Zinha: a menina que secava livros

A primeira foto tinha sido publicada no dia vinte e seis de Março, pouco depois das quinze horas, a segunda, no dia seguinte, trinta minutos depois das dezoito. Rui Lamarques, jornalista, tinha estado no “lugar certo e na hora certa”, e foi o responsável pela divulgação, no Facebook. Nas duas imagens, a Zinha, de sete anos, está na Praça do Município, no centro da cidade da Beira – usa um vestido preto, desbotado, com uma faixa cor-de-rosa na cintura –, ajoelhada numa esteira húmida, com meia dúzia de livros escolares debaixo do olho. Talvez o sol não queira colaborar, mas Zinha não se permite amuar, quer os livros secos. Do outro lado da estrada, contou-me o pai, os meninos banhavam-se na piscina da praça. Batiam na água e sorriam, descontraídas, a negar a devastação, dor e miséria que o ciclone Idai, que passara pela cidade, tinha deixado para trás. O rastro de sua fúria era inimaginável. Zinha pensa apenas nos livros. “Rosto sério, olhar grave… […], tanto amor pelos livros!”, sublinhou Lamarques na primeira foto. Os comentários e as partilhas cresceram num ápice, as fotografias – e depois um pequeno filme – tomaram de assalto as outras redes sociais. Zinha tornara-se na embaixadora da catástrofe, passara a representar “a força de vontade para juntar os trapos e recomeçar”, escreveu a escritora Cri Essência, no seu curto mais belíssimo texto intitulado “Feliz dia da mulher, Zinha”, publicado a 7 de Abril, no dia em que se celebra a mulher em Moçambique.

Quando vi a foto da Zinha a primeira vez (faria várias outras visitas, nos meses seguintes), com um livro aberto posto em cima dos joelhos, lembrei-me de quando a minha avó costumava ajoelhar-se, com uma peneira cheia de milho pilado entre as mãos, para separar o farelo. O olhar da minha avó era também parecido com o da Zinha, sisudo e inquieto. Há um encantamento nessas duas imagens, de uma intensidade quase obsessiva. Havia, entretanto, algo mais no olhar da menininha, um clamor como um portal para uma dimensão remota, a infância; e um outro portal na rota do futuro – ou à ausência dele. Creio ser fácil resumir estas ideias com duas frases de Samora Machel, a primeira, “[As] Crianças são flores que nunca murcham!”, e a segunda, “Fazer da escola uma base para o povo tomar o poder”. Ainda que fosse da época, ambientada no socialismo científico, e reconhecendo as suas humanas falhas, há algo no pensamento de Machel que é extraordinário, a sua visão. A Cri, em seu texto-homenagem, fala de “emancipação plena”, sublinhando a necessidade de se (re)pensar no “futuro da mulher moçambicana”.

A Zinha fez-se ícone. De forma inocente. Quando somos pequenos, as nossas crenças são genuínas. Um mártir ou um partidário é quase um louco. Quando somos pequenos, a lógica não é real, o que nos move não certo, mas é vital. Quando é que a Zinha tinha descoberto os livros? Saberia, a Zinha, que os livros eram mesmo mágicos? Eu acreditava que sim.

Andava na cidade da Beira havia dois dias. Tinha ido a conduzir. A minha irmã tinha comprado o seu primeiro carro e eu oferecera-me para levar-lhe. Depois do ciclone, a zona central aguentava-se, mas para os subúrbios, incluindo a vila de Dondo, a reconstrução era urgente, ainda que fosse, apenas, uma distante ilusão. Sustive, durante dois dias, a minha ansiedade. Tinha duas ou mais coisas para fazer antes de ir visitar a Zinha.

No final da tarde do terceiro dia, telefonei ao senhor Jaime António, o pai da Zinha. Pelo seu tom de voz e cuidado com as palavras, descobri-lhe a proveniência – era natural da Zambézia, assim como eu –, e não lhe dava mais do que quarenta e cinco anos. Disse-lhe que era escritor e que, como a filha, tinha muito amor pelos livros. Ele sorriu, ou pelo menos pareceu sorrir, não há como ter certezas quando não se está em vídeochamada. Contou-me que tinha recebido alguns telefonemas, logo depois da primeira foto tornar-se viral, e que estava a acostumar-se com a fama da filha. “E a Zinha, ela está acostumada? Vocês tiveram alguma forma de apoio”, perguntei. Respondeu-me que sim, muitos livros e algum material escolar.

Da nossa conversa, ficou claro que a Zinha precisava de uma nova mochila (a que lhe fora oferecida já se tinha descosida, “Era de chineses!”, comentou Jaime), de calçados (“Numero dez/ vinte e sete, da PEP!”), e cadernos e lápis. O David, um amigo que conhece a sombra da cidade, ajudou-me a fazer as compras. Levei para a Zinha, também, livros de literatura, uma boneca e doces. Encontramo-nos com o pai quando o sol se apagava. Ele trabalhava na zona da Praia Nova, fazia pequenos trabalhos, ao acaso, para viver e insistia em chamar-me “Boss”. Afinal, não viviam longe de onde a menina tinha sido fotografada. Em menos de três minutos, estacionei o carro na entrada de um beco, próximo da sucursal do Banco de Moçambique. O caminho era estreito e húmido. Dois ou três edifícios, em ruínas, surgiram do nada. Depois de um desvio à esquerda, a Zinha recebeu-nos com um olhar de falsa surpresa. Era ainda mais bonita e inteligente, a menina. Tinha pequenas tranças na cabeça e beijava a terra com os pés. A mãe, a dona Belinha Cipriano, serviu-nos duas cadeiras no quintal. A família era grande, a Zinha tinha mais quatro irmãos, três menores, que dividiam a cave do edifício em ruínas com os pais, e um mano de vinte e três anos, que tinha dois filhos e trabalhava no mercado informal do Goto. Enlaçámos uma cavaqueira de, pelo menos, uma hora.

“A vida é dura, aqui. Mas temos amor. É preciso lutar, um dia, se Deus quiser, teremos mais. Quero que os meus filhos tenham saúde e estudem. O futuro será diferente”, disse Jaime António, olhando-me nos olhos, sem vergonha.

Oferecemos os presentes que trazíamos, a Zinha sempre com cara de boba e a palma esquerda debaixo do queixo. Às vezes sentava-se no meu colo, às vezes dava uma pirueta e aproximava-se da Belinha, a mãe, que dividia os doces e biscoitos de chocolate entre os filhos. O David fez algumas fotos com o telemóvel, mas eu estava desconfortável, e apareci horrível em todas elas.

“E tu, menina que secava livros, o que queres ser quando fores grande?”, perguntei.

“Quando crescer, quero ser professora, para ensinar os outros.”

Eu sorri, sou professor e acho que ensinar é uma profissão nobre.

“Espero que continues assim, Zinha, a gostar dos livros e das letras e dos números”, disse eu.

“Os livros são o trabalho dela”, chutou o pai, “se não nos zangamos, ela não os larga”.

Eu voltei a sorrir. Ler é um vício bom, pensei. Lembrei-me da legenda da segunda foto do Rui Lamarques, “Uma vida sem paixões é pior do que uma cadeia”. Os livros eram a nossa paixão comum. Desejei que ela assim crescesse, preferindo o pensamento aos vestidos. A Zinha não ganhou uma bolsa de estudos, faz-lhe falta. É perigoso quando a Administração não olha para coisas tão pequenas e tão humanas como a história da Zinha, que foi fotografada. Há uma promessa. Espero que não murche.

Despedimo-nos.

 


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