a esperança, a força que mantém inabalável a vontade de as personagens sobreviverem. De um lado está um comerciante (Adelino Branquinho), um pastor de gado (Flávio Mabota) e um administrador de cuecas (Jorge Vaz), afinal a água levou quase tudo. No tecto onde se encontram, antes das cheias, um dia funcionou uma mercearia. Agora é um porto de onde os vivos esperam partir com as suas angústias. Do outro lado do plano vêm-se duas mulheres: uma velha casmurra (Nélia Gilberto Nhambau) acompanhada pela neta (Joana Mbalango). Eis os dois mundos separados pela morte, um cenário de partida de uma peça acutilante e cheia de verdades taciturnas.

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Com a direcção de Jorge Vaz, o espectáculo teatral do Mutumbela Gogo representa a história de todo um povo anónimo que da noite para o dia teve de aprender a esquecer o sentido possessivo das palavras. Recuando alguns meses, Xicalamidadi vai recuperar no Centro e no Norte de Moçambique as circunstâncias que contribuíram para que vários moçambicanos das duas regiões ficassem isolados, primeiro, na sua dor, e, segundo, no seu próprio país. A peça do Mutumbela Gogo, essa companhia de teatro com 33 anos de existência, na verdade, é um exercício de colocar os que não viveram o Idai ou o Kenneth a sobrevoar os territórios tragicamente afectados pelos dois ciclones. A preto e branco. Logo, cada personagem, na história, retrata uma condição. Por exemplo, o carácter da velha casmurra é uma abordagem a todos aqueles que, mesmo diante do nada, escolheram ficar a ter de reaprender a viver num outro lugar de “favor”. No fundo está aí uma questão complexa, que, compreende-se, traz ao de cima a questão de determinadas pessoas sentirem-se relevantes devido à relação estabelecida com a terra, a tal única coisa que fica quando tudo o resto acaba, segundo Esteban Trueba, esse velho personagem de A casa dos espíritos, de Isabel Allende.

Na peça teatral Xicalamidade, a velha personagem cumpre bem esse papel de proteger um legado, válido aos herdeiros enquanto se mantiverem no lugar da tradição. Então a árvore na qual avó e neta buscam refúgio é mais do que um recurso natural, é cultural, daí a idosa sempre insistir em proteger o nada restante. Naturalmente, nisso apresenta-se um conflito entre as duas mulheres, pois se uma enxerga a esperança na permanência, a outra acredita na partida.

Num outro momento, Xicalamidadi é uma sátira ao instinto materialista dos homens. O comerciante que a certa altura bebe uma coca-cola escondido para não ter de partilhar com ninguém é um exemplo desse apego ao material; o pastor cuja vida perde importância por já não possuir os cabritos levados pelas cheias também. E o que dizer do senhor administrador? Para esse uma coca-cola é o maior argumento nesse jogo persuasivo de descortinar os mais misteriosos encantos femininos da personagem que não fosse a avó idónea, teria caído sedenta nos seus braços.

Portanto, além de ser uma história relevante para a compreensão do que se passou no Centro e no Norte, este ano, Xicalamidadi é, do ponto de vista criativo, um bom exemplo de que muitas vezes pode-se fazer teatro sem exagerados adereços no palco. E a decisão de se explorar o espaço vertical, colocando-se uma árvore virtual no cenário, rompeu com o habitual. A anacronia no preenchimento de vácuos narrativos também. O resto são os actores. De Branquinho a Vaz, Joana Mbalango e Nélia Gilberto Nhambau… Duas belas performances, num alto nível, que corresponderam ao rigor desse Gogo que é Mutumbela.

 

Título: Xicalamidadi

Autor: Mutumbela Gogo

Direcção: Jorge Vaz

Classificação: 15

 


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